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Marcelo: manhã de euforia e tarde de política (pouco) secreta

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Os encontros do PR com a oposição moçambicana, que estavam marcados mas não constavam da agenda oficial, foram confirmados pelo próprio, depois da Renamo o desafiar a mediar o conflito. É o regresso à política depois de uma manhã em registo estrela pop

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

em Maputo

Jornalista da secção Política

Marcelo Rebelo de Sousa confirmou esta quinta-feira, de viva voz, aquilo que era o segredo mais mal guardado da sua visita a Moçambique: vai reunir-se com os três partidos com representação parlamentar - ou seja (e esta é a parte importante, pois contactos com o Governo não têm faltado): Marcelo vai encontrar-se com os partidos da oposição, e em especial com a Renamo, que voltou ao conflito militar com as forças governamentais. Contactos que serão essenciais para o chefe do Estado avaliar as condições para um eventual papel de mediação na crise entre o Governo e a Renamo. Isto, depois do maior partido da oposição ter desafiado o Presidente português a assumir um papel de relevo nesta matéria.

Os encontros com os vários já estavam previstos desde que começou a preparação da visita, mas nunca foram incluídos na agenda oficial. Não eram secretos, mas deviam ser discretos - afinal, não serão nem uma coisa nem outra. O encontro com a líder parlamentar da Renamo foi agendado para o início da tarde de quinta-feira, seguindo-se, ao longo de quinta e sexta-feira, em pequenos períodos privados que o Presidente da República reservou na sua preenchida agenda, as reuniões com os outros dois partidos com assento parlamentar - a Frelimo, partido do Governo, e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM).

Big show Marcelo

Antes de voltar à política pura, Marcelo viveu momentos de euforia em visitas a duas escolas de Maputo. Foi recebido por muitas centenas de crianças e jovens que o aclamaram como se fosse uma estrela pop, acotovelando-se para o tocar, beijar e abraçar ou ainda conseguir o bem mais precioso de todos: "uma selfie com o Presidente". Precioso, note-se, por causa da pressão da procura e não pela escassez do bem - Marcelo não recusou uma foto com ninguém, foi ele muitas vezes a sugerir "vamos tirar uma foto", e terá tirado muitas dezenas ao longo da manhã.

Dos 1600 alunos da Escola Portuguesa de Moçambique, poucos se poderão queixar de não ter visto Marcelo, recebido com gritos ritmados de "Presidente! Presidente!", que o próprio tratou de transformar em "Portugal! Portugal!" e "Moçambique! Moçambique!" Marcelo dançou com umas alunas, apesar de ter reconhecido que "não é a minha vocação", e deixou-se embrulhar no meio de várias multidões de crianças em delírio.

Na Escola Secundária Estrela Vermelha, em Mafalala, o bairro de Eusébio, Coluna e Craveirinha, foi parecido - mas com ainda mais excitação, bastante mais ritmo e muito mais barulho. Marcelo levou uma eternidade para percorrer dois longos corredores bordejados de centenas alunos em delírio, que o saudavam com as palavras de ordem "A nossa escola lhe saúda, Presidente de Portugal" e "woza, woza" ("viva, viva"). O Presidente da República parecia decidido a garantir que tocava em todos os alunos, ou, no mínimo, que todos o viam bem de perto: percorria uns metros a tocar, a abraçar e a beijar os alunos de um lado, depois voltava para trás para fazer o mesmo do outro lado. No meio da confusão e do barulho ensurdecer, Marcelo conseguiu uma surpreendente demonstração de método.