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Marcelo cauteloso sobre hipótese de mediar conflito moçambicano

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Marcelo a cumprimentar o MNE moçambicano à chegada a Maputo

JOÃO RELVAS/LUSA

No início da visita de Estado a Moçambique, Presidente da República defende política de "pequenos passos" e avisa: "Não vamos pôr o carro à frente dos bois"

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

em Maputo

Jornalista da secção Política

No primeiro dia de visita a Mocambique, e ainda antes de entrar no programa oficial da viagem - que arranca amanhã, com o encontro com o presidente Filipe Nyusi -, Marcelo Rebelo de Sousa encontra-se esta terça-feira com os três partidos moçambicanos com representação parlamentar, em conversações que, não sendo secretas, pretendem ser discretas. E, num contexto melindroso, com o regresso dos confrontos armados no norte do país entre as forças de segurança e a Renamo, o Presidente da República português mostra-se cauteloso nos poucos comentários sobre a situação política moçambicana.

"Moçambique é um país com futuro, acreditamos no futuro de Moçambique", garantiu Marcelo, focando a necessidade dos empresários portugueses manterem a aposta no país. "É nos momentos mais difíceis que se vêem os amigos, e este é um momento dificil", frisou.

Questionado durante a manhã, tanto por jornalistas portugueses como moçambicanos, sobre um eventual papel de mediação entre a Frelimo e a Renamo, Marcelo Rebelo de Sousa respondeu sempre com pinças, embora não se colocando de lado de um eventual processo de paz. "Os moçambicanos sabem que têm aqui um grande amigo e que faz tudo o que é fundamental, como os amigos fazem, para Moçambique seja uma verdadeira potência económica, social, cultural e política", respondeu o chefe do Estado, perante a insistência dos jornalistas.

Porém, noutra declaração à comunicação social, Marcelo alertou para o facto de estar em causa um Estado soberano: "Não podemos falar em questões que dizem respeito à soberania de um estado."

À pergunta concreta sobre se poderá assumir, ele próprio, um papel de mediação entre os dois velhos rivais moçambicanos, insistiu na sua tese, que acaba por ser uma afirmação de disponibilidade: "todos os portugueses em todas as circunstâncias, como todos os amigos dos nossos amigos, estão sempre permanentemente disponíveis para ajudar."

Desviando a pergunta, Marcelo deu como exemplo dessa ajuda permanente o Centro de Formação Profissional Metalomecânica, que acabara de visitar - um projeto que conta com a colaboração da UGT (Carlos Silva ajudou a fazer as honras da casa), do Estado Português e de empresas portuguesas, a par de sindicatos, privados e entidades públicas de Mocambique.

"Não por o carro à frente dos bois"

Nas suas meias-respostas sobre a complexa situação politico-militar moçambicana e o eventual papel de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa deixou uma pista sobre o que poderá ser a sua postura. "Eu tenho há muito tempo a teoria de que as grandes transformações se fazem por pequenos passos. Não por grandes proclamações, mas por pequenos gestos." Mais uma vez, o foco da sua resposta era o centro de formação profissional - mas a pergunta a que estava a responder era sobre política pura e dura.

Durante a tarde de desta terça-feira, depois de dar entrevistas à RTP África e a um canal moçambicano, Marcelo Rebelo de Sousa deverá receber no mítico Hotel Polana, onde está hospedado, os representantes da Frelimo, da Renamo e o Movimento Democrático de Moçambique (MDM). Poderiam ser meros encontros de cortesia, mas o objetivo do Presidente da República é, também em Moçambique, ajudar a "fazer pontes" - as conversas servirão para medir o pulso às várias posições e avaliar da possibilidade de Portugal se posicionar como eventual mediador entre a Frelimo e a Renamo.

A palavra essencial será sempre a da Frelimo, que governa o país desde a independência - fontes diplomáticas portuguesas acreditam que é mais fácil para um partido da oposição apelar à entrada em cena de um mediador, do que para o partido do poder, que tem a incumbência de gerir os assuntos do Estado. "Mocambique é um estado soberano, que forma uma unidade que não é cindível, e num estado soberano quem tem a palavra decisiva é o poder político do estado soberano", avisou Marcelo.

E, mesmo no caso de haver interesse das forças moçambicanas num papel mais ativo de Portugal, o nosso país teria de avaliar se essa entrada poderia ser proveitosa, notam as mesmas fontes. É essa avaliação que Marcelo espera poder começar a fazer esta terça-feira. Em todo o caso, vale a sabedoria popular, citada pelo PR: "Não vamos pôr o carro à frente dos bois."

(Texto atualizado às 15h20)