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Colégio Militar: “Existem tabus em todo o mundo. Ainda mais em internato”

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Mário Cruz / Lusa

Em audição no Parlamento, o major general Cóias Ferreira diz que nenhum aluno foi expulso da instituição pela orientação sexual

José Pedro Mozos

"Existem tabus em todo o mundo entre crianças e jovens e muito mais numa situação de internato. E dentro desta base não houve qualquer situação de um aluno que tenha saído do Colégio Militar por ter manifestado a sua orientação sexual". Foi desta forma que o diretor de Educação e Doutrina do Exército do Colégio Militar, general Cóias Ferreira, respondeu às questões sobre os casos de alunos que teriam sido empurrados para fora da instituição por serem homossexuais.

A polémica em torno da discriminação homossexual instalou-se quando o jornal online Observador publicou uma reportagem sobre o Colégio Militar em que o subdiretor do Colégio, tenente-coronel António Grilo, admitia que os alunos homossexuais eram excluídos.

A reportagem gerou uma reação do ministro da Defesa, que disse ser "absolutamente inaceitável qualquer situação de discriminação, seja por questões de orientação sexual ou quaisquer outras, conforme determinam a Constituição e a Lei". Azeredo Lopes pediu explicações ao Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) sobre o tema e, dois dias depois, o general Carlos Jerónimo, pediu a demissão.

Esta terça-feira de manhã, o diretor do Colégio Militar foi ouvido no Parlamento durante uma hora e meia. Segundo o general Cóias Ferreira, nunca foram praticados atos de homofobia por parte da direção do Colégio e apontou questões de "semântica e criatividade jornalística" na base do problema. Estas questões permitiram "leituras de conveniência" que moldaram as palavras proferidas pelo tenete-coronel António Grilo, sustentou.

A deputada socialista Isabel Moreira lamentou o facto de o subdiretor da instituição não estar presente e partiu de seguida para o confronto: "Quando o subdiretor do Colégio Militar assume que são tomadas diligências junto dos pais de alunos homossexuais não está a dizer que existe nenhuma norma: está a comprovar a sua adesão à homofobia". E seguiu: "A questão não é se alguém é expressamente excluído por ser homossexual. A discriminação caracteriza-se por não ser explícita. Os jovens não vão chegar à direção do Colégio e dizer 'bom dia. Sou gay'".

Na mesma linha, a deputada do BE Sandra Cunha argumentou que "não se trata de perceber, e nem se depreende isso da entrevista, se houve expulsões de alunos explicitamente pela sua orientação sexual" mas sim tentar perceber o que faz o Colégio Militar, "que medidas toma quando sabem que um aluno é homossexual".

No turno de resposta, Cóias Ferreira sublinhou o facto de até hoje nenhum aluno ter sido expulso pela sua orientação sexual e reafirmou que aquilo a que o tenente-coronel António Grilo se referia na entrevista era o excesso de afetos que pudessem ser vistos como "assédio ou coação sexual" e não explicitamente com a orientação sexual dos alunos.

As deputadas de PSD e do CDS-PP não entraram em dissonância com o diretor do Colégio Militar e a social-democrata Ângela Guerra disse mesmo acreditar nas explicações de Cóias Ferreira, considerando que o PSD ficava tranquilo por saber que "nunca nenhum aluno tinha sido transferido" por causa da sua orientação sexual. Ângela Guerra aproveitou ainda para lançar uma farpa ao PS e disse que aquilo que gostava mesmo de saber era os motivos que tinham estado na origem da demissão do CEME e admitiu que gostava de ouvir o ministro da Defesa a pronunciar-se sobre o caso no Parlamento.

No fim da sessão, Isabel Moreira disse que o general Cóias Ferreira, ao falar de coação sexual, estaria a denunciar um crime público e pediu mais explicações perante uma situação que considerou ser gravíssima.