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O autarca em construção

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antónio pedro ferreira

A ano e meio das eleições, Lisboa vai entrar em grandes obras. Passámos uma semana com Fernando Medina para o conhecer melhor e à cidade que ele quer fazer

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Texto

Jornalista da secção Política

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

Fotos

Fotojornalista

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa está no largo em frente ao Cemitério dos Prazeres, satisfeito com a sua obra. É pequena, mas é obra. Não há drama maior no bairro do que o estacionamento e nesse fim de tarde o autarca explica ao Expresso como uma decisão tão simples como mudar a pintura no chão, criando estacionamentos em espinha onde havia estacionamentos paralelos à faixa de rodagem, permitiu ganhar uma dúzia de lugares num bairro onde o “estacionamento é petróleo”, para usar uma frase do presidente da junta. Aproxima-se um idoso de boné e casaco roçado, “posso-lhe dar uma palavrinha?”, e Medina acede, “claro!”, como vimos acontecer ao longo dos cinco dias em que o Expresso seguiu as voltas do edil lisboeta.

O homem não tem rodeios: “Isto que fizeram aqui é o maior disparate que já vi!” O político vai a abrir a boca, mas o cidadão exige que o estacionamento volte a ser como dantes, queixa-se de que para tirar os veículos dos lugares é preciso fazer marcha atrás e a manobra é perigosa. Medina argumenta que em Campo de Ourique não há nada que as pessoas mais reclamem do que estacionamento e que assim se arrumam mais carros, mas o munícipe não se convence: “O seu trabalho por acaso é vender estacionamentos?”

Entram em cena duas senhoras de meia idade. Uma pede desculpa por interromper, e interrompe, para se desfazer em louvores ao estacionamento conquistado. “O que se conseguiu aqui! Nunca pensei que isto fosse possível!”, extasia-se a mulher, para satisfação do político e irritação do homem do boné. Este trata de enxotar a concorrência, reclamando precedência do protesto sobre o elogio: “Desculpem, mas eu já estava aqui primeiro.”

Nem de propósito. Nos dias anteriores, Medina falara muitas vezes da necessidade de gerir interesses conflituantes, da impossibilidade de agradar a todos, da proximidade dos munícipes em relação ao presidente da câmara, do entusiasmo com que todos discutem assuntos da cidade. E ali estava, no final da reportagem, um caso prático juntando tudo.

Medina gosta de gerir esses conflitos, valoriza a “procura permanente de equilíbrios”, aprecia decidir de acordo com a sua “visão para a cidade”. “Encontro aqui um condensado do país, mais rico do que aquilo que pude observar a partir do Governo. Aqui tenho dois níveis: a capacidade executiva para a resolução concreta de problemas, mas também a necessidade de um fortíssimo quadro de compreensão teórica dos problemas.” Tudo somado, diz que não há cargo “mais entusiasmante”.

O bairro

São 9 horas em ponto quando Fernando Medina chega à Calçada da Ajuda para uma espécie de presidência aberta municipal, que acontece por regra uma vez por semana e vai correndo as freguesias. O programa destas voltas é desenhado pelo cicerone, o presidente da junta, quase sempre com o intuito mal disfarçado de conseguir obras e financiamento. “A ideia é resolver problemas”, diz Medina. Por isso leva um miniautocarro de gente com ele, desde vereadores a toda a espécie de responsáveis do município, para os responsabilizar in loco por aquilo que precisa de ser feito. “Isto tem de ser gerido sempre em tensão”, explica o presidente. “A máquina da câmara é tão atomizada, são tantos poderes, que qualquer assunto envolve dois ou três departamentos e facilmente as coisas ficam paradas.” A Câmara Municipal de Lisboa tem oito mil funcionários (já foram mais de 11 mil) e dezenas de estruturas, e “a burocracia está preparada para fazer o que faz normalmente e é capaz de ocupar o tempo todo com isso. A liderança tem de ter capacidade de tornar muito claras as prioridades, ter iniciativa política e estar sempre a pressionar”, confessa.

Nesta manhã de segunda-feira, 18 de abril, o anfitrião é José António Videira, o volumoso e despachado presidente da junta de freguesia da Ajuda, com fama de conhecer toda a gente no seu território — Fernando Medina fica com o proveito, pois é apresentado a quase todos os que lhes cruzam o caminho. Medina sabe que um obstáculo à sua reeleição daqui a pouco mais de um ano é ser ainda desconhecido de boa parte da cidade. O perfil discreto não ajuda, ter chegado à câmara há apenas três anos para uma pasta como as finanças também não, ser presidente há um ano ainda é pouco... Em compensação, tem gente como “o Videira”.

Medina ainda se está a apresentar ao seu povo, mas conhece bem as ruas da sua cidade. Em particular estas. Embora nascido e criado no Porto, na freguesia de Aldoar, os avós tinham casa na Ajuda, onde agora vive a mãe do presidente da câmara. Por improvável que pareça, as ruas que percorre nesta segunda-feira são ruas da sua juventude. E, apesar de só se ter mudado para Lisboa aos 23 anos, passadas estas duas décadas arrisca uma frase tremenda para um homem da Invicta: “Hoje sinto-me um tipo de Lisboa, apesar de ter raízes no Porto”, diz, com o sotaque nortenho que nunca perdeu.

Conhece Lisboa como nunca sonhou e vive-a como nunca a tinha vivido, a imaginar arranjos, a calcular custos, a medir prazos, sempre a tirar fotografias para mandar às pessoas dos seus serviços, sem nunca desligar o chip de autarca. Quando a comitiva chega à Travessa da Boa Hora, Medina para em frente ao supermercado onde fazia compras para os avós. Naquela zona, a câmara tem a andar um projeto para alargar passeios, condicionar o trânsito em benefício dos peões e renovar dois jardins — planos integrados no programa Uma Praça em Cada Bairro, que vai renovar 30 espaços públicos de Lisboa. Manuel Salgado, o vereador do urbanismo, abre uma planta, mostra o que será feito, mas os comentários de Medina são sobre o que não está na planta. Fala na obra que quer fazer depois desta que ainda nem começou.

 Na Manutenção Militar, em Xabregas, onde a CML quer criar uma nova centralidade, lançando um ninho de empreendedorismo em ambiente industrial

Na Manutenção Militar, em Xabregas, onde a CML quer criar uma nova centralidade, lançando um ninho de empreendedorismo em ambiente industrial

antónio pedro Ferreira

 Com José Sá Fernandes num clube recreativo da Ajuda, a ver os planos do novo parque verde e hortas comunitárias

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antónio pedro ferreira

 Na ruas da Ajuda, com a comitiva camarária e uma munícipe

Na ruas da Ajuda, com a comitiva camarária e uma munícipe

antónio pedro ferreira

 O ‘dono da obra’ no Campo das Cebolas, onde vai nascer um parque de estacionamento e uma nova praça virada para 
 Tejo

O ‘dono da obra’ no Campo das Cebolas, onde vai nascer um parque de estacionamento e uma nova praça virada para 
 Tejo

antónio pedro ferreira

Ruas acima, ruas abaixo, a agenda da manhã desemboca no Bairro 2 de Maio, que às vezes aparece nas notícias e nunca por boas razões. Antes de o grupo lá chegar, e para entrar no espírito da coisa, uma mulher achega-se a Medina para lhe pedir uma casa para o irmão. Vestida de preto, parece decidida a não deixar escapar o edil enquanto não tiver no bolso as chaves de uma casa. O país que pede casas ao presidente da câmara ainda existe, mesmo em Lisboa. “Tenho direito”, martela a mulher, denunciando as ocupações ilegais que aconteceram na semana anterior no bairro, em que a polícia teve de entrar em ação para desalojar os ocupantes. O diálogo segue:

“O seu irmão já concorreu para uma casa?”, pergunta Medina.

“Não, mas os ciganos também não. Eles é só rebentar e entrar.”

“Há anos que ninguém recebe casa se não se inscrever. Já não há ninguém a distribuir chaves. Tem de se ir inscrever ao Campo Grande.”

“Mas os ciganos...”

“Isso já foi resolvido. A senhora quer teimar comigo que recebe uma casa sem se inscrever?”, impacienta-se o autarca. É cortês mas corta a direito.

A mulher não desarma, a tensão e a xenofobia estão à pele, e a vereadora da habitação, Paula Marques, é convocada a entrar em ação. Não será a última vez. Conforme a comitiva se aproxima do Bairro 2 de Maio, um grupo aguarda os visitantes. “Tenho ali uma espera”, adivinha a vereadora, que conhece os ossos do ofício.

A autoproclamada ‘porta-voz dos moradores’ é uma jovem grande, de cabelo muito louro com raízes muito pretas, casaco de malha, calças de pijama e pantufas com corações. O presidente da câmara e a vereadora são cercados pela ‘porta-voz’, pelos moradores e pelas exigências de casas no bairro para os do bairro. Há vozearia, mas a ‘porta-voz’ dá-se por satisfeita com a marcação de uma reunião. Medina acaba por entrar no bairro sob aplausos. Parte dos que protestavam nem o ouviu prometer que “todo o 2 de Maio” está incluído num programa de recuperação dos bairros sociais que avança este ano. Ao fundo da rua veem-se andaimes, mas são da recuperação do Palácio da Ajuda.

Antes de voltar aos Paços do Concelho, Fernando Medina pede ao motorista para passar pelo Campo das Cebolas. Está aí uma das grandes intervenções da frente ribeirinha, a par da requalificação do largo do Cais do Sodré. A visita de Medina não era esperada, mas a engenheira já não estranha ao vê-lo chegar. Afinal de contas, é o dono da obra e é daqueles donos que estão sempre em cima dos trabalhos.

“Estava cheio de medo desta obra”, confessa, já de capacete na cabeça e colete refletor por cima do fato. Além do arranjo da praça, a intervenção no Campo das Cebolas incluiu um parque subterrâneo da EMEL — e nesta zona da cidade qualquer escavação pode deparar-se com surpresas capazes de fazer derrapar o calendário. Basta a Medina olhar de relance para a escavação para perceber que não há novidades. Tirando um muro que não estava nos planos, as descobertas são as previsíveis — restos de estacas, escadas de um antigo cais, vestígios dos séculos XVIII e XIX, pedaços de uma calçada anterior ao terramoto... O suficiente para manter ocupada a equipa de arqueologia com 45 (!) pessoas. Por sorte a cidade não está toda assente em história — só esse conforto permite ao presidente da câmara fazer uma piada sobre o assunto, uns dias depois, enquanto cava um buraco para plantar uma árvore no Dia da Terra: “Se isto fosse no Campo das Cebolas estavam aqui dez arqueólogos!”

A televisão

Há pinturas de Columbano, José Malhoa e Santos Braga nas paredes, um tapete de Arraiolos no chão, frescos neoclássicos no teto. Na mesa da sala de reuniões do presidente da câmara estão os jornais do dia, quase todos com a capa sobre a decisão do Governo sobre a desblindagem dos estatutos da banca, e as consequências dessa decisão no braço de ferro entre o BPI e Isabel dos Santos. Será o tema do comentário televisivo de Medina daí a menos de três horas. Como há futebol, Medina fica arrumado no final do “Jornal das Oito”, em canal aberto. Tem menos tempo, mas mais audiência. Prepara-se com cuidado que merece mais de um milhão de espectadores.

“O que é que se tem dito sobre isto?”, pergunta aos três colaboradores que o ajudam a preparar-se para a TV. Há reações políticas, há suspeitas de que terá sido um diploma à medida, há ondas nas relações com Angola, “e há o Marques Mendes ontem”, acrescenta um dos assessores. “O que é que o ‘Ganda Noia’ disse?”, pergunta Medina, atento à concorrência. “Desfez o Passos. Não vais conseguir dizer tão bem do Governo nem tão mal do PSD como ele” (o tratamento por tu é quase regra no círculo mais próximo do autarca). Mendes, o ‘Ganda Noia’ nos tempos do “Contra-Informação”, tem fama de telefonar a meio mundo para saber antes aquilo que o comum dos mortais só sabe depois. Medina não faz por menos: apesar de ser economista e estar a “jogar em casa”, quer ter certezas que os assessores não lhe dão, por isso pega no telemóvel. Liga para gente do Governo, liga para o Banco de Portugal, liga para a CMVM. Passa quase duas horas até sentir que já pode “explicar isto à pessoas”.

(Para um político jovem e ainda pouco conhecido, o palco televisivo é precioso para ganhar notoriedade. “Isto é um desafio grande, é importante no conhecimento que as pessoas têm de quem sou e do que penso. Tento preparar-me ao máximo. Não gosto de imprevistos, gosto de me sentir seguro”, explica depois em conversa com o Expresso.)

Medina larga o telemóvel. “Então é assim, queridos assessores...”, começa. “Estamos todos despedidos...”, ironiza um deles, perante a evidência de que a equipa, neste caso, pouco acrescentou. Mas ajudam Medina a adivinhar perguntas, arrumar ideias e testar argumentos. Medina constrói a tese de que “não há uma lei à medida do BPI”, mas o resultado de um processo longo (“Entregámos ‘baita’ soberania e quem se lixa são os bancos portugueses”), sob pressão do momento e com consequências para o futuro. Conclusão: “Isto é uma treta: perdemos soberania e ainda não ganhámos nada com isso.” A linguagem está solta, Medina há de pôr-lhe freios conforme apara as respostas. Quando entra em direto, o discurso está formatado. O assessor impacienta-se: “Ele está muito rígido, não está no registo de conversa que isto deve ter.” Não é Marcelo quem quer.

O comentário dura menos de 10 minutos. “Isto é esgotante, mas a coisa gira é que é superdiversificado, e isso é fascinante”, confessa. O dia que começou nas ruas da Lisboa popular e pobre da Ajuda, que não anseia mais do que ter a cara lavada, acabou com comentários sobre alta finança num estúdio de televisão, com maquilhagem na cara.

A ansiedade

Antes de chegar à Câmara de Lisboa, em 2013, Fernando Medina já tinha passado pelo Governo (com Sócrates foi secretário de Estado do Emprego e secretário de Estado-adjunto da Economia) e pelo Parlamento. Dos dias de Governo diz que trouxe boas lições sobre como lidar com a máquina administrativa. Do Parlamento nem trouxe saudades. Talvez por saber disso, um deputado municipal do PSD acusa Medina de estar na Assembleia Municipal “tão contrariadamente”.

É terça-feira, 19 de abril, dia de “informação escrita”, isto é, uma espécie de debate do Estado da Nação sobre o município: a cada três meses, o presidente do executivo leva à Assembleia Municipal um relatório sobre o trimestre anterior. Medina cumpre a obrigação com um texto de 154 páginas, que resume em poucos minutos. Perante os deputados municipais destaca as contas de 2015 (“O melhor exercício orçamental da última década”) e o que a Câmara já começou a fazer com o desafogo financeiro que conseguiu depois de anos de asfixia. Mas o seu foco é no que vai ser feito. Medina fala do início das obras no Eixo Central (entre o Marquês de Pombal e o Campo Pequeno); anuncia a aprovação do projeto do parque verde que vai receber a nova Feira Popular e revela o lançamento de um ambicioso projeto em Xabregas.

 Bairro 2 de Maio, rodeado por moradores que exigem casas da Câmara Municipal

Bairro 2 de Maio, rodeado por moradores que exigem casas da Câmara Municipal

antónio pedro ferreira

 Na sala de reuniões a preparar o comentário da TVI com três assessores

Na sala de reuniões a preparar o comentário da TVI com três assessores

antónio pedro ferreira

 À espera para entrar em direto, sempre ligado ao telemóvel

À espera para entrar em direto, sempre ligado ao telemóvel

antónio pedro ferreira

 Vista dos armazéns entre Xabregas e a Matinha onde vai nascer a ‘The Base’, a futura localização de startups de Lisboa

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antónio pedro ferreira

 A traçar projetos para a capital com o vereador Manuel Salgado, uma das figuras mais influentes na CML

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antónio pedro ferreira

É disto que ele gosta. Não porque tenha um fetiche com obras, garante, mas porque quer pensar uma cidade nova. Curiosamente, vê hipóteses dessa cidade nova por todo o lado. Vai no lugar do pendura do Toyota elétrico da câmara e comenta que isto podia ser feito aqui, e aquilo ali, e aquela parede ir abaixo, e uma escada podia ligar isto... É como se tivesse descoberto em si um urbanista, um arquiteto e mestre de obras, além de um presidente da câmara. Imagine a cena: fim da tarde de quarta-feira, no seu gabinete nos Paços do Concelho, Medina está debruçado por cima de um mapa de Lisboa, a fazer traços a preto para a explicar que “podia ser assim”, e Manuel Salgado com ele a fazer outros riscos, com marcador florescente — em poucos minutos estão ali desenhos para vários mandatos. Pode julgar-se que é uma síndrome de Marquês de Pombal, que tantas vezes ataca os autarcas de Lisboa, mas Medina garante que não. Não é, sequer, a vaidade de querer deixar uma marca, jura ao Expresso. “Sinto que tenho uma sorte muito grande por estar a ocupar estas funções num momento único da vida da cidade. Lisboa está a viver um momento de dinamismo, vibração, energia, inovação, ânimo, polaridade positiva, como não me lembro de alguma vez acontecer.” É o turismo, é o estar no mapa, é a fixação de jovens estrangeiros, é o regresso de jovens portugueses... É este caldo que provoca o que Medina chama “ansiedade”. “Todos os meus antecessores tiveram a ambição de reabilitar a Baixa, mas é agora que isso está a acontecer. A minha obrigação é agarrar estas oportunidades e projetar o futuro da cidade por muito tempo e na direção certa.”

As obras

Na Assembleia Municipal, o PSD acusou-o de ser “só anúncios” e traçou um quadro de calamidade por causa das ruas esventradas e trânsito desviado que serão o dia a dia de Lisboa até inícios de 2017. Nos próximos meses vão coexistir obras em três dezenas de praças, obras na frente ribeirinha, obras no Eixo Central, obras na Segunda Circular e obras na futura Feira Popular. Medina admite que “as obras têm sempre incómodos”, mas ironiza em direção ao PSD: “Se o povo vos der razão de que tudo isto é uma tragédia, não tem que se preocupar, porque tudo isto vos irá sorrir.” É contido mas contundente no debate, não deixa perguntas por responder e não poupa a oposição, sobretudo a direita, à sua ironia.

As três grandes obras que Medina destacou na terça-feira perante os deputados municipais ocupam-lhe parte dos dias seguintes. Na quarta-feira, reúne pela primeira vez a comissão de acompanhamento da nova Feira Popular de Lisboa. São 16 pessoas, entre gente da câmara (incluindo oposição), diretores de serviço, juntas de freguesia e sociedade civil. É uma reunião longe de holofotes, e, talvez por isso, surpreendentemente pacífica. O projeto prevê uma grande área verde com clareiras onde serão implantadas as futuras diversões, e 1500 lugares de estacionamento que servirão como parque dissuasor para tirar carros de Lisboa. Há preocupações com o ruído, há perguntas sobre o modelo de construção e exploração da Feira (não está definido), mas é tudo tão tranquilo que nem parece o dossiê que já fez correr tanta tinta.

Por coincidência, Medina começa o dia seguinte no avesso da história da Feira Popular: nos terrenos do velho parque de diversões, que continuam a ser um baldio. Vem mesmo a jeito: desde essa semana que serve para estaleiro das obras do Eixo Central. Há umas 20 pessoas à espera do presidente da autarquia para tratar dos últimos preparativos para as obras, que começam a fazer-se sentir a sério na próxima terça-feira, dia 3. “Então, isto vai mesmo começar!”, repete Medina, como um mantra. Entre a Rotunda do Marquês e a Avenida Elias Garcia haverá passeios mais largos, um separador central com árvores, duas novas praças no Saldanha e em Picoas, com espaços verdes e esplanadas, e uma ciclovia. Os pormenores são passados a pente fino dentro de um contentor que faz de sala de reuniões, com as paredes cobertas de projetos. Está em causa o trânsito numa via estruturante e Medina quer que lhe expliquem tudo. Martela a importância da comunicação. Quer o número de telemóvel dos responsáveis da obra. É exaustivo, faz sugestões, exige respostas claras. O projeto teve acertos até ao fim, para responder aos protestos contra a diminuição de lugares de estacionamento, o que levou a alterações na ciclovia — é um daqueles casos em que os interesses são divergentes, a manta é curta e não contenta todos: ganharam os automobilistas, ficaram chateados alguns ciclistas. Medina, ele próprio um adepto do ciclismo, que todos os fins de semana pedala dezenas de quilómetros e investiu numa bicicleta nova, desvaloriza as críticas. “Vão ver quando conhecerem a rede de ciclovias”, sorri, referindo-se ao plano que será anunciado nas próximas semanas, que mais do que duplica o sistema de ciclovias da cidade, de 60 para 150 quilómetros.

The Base

Pergunta: está a ver o Lx Factory, a zona industrial em Alcântara que foi convertida num dos pontos mais na moda da cidade, com restaurantes, lojas e escritórios onde antes havia barracões abandonados? Agora, pense maior e no outro lado da cidade. Foi o que pensaram Fernando Medina e Manuel Salgado. O primeiro conta: “Eu e o Manel estávamos a falar há uns tempos do futuro da cidade: o que é que falta fazer? Olhámos para a zona oriental, entre Santa Apolónia e o Parque das Nações, e há ali um buraco. Mas precisávamos de uma grande estrutura-âncora que possa ser o motor e organizador do desenvolvimento daquela zona.” Estavam nestas cogitações quando Lisboa ganhou a Web Summit, a conferência internacional de tecnologia, empreendedorismo e inovação. Foi das últimas apostas bem-sucedidas do anterior Governo e o clique que Medina esperava.

“O desafio não é organizar bem o evento. A questão é como se aproveita essa gente toda que vem a Lisboa. Falei com o Paddy sobre como é que a Web Summit pode deixar lastro na cidade e pensámos num sítio que pudesse ser atraente para estes empreendedores ficarem cá.”

“O Paddy” é Paddy Cosgrave, o presidente-executivo da Web Summit. O sítio é um complexo da Manutenção Militar, em Xabregas, com uma superfície de 30 mil metros quadrados e edifícios que no passado alojaram fábricas, oficinas, armazéns, escritórios e silos de cereais. Desde que em 2011 encerrou a última unidade fabril que funcionava ali, o espaço é uma cidade-fantasma, com paredes e maquinaria, mas sem gente. As paredes e as máquinas vão continuar onde estão (o acordo da câmara com a Defesa obriga à preservação), e a gente há de chegar. Já tem chegado, aliás — “o Paddy” foi dos primeiros e “ficou fascinado com isto”. Enquanto percorria o terreno, que parece uma base militar, Cosgrove batizou o espaço com rótulo internacional: “The Base”. Ainda não é o nome oficial, mas “vai ser difícil arranjar melhor”.

Conforme vai passeando pelas ruas desertas e percorrendo o interior dos armazéns, Medina vê o que ainda lá não está: mezzanines, janelas rasgadas para o Tejo, geeks a trabalhar ao lado de uma máquina de bolachas italiana que parece saída de um filme de ficção retrofuturista, coworking e startups onde se veem os carris para vagões desaparecidos, laboratórios, ginásios, restaurantes, tudo fazendo “uma nova centralidade em Lisboa” e “uma das maiores incubadoras da Europa”. “Isto, para mim, é ‘o’ projeto”, confessa Medina enquanto revisita armazéns cheios de luz e galerias lúgubres.

Percebe-se que diga que o seu trabalho “é fascinante” e que está, “sem dúvida, no lugar mais entusiasmante onde podia estar”. Mas, depois de ter sucedido a Costa na autarquia, há quem já o imagine a suceder-lhe no PS e na governação. Medina está em todas as bolsas de apostas para o futuro do partido e assim continuará se vencer as eleições em 2017. Já assumiu que gostaria de ter apoios à esquerda como Costa tem no Governo, mas há quem o olhe como um perigoso centrista, entusiasta do papel do turismo e do investimento privado na reabilitação da cidade, amigo do “empreendedorismo” e de outros palavrões de direita. Sobre as pessoas que venderam ou alugaram as suas casas na cidade para os turistas diz que “é uma perspetiva de esquerda nunca deixar de ter a noção do impacto positivo que isto está a ter para a melhoria das condições de vida de estratos sociais que sempre foram perdedores nos processos de desenvolvimento”.

Medina assegura que cumpre “uma governação de esquerda em Lisboa”, e dá como exemplo a prioridade ao controlo público da Carris. Mas reconhece que a sua esquerda não é a esquerda toda. Lá saberá. É filho de dois históricos dirigentes comunistas e quando nasceu, em 1973, o pai estava na clandestinidade. O comunismo nunca lhe correu no sangue, mas a política sempre. Até ser primeiro-ministro? “As pessoas que dizem isso não têm noção do que estão a falar. Eu tenho uma vantagem: estou a ocupar funções de presidente de câmara depois de ter ocupado funções num governo. Eu conheço o outro lado, por isso, para mim, o desejo de regressar ao governo surge bastante diminuído.” Será?

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 30 abril 2016