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CDS com mais pedalada do que PSD

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Alberto Frias

O objetivo é marcar o Governo, mesmo que acabem a marcar-se um ao outro. Já houve tensão

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Há uma tradição não escrita no Parlamento que diz que em dia de agendamento potestativo (prerrogativa que assiste aos partidos de marcar a agenda parlamentar com um tema da sua eleição), os demais partidos não reclamam protagonismo para si. Mas na última quinta-feira, o PSD quebrou a tradição, e logo com o seu ex-parceiro de coligação: o CDS usara um dos dois potestativos a que tem direito por sessão legislativa para levar a plenário as suas propostas sobre demografia e natalidade e apenas duas horas antes do debate o PSD desviou as atenções da imprensa para a apresentação do seu pacote de medidas para reforço da transparência no exercício de funções públicas.

“Registámos”, comentou um dirigente centrista ao Expresso. Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, garante que não quiseram atropelar ninguém: “Simplesmente, estava a terminar o prazo para a apresentação de propostas”, explica. Prefere sublinhar que a relação entre as duas bancadas continua “excelente”, versão que é corroborada pelo seu homólogo centrista, Nuno Magalhães: “Mantém-se exatamente igual à que tínhamos quando estávamos em maioria”, afiança.

Os dois líderes continuam a conversar amiúde, a combinar votações, e na esmagadora maioria das vezes até votam da mesma maneira. “Claro que não há uma coincidência a 100% como havia quando estávamos no Governo. Isso ainda ontem [sexta-feira, 6] se viu, na votação das propostas do CDS sobre a natalidade [em que o PSD se absteve numa ou noutra]”, reconhece Montenegro; mas, ainda assim, “a maioria de direita é mais coesa nas votações do que a maioria de esquerda”, nota Magalhães.

“O PSD quer crescer, o CDS também”

Na contabilidade fria dos registos oficiais da Assembleia da República, os centristas levavam, na tarde da passada sexta-feira, a dianteira em matéria de iniciativas legislativas: 71 registos contra 57 dos sociais-democratas. O CDS entregou até ao momento 43 projetos de resolução (matérias que são da competência do Governo) e 24 projetos de lei; o PSD apresentou 37 projetos de resolução e 11 projetos de lei. Mas estes números vão ficar rapidamente desatualizados. Apesar de ter visto a esquerda a chumbar 16 dos 25 projetos sobre natalidade que apresentou na quinta-feira, Assunção Cristas garante que não vai baixar os braços: “A alternativa é ser do contra e ficar sempre de braços cruzados e isso não aceito”, disse ao Expresso. Luís Montenegro diz parecido: os sociais-democratas estão “muito empenhados em afirmar um caminho que traga mais votos e mais mandatos”.

Nem um nem outro alimentam a ideia de que há competição à direita sobre quem lidera a oposição. “Não há competição nenhuma. É uma falsa questão”, desvaloriza o líder da bancada social-democrata, que acha perfeitamente natural que cada um faça o seu trabalho de oposição: “Nós queremos crescer, o CDS também. Cada um faz o seu plano para isso, desenha a sua estratégia, apresenta as suas iniciativas. Mas isso não tem nenhum problema”. O chefe da bancada centrista diz o mesmo por outras palavras (e garante que não articulou com o homólogo as respostas ao Expresso): “O objetivo do CDS não é marcar o PSD. Isso seria um erro. É marcar a agenda contra os partidos de esquerda que apoiam o Governo”.

E é aqui que as visões divergem. Nuno Magalhães admite que o CDS tem marcado a agenda “mais facilmente” do que o PSD — afinal, foram os centristas que tomaram a iniciativa de levar o Programa de Estabilidade a votos e foram eles também que inundaram o Parlamento com 25 projetos de lei e projetos de resolução de incentivo à natalidade. Luís Montenegro recusa convictamente a ideia de que “o PSD não faz oposição” ou que a faz a um ritmo inferior ao dos seus antigos parceiros de Governo: “São opções estratégicas. O CDS não fez mais oposição do que nós ao Governo no Programa de Estabilidade. Nós sempre dissemos que o Governo e os partidos que o suportam é que deviam tomar a iniciativa [de levar o PE a votos]. O CDS achou que não. Estava no seu direito”, explica, lembrando que o PSD até votou favoravelmente essa iniciativa. “Essa é uma questão virtual, que interessa apenas aos nossos adversários”, conclui.

[Atualização de texto publicado na edição do Expresso de 7 de maio de 2016]