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Costa e Sócrates: Frio, frio, gelado, gelado

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Sócrates ladeado pelo ex-secretário de Estado, Paulo Campos, e o autarca de Vila Real, Rui Santos

LUCILIA MONTEIRO

Costa e Sócrates cumprimentaram-se no Marão, mas não houve fotos. Nem calor, pelo contrário

“As relações não são frias, são geladas.” É assim que um amigo de José Sócrates descreve o clima entre o ex-primeiro-ministro e António Costa. Os dois estiveram juntos na inauguração do túnel do Marão no sábado, não houve foto em conjunto e a troca de palavras em público foi circunstancial. Quando Costa chegou ao túnel, do lado de Amarante, já Sócrates estava no autocarro. Segundo um autarca presente no autocarro (de vidros escurecidos), Costa cumprimentou-o e deu-lhe os parabéns a que Sócrates respondeu “os parabéns são para si”. Depois no discurso, houve agradecimento breve e abraço no final que não foi captado pelas câmaras. Governo, autarquia e Estradas de Portugal sacudiram responsabilidades na organização do evento. Foi tudo coincidências, dizem.

“Sinceramente, não achei estranho [não haver foto entre Sócrates e Costa]”, desdramatizou ao Expresso Renato Sampaio, um dos poucos socráticos que conseguiu manter mandato de deputado já na era Costa. “Sócrates pode estar magoado antes com o facto de o Governo e do PS não dizerem nada sobre a atuação do Ministério Publico no seu processo e eventualmente com o facto de fazerem grandes alterações às suas políticas”, afirma Renato Sampaio, dando como exemplo o plano nacional de barragens.

Recorde-se que o Governo decidiu cancelar a construção das barragens do Alvito e de Girabolhos, suspender por três anos a barragem do Fridão e manter a construção da Barragem do Tâmega, após concluir a reavaliação do Programa Nacional de Barragens.

Isabel Santos, a deputada que tal como Renato Sampaio, saiu do Congresso do PS, em Lisboa, após o discurso de António Costa para ir visitar o amigo Sócrates à cadeia, limita-se a comentar: “As relações em política são o que são. Não tenho paixões nas minhas relações políticas”.

Com paixão ou sem paixão, a verdade é que antes de ser preso, Sócrates mereceu vários elogios por parte de Costa que salientava “o impulso reformador” da sua governação. Mas com a prisão do ex-primeiro-ministro, em novembro de 2014, as coisas começaram a mudar. Costa foi visitá-lo apenas uma vez à cadeia de Évora.

Aliás, logo que Sócrates foi detido no âmbito da ‘Operação Marquês’, o líder do PS escreveu aos militantes. “Estamos todos por certo chocados com a notícia da detenção de José Sócrates”, realçou, para alertar que “os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a ação política do PS”. À saída da visita em Évora também colocou logo os pontos nos is: “Deixemos a justiça funcionar em todos os seus valores.”

A partir daqui Costa recusou sempre falar de Sócrates e da ‘Operação Marquês’. Sócrates reagiu, primeiro de forma indireta, ao falar mal de Costa a quem o visitava, como fez questão de divulgar o comentarista Marques Mendes em agosto passado: “Basta falar com algumas pessoas que visitam José Sócrates para saber que ele diz cobras e lagartos de António Costa.”

O verniz estalou quando há três semanas, em entrevista à Antena 1, Sócrates atirou: “Eu nunca seria primeiro-ministro sem ter ganho as eleições.” Mas não se ficou por aqui. Deixou outras acusações, como por exemplo, no diploma sobre a desblindagem dos estatutos dos bancos — em particular para o caso do BPI —, ao afirmar que o Governo cometeu “um erro político” e “uma precipitação”.

Costa quis proteger-se, afastando-se de Sócrates. Sócrates não gostou da deslealdade do homem a quem ajudou a chegar à liderança do PS pouco antes de ser preso. Como vai evoluir esta (não) relação no futuro, ninguém sabe, parafraseando Kant: “A amizade é semelhante a um bom café; uma vez frio, não se aquece sem perder bastante do primeiro sabor.”