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Marcelo: “Não há momentos incómodos para visitar Moçambique”

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tiago miranda

Presidente da República visita Maputo com alta tensão no país. Leva minicomitiva e agenda económica, cultural e política. Marcelo em contactos para intermediar conflito no país, Nyusi pede ajuda à União Europeia

Marcelo Rebelo de Sousa aterra terça-feira em Maputo disposto a fazer o que mais gosta. “Fazer pontes” tem sido o seu norte cá dentro. E é com esse espírito, neste caso a dobrar, que o Presidente da República inicia a sua primeira visita de Estado a Moçambique. Oficialmente, Marcelo vai empenhado em reforçar as relações bilaterais nas frentes económica, cultural e política; mas, ao que o Expresso apurou, à margem da agenda oficial o Presidente quer fazer mais do que isso. Vai ter contactos privados com forças políticas e avaliar as condições para posicionar Portugal num eventual processo de intermediação do conflito Frelimo/Renamo, que relançou o país num clima de altíssima tensão.

O pano de fundo é propício. Com o escândalo da dívida escondida pelo Governo moçambicano a obrigar o FMI e o Banco Mundial a fecharem a torneira, com a Europa de pé atrás, a violência a crescer no interior do país (esta semana foram encontrados mais de 100 cadáveres numa vala comum) e uma onda de protestos antigovernamentais convocados nas redes sociais a mobilizar altíssimas medidas de segurança na capital, o Presidente moçambicano procura apoios na UE. Mas nada tem sido fácil.

Marcelo acompanha de perto as diligências de Filipe Nyusi, que na semana passada esteve em Berlim e Bruxelas em busca de sinais de conforto para a eventual reabertura de um processo de diálogo que evite uma nova escalada de violência no país. E é este trilho que o Presidente português está apostado em seguir. Marcelo tem falado com Nyusi, com quem mantém ótimas relações e que veio a Lisboa à sua posse. Mas só na próxima semana, já no local, é que o PR - que terá encontros com representantes da Frelimo, da Renamo e do Movimento Democrático Moçambicano - espera perceber se a situação é verdadeiramente intermediável e como reage o xadrez político moçambicano à sua presença.

Oficialmente não há nada. Apenas uma incondicional profissão de afeto na ligação a Maputo. Que Marcelo Rebelo de Sousa deixa muito clara numa declaração que aceitou fazer ao Expresso: “Não há momentos incómodos para visitar Moçambique.” A sua ligação ao país é histórica e especial, desde que o seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador-geral da ex-colónia portuguesa entre 68 e 70. Mas tudo o que Marcelo não quer é virar esta visita para um passado nostálgico que jura não existir. A aposta é olhar para o futuro e aproveitar a semana intensa de contactos para passar a mensagem — é preciso evitar que o impulso registado nas relações bilaterais nos últimos anos ceda ao desânimo (textos ao lado) destes tempos mais difíceis.

140 empresários, cultura e Polana

Marcelo leva uma pequena comitiva de 27 pessoas (14 que seguem consigo de Lisboa, mais 13 que já estão em Maputo), uma soma altamente contrastante com os 163 ocupantes do avião que Cavaco Silva fretou em 2008, quando visitou o país. Quanto ao programa, terá uma fortíssima componente económica, e uma forte componente cultural e institucional.

Depois de um primeiro dia mais leve — em que vai dar entrevistas e visitar um centro de cooperação militar portuguesa —, o PR dedica o segundo dia ao mundo empresarial. Tem um encontro com 140 empresários portugueses e moçambicanos e vai visitar empresas. No terceiro dia, 5 de maio, Marcelo vira-se para a Cultura. É o Dia Internacional da Língua Portuguesa e o Presidente terá um grande encontro com artistas moçambicanos. Ocasião para reencontrar o filho de Malangatana, seu velho amigo Eventualmente, a posição moçambicana contra o Acordo Ortográfico virá à baila — Marcelo quer aproveitar a indisponibilidade de Maputo e Luanda para assinarem o texto para reabrir a discussão.

No último dia, o programa vira-se para as áreas sociais, Educação e Cultura, com visitas a hospitais e escolas. E, à noite, o Presidente oferece um jantar no histórico Hotel Polana, onde ficará instalado. Será a retribuição do jantar que Filipe Nyusi lhe oferecerá na véspera na sua residência oficial, o Palácio da Ponta Vermelha, nem mais nem menos do que a casa onde viveu a família Rebelo de Sousa. Marcelo não quer nostalgias. Tudo dependerá da forma como o homólogo moçambicano o quiser conduzir por lá.

Costa não manda ministros

Além do tamanho (mini) da comitiva, esta visita tem outra originalidade. Não vai nenhum ministro. Apesar de o Governo partilhar com o Presidente a aposta nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa como uma das prioridades da política externa, apenas dois secretários de Estado, a da Cooperação e o da Defesa, acompanharão Marcelo. Quando Cavaco visitou o país em 2008, levou consigo quatro ministros (MNE, Educação, Defesa e Cultura). Mas desta vez a representação governamental será mínima.

Ao Expresso, o gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros explicou que Augusto Santos Silva “acompanha o senhor Presidente na sua deslocação a Roma, entre 1 e 2 de maio. Na deslocação a Moçambique, o senhor Presidente da República será acompanhado pela secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, a qual tem competências delegadas na área da política externa e da cooperação”. Belém registou, no entanto, a fraca aposta na visita, sobretudo numa altura em que se prepara a próxima cimeira bilateral para o final deste ano.

Por último, há um protagonista-chave nesta visita. Chama-se José Augusto Duarte e é assessor diplomático do PR, cargo que ainda acumula com o de embaixador de Portugal em Maputo. A razão para a acumulação é simples: o diplomata foi eleito há um ano para liderar o grupo de doadores a Moçambique (G19) e só termina funções a 21 de junho. A ajuda em causa representa 20% do orçamento moçambicano. Marcelo conta com ele para a ambiciosa ofensiva diplomática que leva no bolso.

Texto publicado na edição do Expresso de 30/04/2016 atualizado com informação relativa a encontro com filho do pintor Malangatana

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