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Marcelo “condena inequivocamente” violência política em Moçambique

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João Relvas / Lusa

Presidente da República alinha pelo discurso do Governo na condenação da atitude da Renamo e confia que “os moçambicanos saberão resolver entre si as questões que os separam”

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

em Maputo

Jornalista da secção Política

Na noite em que Marcelo Rebelo de Sousa voltou ao Palácio da Ponta Vermelha - onde viveu quando visitava o pai, nos tempos em que este era governador de Moçambique - o Presidente da República afirmou-se como "filho devotado" deste país que diz ser a sua "segunda pátria" e fez uma forte afirmação política de apoio ao governo de Filipe Nyusi, no conflito que o opõem à Renamo.

O regresso da guerra em algumas províncias do país, depois das eleições gerais de 2014, cujos resultados são contestados pelo partido de Afonso Dhlakama, tem sido um dos grandes temas da viagem. O jantar oficial oferecido pelo Presidente Nyusi ao seu homólogo foi o momento para Marcelo afirmar a posição de Lisboa sobre o conflito. "Portugal condena inequivocamente que numa democracia, na sua como noutras, se recorra à violência como forma de defender posições políticas ou de defender pontos de vista", disse Rebelo de Sousa, no mesmo dia em que Nyusi afirmou que "uma democracia armada não é recomendável".

O alinhamento de posições ficou evidente no discurso que precedeu o jantar. "Em qualquer Estado de Direito, em qualquer democracia, há direito a todas as liberdades cívicas, mas espera-se em troca que a expressão da saudável e desejável pluralidade de opiniões se faça dentro do respeito pela constituição e pelas leis em vigor e com recurso ao parlamento e à livre expressão de opinião na comunicação social livre e independente", defendeu Marcelo. "Em qualquer Estado de Direito democrático espera-se que as forças político-partidárias se exprimam livremente mas não pela força das armas. Espera-se que se convençam os eleitores com base na força dos argumentos usados pela palavra, mas nunca pela força da violência ou pelo medo", prosseguiu o chefe de Estado português.

"Os afetos não bastam"... mas ajudam

Pouco antes, Nyusi havia declarado que, "apesar da insuficiente resposta por parte da Renamo, o diálogo continua a ser o caminho", fazendo fé em que "vamos superar o que nos divide". Marcelo pegou na deixa e afirmou-se "convencido de que os moçambicanos compreenderão que são mais, e mais importantes, as coisas que os unem do que as coisas que os separam".

Se, de manhã, na deslocação ao Palácio Presidencial, Rebelo de Sousa havia mostrado, mais uma vez, disponibilidade para colaborar nesse diálogo, nos termos, momento e condições em que os moçambicanos achem útil, à noite apostou as fichas numa solução moçambicana: "Estou convencido de que os moçambicanos saberão resolver entre si as questões que os separam."

Em todo o caso, Marcelo reafirmou a "amizade e solidariedade [para com Moçambique] sempre que entenderem que isso será útil, em todas as instâncias". Palavra de alguém que se afirma como "mais do que um grande amigo" de Moçambique: "um filho devotado, um advogado empenhado, um parceiro estratégico e um irmão solidário".

A amizade é marca registada desta viagem, o afeto é marca registada de Marcelo. Até o presidente moçambicano já assinalou esse facto. Mas também notou outro: "Dirão alguns que não bastam os afetos para construir a cooperação. Os afetos não bastam. Mas, se existirem, criam uma vizinhança que vai para além da geografia e das circunstâncias do momento."