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O filme do Marcelo superstar em Moçambique

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JOÃO RELVAS / Lusa

Presidente da República deu show em Moçambique e descobriu uma coisa “sensacional” para o Governo

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Marcelo beija, Marcelo abraça, Marcelo toca, Marcelo sorri. Dança, meneia, rodopia, pisca o olho, acena, diz uma piada. Entretém, educa, explica, pergunta, responde, comenta, acrescenta, contrapõe. Afaga, dá cá mais cinco, dá cá mais dez, olha nos olhos, beija na testa. Pega em criancinhas, pega em pargos, pega em caranguejos. Lança um piropo, ri-se com os outros, ri-se consigo próprio, ri-se dos outros. Emociona-se. Avança, recua, guina à esquerda, guina à direita. Provoca, diverte-se, diverte, improvisa. Bate palmas, bate o pé, canta este hino, canta aquele. Põe a mão num ombro, puxa por um braço, faz um chamego. Conduz a cadeira de rodas da velhinha, faz de mestre de cerimónias, aceita tirar fotos, sugere tirar fotos (“vá, uma selfie!”).

Marcelo é o centro das atenções. Marcelo não pára. Marcelo está sempre em ação e por isso esgota os verbos. E também açambarca os adjetivos. É afetuoso, é incansável, é cúmplice, é maroto, é enérgico. É solene quando tem mesmo mesmo de ser, é descontraído sempre que pode. É otimista, é intenso, é inesperado, é iconoclasta. É rápido, é torrencial, é espirituoso. É superpop. É politicamente incorreto, é o inimigo público n.º 1 do protocolo, é o pesadelo dos seguranças. É português, é moçambicano, é culto, é cosmopolita, é desenrascado. É Marcelo nas ruas, nos salões, no mercado, no palácio, nas escolas. É o “Papá Marcelo”, é o “Presidente Rebelo”, é o “Marcelo Sousa”, é o “Di Sousa”. Em Moçambique, foi um espetáculo à parte.

Se há coisa que esta primeira visita de Estado deixou clara é que Marcelo é Marcelo onde quer que seja. Até na forma como, mesmo estando no estrangeiro, comentou a atualidade nacional. As referências à situação em Portugal foram, aliás, recorrentes e surgiam nos momentos menos previsíveis. Por exemplo, numa exposição de Física dos alunos da Escola Portuguesa de Moçambique. (Não era para ter visitado a exposição. Mas, enquanto andava pela escola, rodeado de centenas de alunos em algazarra, viu uma porta aberta e, zás, foi escadas acima, para desespero de quem o tentava fazer cumprir programa e horário.)

Deparou-se com uma experiência que o fascinou: será possível pôr objetos num copo cheio de água “sem entornar uma gota”? Marcelo não acreditou que fosse, mas a experiência mostrou que sim. “Explica lá isso, que eu tenho de explicar isso ao Governo”, entusiasmou-se, conforme via clipes a entrar no copo sem este transbordar. “Tenho de levar isto para Lisboa!”, anunciou, vendo o potencial daquela descoberta para as contas públicas: “Mais despesas, despesas, despesas, e no entanto o défice não aumenta. Isto é sensacional!”

A visita a esta escola, financiada pelo Governo português, e a uma escola no bairro popular de Mafalala foram dois dos pontos altos da viagem. As escolas não podiam ser mais contrastantes, mas a receção diferiu pouco: centenas de jovens a receber Marcelo como se fosse uma vedeta da canção ou uma estrela do futebol, com cânticos, palmas, ansiedade de lhe tocar, tirar uma foto com ele, poderem dizer que o viram, que ele existe.

No colégio português, o Presidente dançou ritmos africanos — mas, talvez por se sentir um pé de chumbo (“Não é a minha vocação”, confessaria), procurou disfarçar. “Vou ali para ao pé do gordinho”, anunciou, politicamente incorreto, mas animado. Na escola Estrela Vermelha, Marcelo percorreu dois longos corredores bordejados por alunos que faziam um barulho ensurdecedor, com um ritmo que transbordava energia.

O Presidente retribuiu tentando cumprimentá-los a todos, ou, pelo menos, garantindo que todos o vissem à distância de um passo. Foi um caminho stressante para os seguranças, que a contragosto perceberam que não valia a pena continuar a bater nas mãos que se esticavam para Marcelo, impedindo que chegassem ao PR — era mesmo Marcelo quem queria chegar a elas.

Artigo publicado na edição do Expresso de 07/05/2016