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“Portugal está com uma bomba relógio debaixo dos pés”, diz António Saraiva

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JOSÉ SENA GOULÃO / Lusa

Presidente da CIP alerta para os riscos do crédito malparado e acusa António Costa de falta de ambição na redução estrutural da despesa e na redução da carga fiscal

O presidente da CIP disse esta segunda-feira, ao "Jornal de Negócios", que é preciso encontrar um instrumento que retire de banca o crédito malparado, alertando que Portugal "está com uma bomba relógio debaixo dos pés".

De acordo com António Saraiva, presidente da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, o crédito malparado deve "andar à volta dos 20 mil milhões de euros" e que, por isso, é preciso retirar da banca o volume de crédito, dando possibilidade às empresas de amortizarem as dívidas, "alongando prazos" ou transformando dívida em capital.

"Se isto não for feito, as empresas dificilmente irão obter crédito junto da banca, não recebendo a tempo dos seus clientes, às vezes do próprio Estado, as empresas vão acabar por morrer. Vão morrer, vão causar mais desemprego. Estamos com uma bomba-relógio debaixo dos pés", alerta o presidente da CIP.

António Saraiva defende ainda que “Portugal tem feito esforços de consolidação notáveis e medidas adicionais que poderão ter efeitos perversos. Seria inadmissível a imposição de sanções [por parte de Bruxelas], que nunca antes foram utilizadas. Muito menos, em nome de um conceito [o défice estrutural] discutível, que tem sido criticado. Seria inaceitável.” Por outras palavras, a Comissão Europeia não pode tornar-se um “factor de instabilidade” para o país, devido ao incumprimento das metas do défice.

A Comissão Europeia tem de ter “bom senso”, diz. “Portugal fez um esforço de consolidação orçamental visível e reconhecido por todos, que foi necessário para restaurar a confiança dos investidores, com consequências pesadas no emprego e no crescimento.(...). Não pode ser a Comissão Europeia, agora, a tornar-se um factor de instabilidade”, justifica António Saraiva ao “Negócios”.

Apesar desta opinião ser favorável ao que António Costa tem pedido nos últimos dias, o presidente da CIP não deixa o primeiro-ministro sem críticas. Acusa-o de falta de ambição na redução estrutural da despesa e na redução da carga fiscal. “Reconhecemos que este é o rumo que deve ser seguido, embora com mais ambição e consistência. Desde que a credibilidade desta estratégia esteja assegurada, e com ela o acesso aos mercados financeiros internacionais em condições favoráveis, é para nós mais importante não abandonar este rumo de consolidação do que a velocidade na correcção do défice público”, diz.

Quanto à área que tutela, o presidente da CIP afirma que já “começámos a assistir à desindustrialização, não apenas em Portugal mas também de um modo geral na Europa”, o que irá trazer novos desafios para o mercado. “Conseguimos manter alguma pequena indústria tradicional, que sofrendo essa ameaça inicial (...). Mas a grande capacidade industrial, essa, perdemo-la com a globalização”. Por isso, diz, “as empresas têm de apanhar o comboio da nova indústria.”