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Durão Barroso: “Há pessoas que pensam que vou voltar. Não é verdade”

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Encontro. Durão Barroso, minutos antes da sua última aula em Princeton, com o embaixador da Áustria na ONU e uma diplomata croata

polina yamshchikov - redux/4see

Não se arrepende da vida política, mas quer virar a página. Vai continuar a dar aulas e a trabalhar no sector privado fora de Portugal. Quer olhar para a política “com alguma distância, como passado”

Ricardo Costa

Ricardo Costa

em Princeton

Diretor de Informação da SIC

É um adeus aos Estados Unidos, onde viveu no último ano e meio, e à política, onde mergulhou durante trinta anos. O primeiro adeus é parcial porque continuará a ser professor associado em Princeton, em aulas mais ocasionais. O segundo adeus parece bem mais firme, porque a ideia e a vontade de dizer adeus à política perpassam toda a entrevista. Custa a acreditar, vindo de alguém que respira política e tem toda a tarimba nacional e internacional e todos os ódios e estimas que essa vida traz. Mas faz questão de falar no passado e de garantir que a sua vida vai ser agora de aulas em universidades europeias e de trabalho no sector privado, também na Europa, onde vai aceitar convites que foi adiando desde que deixou a Comissão. O Expresso assistiu à sua última aula em Princeton, um dia inteiro para alunos e vários diplomatas convidados a participar. A entrevista foi feita logo a seguir.

Quando olhamos hoje para um Conselho Europeu, o que está em cima da mesa é o Brexit, os refugiados e o terrorismo. O euro está bem abaixo na lista de prioridades. Não sente que passou demasiado tempo a olhar para um problema e que deixou de lado outros mais importantes?
Na altura, a maior emergência era a resposta à crise financeira e à crise da dívida soberana, aquilo a que se chamou a crise do euro, e nós conseguimos felizmente evitar o que a maior parte dos analistas considerava inevitável, o Grexit. A saída da Grécia arrastaria, estou convencido, imediatamente Portugal e levaria a um efeito dominó e, isso sim, poria em causa a sobrevivência do euro. Conseguimos evitar isso e reforçar os mecanismos da União Europeia, com mais poderes para o BCE, mais poderes para a Comissão. Acho que ficou provada a extraordinária resiliência da UE.

Se é verdade que a Grécia ficou no euro e que as instituições estão mais reforçadas, esta crise deixou uma série de economias de rastos e muitos sistemas políticos europeus devastados.
É verdade que a crise e a resposta à crise geraram efeitos de réplica, como se fosse um tremor de terra. Ainda estamos a sentir esses efeitos, mas eu penso que isso dependeu muito das respostas nacionais. É verdade que a Irlanda, Portugal, a Espanha e até agora Chipre saíram dos programas com a chamada saída limpa e conseguiram voltar a crescer. Agora, politicamente, nós sabíamos que isto era extremamente ingrato e os governos que aplicaram as medidas foram de algum modo penalizados, embora curiosamente os partidos tenham sempre ganho. Ou seja, quer na Irlanda quer em Portugal e em Espanha os partidos que lideravam os governos ganharam as eleições.

Mas não tiveram maioria para governar.
Bom, mas isso é a democracia e é natural que se pague algum preço quando se leva a cabo uma política em que se impõe algum sacrifício às pessoas. Eu continuo a pensar que as alternativas seriam muito piores. A situação era de pânico dos mercados, a palavra é dura mas é verdadeira, de quase bancarrota dos países mais afetados. Se não tivesse havido um ajustamento orçamental vigoroso não teríamos sido capazes de restabelecer a confiança das nossas economias e foi isso que foi feito.

Mas quando olhamos, por exemplo, para o caso de Portugal, o crescimento é muito baixo, a balança comercial depende muito da quebra do consumo, o desemprego é muito alto e o sector financeiro está com problemas graves.
Pois, o objetivo do chamado programa de resgate foi apagar um incêndio, não foi nem podia ser o de resolver todos os problemas estruturais da economia portuguesa, que se mantêm em larga medida. Portugal continua a meu ver muito vulnerável e era bom que em Portugal não houvesse ilusões sobre isso.

Porque é que acha que Portugal está vulnerável?
Bom, porque como disse Portugal mantém-se com um certo desequilíbrio. Penso que depois das eleições se agravou a desconfiança que ainda existe nos mercados dos principais agentes económicos internacionais.

Isso tem que ver com a natureza do Governo?
Tem também que ver, não tanto com a natureza política, mas com os sinais dados pelo Governo.

Nomeadamente o quê? As reversões?
Em termos de reversões, de reformas mais ou menos ambiciosas que estavam em curso. A meu ver, esse ponto foi preocupante. Até agora isso tem sido amortecido, tem sido ultrapassado, essencialmente por dois fatores. Um, estrutural, é o chamado quantitative easing do BCE, a injeção monetária sem precedentes. O outro fator é que o atual Governo — e aí tem que se dizer que o primeiro-ministro é de facto alguém muito hábil politicamente —, tem usado bem a sua network e as suas redes em Bruxelas e no Partido Socialista Europeu, e tem contado com uma condescendência ou com uma simpatia que lhe permite alguma folga.

Essa folga é o quê? Orçamental?
Não é tanto a questão orçamental.

É que as metas do défice são as mesmas. Então qual é a folga?
Folga, no sentido de não estar a projetar um sinal negativo de falta de confiança em relação a Portugal, que por exemplo foi projetado em relação à Grécia quando ganhou o Syriza. Nós temos hoje em dia, a apoiar o atual Governo, dois partidos que são contra a UE, pelo menos são absolutamente contra o consenso económico europeu.

Um deles é contra, o outro não é totalmente. O Bloco não é contra a UE.
Bom, eu li o programa dos dois partidos e esse partido que referiu não é só contra a união europeia, é contra o FMI, a OMC, é delirante. Agora está talvez num processo de aprendizagem, um processo de aproximação ao poder, mas o que eles declararam no programa é completamente contra o consenso económico europeu. Quando aconteceu isso na Grécia, foi a precipitação e o alarme dos mercados. Em Portugal, isso não aconteceu, o que é bom. Isso é possível porque, no ciclo anterior, Portugal ganhou respeitabilidade e confiança e também porque o novo Governo, habilmente — o primeiro-ministro está neste momento a passar entre as gotas da chuva — conseguiu evitar um impacto negativo do que seria o próprio anúncio da forma do governo.

E esse passar entre os pingos da chuva pode durar quanto tempo?
Bem, boa pergunta. Eu acho que as posições do PCP e do Bloco são irreconciliáveis, mas mesmo irreconciliáveis, com o consenso económico europeu. Estamos em dois mundos diferentes. Durante algum tempo é possível manter esta ambiguidade, que está a ser possível por causa da política de injeção monetária excecional. No dia em que essa política for modificada, e há sinais de que ela vai ser modificada, podemos ter um problema de confiança.

De que sinais…
Está a haver críticas na Alemanha em relação à política do BCE. Eu apoio a política do BCE, acho que está a fazer essencialmente o que é necessário fazer, mas... vou dizer uma coisa que se calhar o vai surpreender, eu acho que estamos a chegar, se é que não chegámos já, aos limites da política monetária em curso, o que pode levar-nos a repensar a política orçamental. Eu não excluo uma ação orçamental extraordinária ao nível europeu para os países que têm margem para o fazer, como aliás tentámos quando foi a resposta inicial à crise financeira. Isto não quer dizer, como já aconteceu em Portugal em 2009, ordem para gastar. Têm de ser os países que têm folga para isso e idealmente no conjunto europeu, volto à questão de uma mutualização dos empréstimos — os chamados eurobonds, que não foram aprovados, embora a Comissão o desejasse —, porque a Europa tem capacidade de ter uma política orçamental mais ampla.

PRINCETON. No intervalo da aula, na Nassau House,
 em Princeton, uma das mais antigas universidades 
dos EUA, onde viveu no último ano e meio

PRINCETON. No intervalo da aula, na Nassau House,
 em Princeton, uma das mais antigas universidades 
dos EUA, onde viveu no último ano e meio

polina yamshchikov - redux/4see

Muita gente vai ler esta entrevista e dizer: mas este aqui é o Durão Barroso que era o rosto da troika em Portugal e que fazia o discurso de falcão orçamental.
São situações diferentes. Na altura numa situação de pânico dos mercados, Portugal tinha de fazer o chamado front load do ajustamento orçamental, ou seja, tinha de fazer...

Uma travagem brusca...
Uma travagem brusca, senão não recuperávamos a confiança. Mas eu também disse muitas vezes que havia limites para essa política, limites sociais e limites políticos. Como português fiz tudo o que estava ao meu alcance para ajudar Portugal e também ajudar a Grécia, num plano mais pessoal. Fiquei muito sensibilizado quando há pouco tempo me foi dada uma das mais altas condecorações da Grécia. E o diploma foi assinado por um Presidente da República socialista e por um ministro socialista. A Grécia reconheceu que, nas minhas funções, fiz tudo o que estava ao meu alcance para apoiar a Grécia, mas ao mesmo tempo nós não podíamos perder a confiança nem o apoio dos países digamos mais duros, a Alemanha, a Finlândia, a Holanda...

Acha que os portugueses conseguem ter essa visão do seu papel?
Eu, francamente, fiz o que tinha de fazer. Do ponto de vista do reconhecimento português tive algo que também me sensibilizou muito por parte do Presidente da República, o chefe de Estado, que me manifestou esse reconhecimento.

Estou a falar ao nível da rua, não sei como são as suas idas a Portugal.
As pessoas abordam-me sempre com simpatia, mas eu sei que há pessoas que me criticam, que não concordam com o que eu fiz e que não gostam de mim, mas isso faz parte da política. Ficaria um bocado preocupado se todos gostassem de mim. Nós tomamos decisões, é claro que se gera controvérsia, isso faz parte da função política, e mal vai o político que procura agradar toda a gente.

Não acha que houve cortes que foram longe demais? Ou pelo menos muito mal explicados?
Isso sim, mal explicados sim. Sou muito sincero, eu fiquei com uma grande admiração pelo dr. Passos Coelho, sinceramente acho que mostrou um grande sentido de Estado, uma grande firmeza. Ao mesmo tempo, penso que ele não apresentou com empatia, com suficiente compreensão pelos problemas dos portugueses, as medidas que estava a levar a cabo. Acho que houve de facto um problema de comunicação, mais até do que um problema de comunicação houve um problema de relacionamento profundo com o país.

Há pelo menos um sector que não foi enfrentado de forma firme. Havia 12 mil milhões disponíveis da troika para o sector financeiro e Portugal só usou metade. E depois veio o caso BES, o Banif...
E já tinha havido o caso do BPN e do BPP.

O que quero dizer é que depois da troika os casos continuaram. Ou seja, porque é que Portugal não usou o dinheiro que tinha disponível para os bancos?
Boa pergunta. É melhor perguntar a Portugal porque não o fez.

Mas estou a perguntar ao ex-presidente da Comissão Europeia...
A responsabilidade direta é do BCE. No âmbito da chamada troika havia uma divisão de tarefas. Nós pusemos à disposição de Portugal instrumentos para lidar com a questão financeira, mas como se lembra, o consenso em Portugal é que estava tudo bem com os nossos bancos, que efetivamente eram bons, eram sólidos e nem o próprio sector financeiro nem os reguladores portugueses disseram com rigor a situação que a banca tinha. As instituições europeias não tinham ainda a possibilidade de intervir diretamente. Em Portugal, quer o regulador quer o Governo não fizeram alertas especiais, pelo menos que eu me recorde, em relação à situação da banca. A Comissão, por exemplo, quando recebeu notícias do Banif achou logo que aquilo era muito estranho.

Como é que a Comissão recusa oito planos de reestruturação do Banif e não há um sinal de alerta?
Mas houve. A própria recusa dos planos é um sinal de alerta.

Mas foi tudo resolvido à 25ª hora do último dia do último mês.
É melhor perguntar isso às autoridades portuguesas, às autoridades políticas e autoridades de regulação. A Comissão Europeia tem as costas largas, mas só faltava agora que se dissesse que a culpa da situação financeira em Portugal era da Comissão. A Comissão pôs o dinheiro à disposição. Portugal não quis utilizar o dinheiro. O melhor é perguntar a Portugal ou às autoridades portuguesas porque é que não o quiseram fazer. O presidente da Comissão não pode estar a acompanhar diretamente os processos, mas sei que o comissário responsável, uma grande figura socialista, o meu grande amigo Joaquín Almunia, os acompanhou de muito perto. E sei o que ele me disse: enquanto os outros bancos portugueses iam dando informação, o Banif não dava informação. A informação não era confiável. Na altura, recordo-me de ele dizer isso. E agora está a descobrir-se que de facto tinham dívida no Brasil, crédito malparado com números absolutamente astronómicos, quer dizer, uma irresponsabilidade total. Agora pôr as culpas na Comissão sobre isto é um bocado exagerado, era bom que cada um assumisse a sua responsabilidade.

Mas não acha também que é dificilmente sustentável para as democracias que os cidadãos, os contribuintes, paguem as falências de bancos sucessivamente, isto desde 2008?
Por isso mesmo é que pusemos em marcha a chamada União Bancária, com o sistema de resolução e a ideia, que eu sei que é polémica, de levar os próprios bancos, os acionistas dos bancos se for necessário, a pagar essas situações. É exatamente isso que estamos a fazer, a evitar que seja o contribuinte a salvar um banco. É isso que explica hoje em dia a situação de grande revolta que há em muitos sectores da Europa contra o sector financeiro. A Comissão fez o que estava ao seu alcance, que foi lançar uma legislação muito mais avançada, mais de trinta peças legislativas para a regulação no sistema de supervisão e regulação financeira. Uma coisa sem precedentes.

Preocupa-o a chamada espanholização da banca portuguesa?
O essencial é que os bancos funcionem bem. Que as pessoas tenham confiança nos bancos. A nacionalidade do capital é secundária, desde que seja no âmbito de funcionamento do mercado europeu. Como português, gostava que houvesse, e sempre haverá, uma parte da banca em mãos portuguesas. Aliás, tanto quanto sei, os principais partidos querem manter a Caixa Geral de Depósitos como um banco português, público.

Acha que a Caixa deve ser pública?
Com as ressalvas de não conhecer suficientemente o dossiê e de não estar na política portuguesa, eu diria que a CGD devia continuar como banco público, mas não sei se não terá de existir alguma injeção de capital privado, desde que se mantenha o controlo público. Pode ter de ser necessário aumentar o capital da Caixa e Portugal hoje em dia não está em grandes condições de garantir uma injeção de capital público, por isso não se deve dizer nunca a isso.

Não acha um contrassenso, uma armadilha, dessas em que a UE coloca às vezes os Estados-membros, que é Portugal precisar de um banco público e não o poder capitalizar porque isso afeta o défice? Não devia haver soluções que permitissem resolver este tipo de problemas sem ter de recorrer a capital privado?
Isso não tem que ver com a Comissão, tem que ver com as chamadas regras de Basileia, regras de capital.

Mas tem que ver com a forma de se calcular o défice.
Acho que a Comissão poderá ser flexível, porque as chamadas medidas one-off (uma vez)... Eu penso que pode haver alguma compreensão da Comissão. A Comissão é agnóstica no que diz respeito à propriedade pública ou privada da banca ou dos sectores económicos em geral. O que tem de haver é respeito pelas regras de concorrência. Se um Estado tem um banco público, ajuda esse banco público e destrói os outros a Comissão tem a obrigação legal de intervir para impedir que haja ajudas de Estado disfuncionais. Mas se o Estado português quiser manter um ou mais bancos públicos, pode perfeitamente mantê-los. Tem é de respeitar as regras da concorrência.

Quem se mostrou preocupado com a espanholização da banca foi o novo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Ficou contente com a eleição dele?
Fiquei muito contente. Acho que era sem dúvida o melhor candidato, não tenho qualquer espécie de dúvida, em termos de experiência...

Foi pelo facto de Marcelo querer ser candidato que o fez não pensar nas presidenciais?
Não. Aliás, no momento em que me foi posta a questão não era ainda seguro que Marcelo Rebelo de Sousa viesse a ser candidato. Eu acho que foi numa entrevista ao Expresso que eu disse que não seria candidato à Presidência em caso algum, por razões de ordem pessoal e familiar. Fiquei muito contente com a vitória de Marcelo, não só porque ele era o candidato mais preparado, mas também porque acho que é uma forma de justiça, porque se há alguém em Portugal que durante tantos anos investiu na política, na cultura política, foi ele e por várias razões — a política às vezes tem destas coisas — ele não tinha ainda conseguido o lugar de relevo que a meu ver merecia e, assim, de certa forma fez-se justiça.

Quando hoje olha para a crise dos refugiados, não acha que a Europa está outra vez atrasada em relação a este problema e a ter de apagar fogos?
Isso é verdade. A Europa é assim. A União Europeia é assim. Nós somos hoje vinte e oito países. No ano em que eu assumi a presidência da Comissão Europeia éramos quinze. Por definição, vinte e oito democracias demoram tempo quando têm de tomar decisões. O nosso sistema de decisão é quase inevitavelmente frustrante, fragmentário, incremental, progressivo. Dito isto, penso que no final acaba por haver soluções. Mas muitas vezes vêm algo tarde. Recordo-me perfeitamente que quando cheguei a Bruxelas fiz um alerta aos governos que a Frontex — que é a agência de controlo das fronteiras — tinha apenas 60 funcionários, ou seja, era mais pequena do que qualquer esquadra de Paris ou de Londres. Fui a Lampedusa e vi mais de 300 caixões de pessoas que tinham morrido a atravessar o Mediterrâneo...

E o que é que isso adiantou?
Nós fizemos um alerta aos governos. Na altura, conseguimos apoiar Itália. Salvo erro, foram mais de 500 milhões de euros que a Comissão colocou à disposição do Governo italiano. Alguma coisa foi feita, mas a verdade é que a Europa normalmente só reage perante situações de crise. É reativa, não é proativa. Mas eu acho que vamos resolver esse assunto. Creio que a Europa vai resolver este assunto, porque só agora é que está a reconhecer que é preciso ter uma política europeia de refugiados. Até agora a política era quase exclusivamente nacional. Eram os governos que tinham de tomar as decisões.

Não acha que já está a ser pago um preço político? Houve eleições presidenciais na Áustria e os candidatos dos dois partidos históricos do pós-guerra não passaram à segunda volta. Na Alemanha, um partido novo, a Alternativa para a Alemanha, chega a ter 20% nas intenções de voto.
É exatamente isso. Estamos a testar os limites da tolerância da Europa. Estamos a testar os limites da capacidade da Europa aceitar estrangeiros. É o velho problema de hospitalidade ou hostilidade. Vem desde a história mais antiga, não é? Qual a atitude a adotar em relação ao estrangeiro? O estrangeiro é visto como um inimigo ou como um amigo? Eu faço sempre esta pergunta: se fosse comigo, se fosse com a minha família, se a minha cidade tivesse sido destruída, e com três filhos, o que é que eu faria? Procuraria chegar, fosse como fosse, a uma terra onde pudesse viver em paz. Por isso acho que temos o dever humanitário, moral, de receber aquelas pessoas. Ora isto é difícil nalgumas sociedades porque consideram que já há estrangeiros a mais, sobretudo se os estrangeiros vêm de outra religião ou de outra etnia. O problema do racismo, da xenofobia, da atitude em relação aos estrangeiros é gravíssimo. Tem de haver um grande esforço pedagógico e uma partilha da responsabilidade.

Mas a ajuda não é partilhada e não há uma política de distribuição de refugiados.
Não há porque alguns governos a estão a recusar e, assim, há outros países que estão a ser sujeitos a um esforço demasiado elevado. É o caso da Grécia, já tem tantos problemas e agora tem mais esta crise dos refugiados. Eu acho que a única maneira é mutualizarmos. Vou utilizar aqui outra vez esta palavra que usei quando foi da crise do euro. Temos de criar um sistema, um pouco como criámos com o euro, em que há responsabilidade nacional, mas também, quando necessário, uma capacidade europeia de intervir, de ajudar. Vai demorar algum tempo. Acho que a posição da sra. Merkel, mais uma vez, foi muito positiva. Há quem diga que ela exagerou, porque criou um efeito de chamada, mas mais vale exagerar no bem do que exagerar no mal. Aqueles que criticam Angela Merkel deviam perguntar-se o que seria se porventura a Alemanha ou a Europa tivessem dado o sinal contrário?

A Europa sobrevive a um Brexit?
Se me perguntar qual é o desafio mais agudo, mais iminente que vejo à União Europeia, a minha resposta inequívoca é uma eventual saída do Reino Unido. O Reino Unido é um país muto importante, é a quinta maior economia do mundo, é membro permanente do conselho de segurança da ONU...

Não foi uma jogada muito perigosa de David Cameron?
Foi. Obviamente que foi e por uma razão puramente interna, nomeadamente com o seu próprio Partido Conservador, que estava e continua muitíssimo dividido na questão europeia. Para resolver essa questão, David Cameron, prometeu, para ganhar tempo, um referendo. Bom, vamos ver agora. Desejo muito que ele tenha sucesso, mas é uma jogada de altíssimo risco, porque há muita gente que pensa que se o Reino Unido sair da Europa, a Escócia sai do Reino Unido e nesse caso temos, não apenas a divisão da Europa, mas também a divisão do Reino Unido.

Quando dá aulas e conferências tem saudades da adrenalina e da tensão dos cargos políticos?
Eu gostei muito do que fiz. Da minha experiência política, mas não tenho quaisquer intenções de voltar à vida política.

Essa manifestação de intenção é firme?
É firme. Estive mais de trinta anos na vida política, estive mais de dez à frente da Comissão, estive doze anos no Governo, incluindo algum tempo como primeiro-ministro, estive como líder da oposição... Bom, mais de trinta anos e acho que é bastante.

Não tem vontade de voltar?
Não.

Nem de ter cargos políticos?
Estou na vida académica, gosto muito da universidade, gosto muito de dar aulas, investigar, ler, do contacto com gente mais nova. A minha ideia é continuar na vida académica, vou ficar associado aqui à Universidade de Princeton, continuarei a dar aulas na Universidade Católica em Lisboa, também devo continuar, pelo menos algum tempo, em Genebra, na Suíça. Entretanto, recebi algumas propostas interessantes do sector económico e empresarial.

Português ou estrangeiro?
Estrangeiro, no geral. E é possível que aceite alguma coisa do ponto de vista não-executivo, portanto a política para mim hoje em dia, como atividade, é coisa do passado.

Quando for trabalhar para o sector privado não acha que as pessoas vão dizer “olha, lá vai mais um da política para as administrações das grandes empresas mundiais, europeias...”
Bom, eu acho que as pessoas têm o direito de trabalhar, se não trabalham no sector público podem trabalhar no sector privado, não vejo o que é que há de mal por definição no sector privado. A Universidade de Princeton é privada. Eu acho que é perfeitamente legítimo, desde que se evite qualquer problema de conflito de interesses. Razão pela qual quis deixar passar algum tempo antes de considerar qualquer ocupação desse género. Precisamente para marcar uma distância no tempo em relação a essa responsabilidade. Claro que não prescindo de, se achar interessante, dar a minha opinião, até porque acumulei uma experiencia bastante rica do ponto de vista europeu e internacional, mas não tenho qualquer intenção de voltar à vida política até porque gosto muito daquilo que estou a fazer.

Quando pensa que há portugueses que olham para si, nomeadamente pessoas que votaram em si, e dizem: abandonou-nos, foi para a União Europeia e ainda por cima foi um dos rostos da troika... não acha que deve uma explicação, nomeadamente a essas pessoas?
Eu devo explicações, sempre. E dei-as na altura, quando tomei essa decisão. Dei-as no meu governo, no meu partido, dei-as no Parlamento. O Parlamento português votou essa situação. Dei-as ao Presidente da República da altura, o dr. Jorge Sampaio, que apoiou a minha decisão. Agora, é verdade que houve incompreensão. Às vezes pergunto-me também porquê, porque sinceramente o meu colega Herman Van Rompuy, foi primeiro-ministro da Bélgica durante muito pouco tempo e saiu para ir para presidente do Conselho Europeu e, como ele próprio me disse, foi beatificado na Bélgica. Toda a gente concordou, acharam que isso era fantástico para a Bélgica. No meu caso, uma grande parte do país, não compreendeu, não aceitou. Parece que só eu sou responsável, não só pelo que fiz, mas também pelo que outros fizeram a seguir. Ora parece-me um bocado de mais, uma pessoa assume a responsabilidade por aquilo que faz, mas não pode ter a responsabilidade por tudo o que se segue.

É um pouco a ideia de que saiu para a Comissão Europeia e, antes de si, António Guterres também saiu e os dois tiveram cargos internacionais extraordinários.
O que mostra que algumas qualidades teremos, para sermos aceites nesses cargos... Eu acho que ver a posição de presidente da Comissão Europeia como uma fuga à responsabilidade é pelo menos ignorância. Não é de certeza mais fácil do que ser primeiro-ministro. Ninguém vai para a presidência da Comissão Europeia para fugir de responsabilidades. E eu penso sinceramente que para Portugal foi bom termos um presidente da Comissão Europeia, e isso já foi reconhecido quer pelo governo do dr. Passos Coelho, quer pelo governo anterior do engenheiro Sócrates, quer pelo ex-Presidente da República, prof. Cavaco Silva. Dito isto, sabe que eu acabei de fazer 60 anos. Aqui há uns anos era capaz de sofrer um bocado com isso, ficar um bocado magoado, hoje em dia relativizo as coisas muito mais. Faz parte da vida política termos apoio e termos desapoio, termos compreensão e incompreensão, mas sei que existe, estou perfeitamente consciente, sei que existe essa perceção.

Aulas. Com Dusan Sidjanski, seu professor na Suíça há mais de trinta anos, e Wolfgang Danspeckgruber, diretor do Instituto onde ensinou

Aulas. Com Dusan Sidjanski, seu professor na Suíça há mais de trinta anos, e Wolfgang Danspeckgruber, diretor do Instituto onde ensinou

polina yamshchikov - redux/4see

Como é que reage quando lembram o papel que teve na Cimeira das Lajes, que esteve na origem da invasão do Iraque?
Bom, como é que reajo? Ouço as críticas, conheço as críticas. Eu acho que na altura com a informação disponível que tinha foi a posição adequada. Tivemos países nossos aliados e amigos, os Estados Unidos, o Reino Unido e a Espanha que propuseram que nós organizássemos a cimeira. Aliás, na altura, com o apoio do Parlamento português e com o apoio do Presidente da República de Portugal, o dr. Jorge Sampaio, que expressamente me disse que sim, que concordava. Foi a única pessoa que eu ouvi antes.

O Presidente Jorge Sampaio anuiu na realização da Cimeira das Lajes?
Sim, foi a única pessoa que eu consultei antes de tomar a decisão final. Depois de me ter sido proposto isso pelos outros países. A verdade é que depois viemos a verificar coisas que não correram bem. Foram-me apresentados documentos dizendo que havia armas de destruição maciça no Iraque. Eu, aliás, ainda conservo alguns desses documentos. E, afinal, não havia. Foi-me dito também que estava tudo preparado para uma transição a seguir. Eu nunca tive dúvidas de que seria relativamente fácil deitar abaixo Saddam Hussein. A dificuldade era o dia seguinte. Bom, isso também não se veio a verificar. Honestamente, tenho de dizer que, se fosse hoje, não teria tomado a mesma decisão. Essa é uma das decisões que teria modificado. Hoje. Mas na altura não tinha essa informação. E entre os nossos aliados, a grande democracia norte-americana e o regime despótico de Saddam Hussein nós não podíamos ser completamente neutrais, devíamos apoiar os Estados Unidos.

Havia muitos países europeus que eram contra, e outros que, pelo menos, tinham grandes dúvidas.
Havia contra, mas havia talvez uma maioria a favor. As pessoas esquecem-se, porque agora não é conveniente dizê-lo, mas não foi só o Reino Unido... Foi a Espanha, a Itália, a Dinamarca, a Holanda, a República Checa, na altura de Vaclav Havel, todos eles por uma questão de apoio à democracia contra a ditadura de Saddam. Havia uma divisão? Bom, é natural que houvesse uma divisão, mas isso, como se viu, não comprometeu a minha posição, porque pouco tempo depois o Presidente Jacques Chirac e o chanceler Schröder pediram-me para ser presidente da Comissão Europeia. Ou seja, eles perceberam que a minha posição não foi contra o consenso europeu, foi uma posição determinada pelo que era na altura o interesse nacional português.

Hoje, quando lhe perguntam onde vive, o que é que responde?
Vivo essencialmente aqui, nos Estados Unidos, mas vou voltar agora para a Europa, uma parte do tempo em Portugal, a outra ainda não decidi exatamente onde, mas a verdade é que viajo um pouco por todo o mundo. Tenho feito conferências em todo o lado, desde a China, ao Médio Oriente, vou agora fazer mais uma conferência ao Brasil, e por isso sou português, isso é uma coisa que nasce connosco e que nunca morrerá obviamente enquanto estivermos vivos, mas também sou europeu e sou cidadão do mundo e acho, aliás, que essa é a grande tradição portuguesa. Portugal foi grande quando se abriu ao mundo. Portugal foi pequeno quando se fechou, com as teorias do “orgulhosamente sós”. Era o Portugal mesquinho. O Portugal que eu amo, o Portugal profundo, o verdadeiro Portugal é o Portugal que esteve em todo o mundo e por isso eu gosto muito da vida internacional e vou manter essa atividade no plano internacional.

Diz que não tem a intenção de voltar à política, mas continuará a ter intervenção política. Como é que pode fazer essa intervenção?
Por exemplo, o meu partido e o Instituto Francisco Sá Carneiro convidaram-me para fazer uma intervenção sobre os 30 anos da adesão de Portugal à UE. E eu vou com muito gosto e com muita honra, mas não estou na vida política ativa. Digo isto porque há pessoas que pensam que eu vou voltar e que estão com esse cálculo. Não é verdade. E, portanto, acho que devemos ser completamente transparentes. Há ciclos na vida das pessoas, estive mais de trinta anos na vida política. Esse ciclo passou. Agora tenho também o direito de ter, depois de tanto esforço na vida política, outras coisas na vida, coisas de que gosto. Sabe que aquilo de que eu gosto verdadeiramente não é da política...

É difícil de acreditar.
Mas é verdade.

Para quem esteve trinta anos...
Porque não resisto. Porque depois há um debate e eu tenho vontade de tomar uma posição e aí, reconheço, tenho o vírus da política. Se você me perguntar de que é que gosto mais, não é da política, é da arte, é da literatura, é do teatro, é da música, é das artes plásticas, é disso que eu gosto. É isso que me dá uma grande satisfação. A política faço-a porque às vezes não resisto, porque há posições com as quais não concordo e apetece-me contrariá-las. Isso já foi assim quando era muito miúdo, quando era jovem, uma espécie de espírito de contestação, mas verdadeiramente na escala das prioridades eu estou perfeitamente consciente de que os políticos passam. Aquilo que fica é um Shakespeare, um Camões, um Cervantes, um Montaigne ou um Dante. Os políticos são muito importantes, mas ao fim e ao cabo a política é instrumental. A política deve evitar sofrimento dispensável, deve criar as melhores condições, mas aquilo que verdadeiramente nos realiza é a ciência, o conhecimento e a cultura geral, isso é que é de facto importante. Isso é que vale a pena e acho que agora precisava de mais tempo para me dedicar a coisas de que gosto verdadeiramente. A política foi um acidente, sabe que a vida às vezes é feita de acidentes, e pronto, não estou arrependido do que fiz na política, mas realmente hoje em dia gostava de olhar para isso com alguma distância, como passado.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 7 maio 2016