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“Tive a infeliz pontaria de ser secretário-geral da UGT”

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Acha que se paga “um preço alto” para ser líder sindical. E os anos de chumbo da crise não ajudaram. Carlos Silva parece disposto a bater com a porta, ao fim de três anos de mandato. Desistiu da convergência com a Intersindical, perdeu a fé na Europa e assume que partidos e sindicatos “estão a perder força”. Aqui e em todo o lado

Marcos Borga

Acha que se paga “um preço alto” para ser líder sindical. E os anos de chumbo da crise não ajudaram. Erro de pontaria ou de casting, o certo é que sente que caiu “como de um paraquedas na UGT” e logo no “momento mais difícil" da história da democracia em Portugal. Carlos Silva parece disposto a bater com a porta, ao fim de três anos de mandato. Desistiu da convergência com a Intersindical, perdeu a fé na Europa e assume que partidos e sindicatos “estão a perder força”. Aqui e em todo o lado. O homem que lidera a UGT não deitou a toalha ao chão. Acredita até que o Governo de António Costa é capaz de cumprir a legislatura, porque a esquerda não pode ficar com o ónus de uma queda precipitada do Executivo. “PCP, Bloco e Verdes também têm responsabilidades de governação. Não estão no Governo, mas apoiam-no”, diz Carlos Silva. Além disso, tem esperança nas capacidades do primeiro-ministro. “Foi uma surpresa. É preciso ter jeito”.

Este será mais um 1º de Maio dividido. Tentou sequer falar com a CGTP?
Não tentei. Mas também, do outro lado, ninguém me bateu à porta.

A convergência era um dos objetivos da sua liderança. Desistiu?
Tinha o desejo de poder ter um 1º de Maio conjunto. Não atribuo culpas a ninguém, mas reconheço que é muito difícil que esse passo seja dado. É verdade que não insisti, porque, inclusivamente, no seio da minha própria central poderia ser mal entendido.

Também tem de gerir os conflitos internos...
A conclusão é sua.

Como é que um líder sindical explica que, depois de uma das maiores crises do país, as centrais tenham perdido filiados? Os trabalhadores perderam a fé nos sindicatos?
Eu acho que a questão é outra: as grandes organizações tradicionais dos sistemas democráticos estão a sofrer um descrédito enorme. Partidos políticos e sindicatos. Porque os dois andaram sempre de mãos dadas.

O descrédito nos partidos políticos sobrou para os sindicatos?
É um arrastamento de todos os atores políticos, sindicais, sociais que ao longo das últimas décadas têm dado a cara por este sistema democrático. Claro que perdemos força!

Não é uma contradição: na altura em que os trabalhadores perdem mais direitos, os sindicatos perdem força?
Da mesma forma que os poderes democráticos perderam força a favor de poderes fáticos. Percebemos que o FMI manda mais do que os departamentos nacionais... As pessoas votam em Governos, elegem dirigentes que lhes criam expectativas nas campanhas eleitorais e depois, quando chegam ao poder, são manietados por forças ocultas que existem em todo o mundo e que decidem.

Isso é uma confissão de derrota? O que pode então uma central sindical fazer?
Todo o movimento sindical internacional está em recuo e nós temos de aceitar isso. E temos de reconhecer que temos de fazer uma luta em termos europeus. Sozinhos não conseguimos resistir.

A solidariedade a nível europeu existe entre sindicatos?
Esse é outro problema. Tenho de reconhecer que não existe. Há dirigentes sindicais de países nórdicos que olham para os dirigentes do sul e dizem que os nossos povos gastaram acima do que deviam.

Esse discurso passa entre sindicalistas?
Ah, claro! Eu ouvi isso. Mesmo a nível europeu cada um olha para o seu umbigo. O que temos de fazer? Se calhar temos de construir uma nova Europa, porque esta foi mal construída e criou demasiados muros entre nós.

É mais fácil desenvolver uma luta sindical contra este Governo ou contra o anterior?
Nós não temos problemas em escolher. Seja quem for que estiver no Governo tem de governar bem e para as pessoas. Não faço distinções.

O movimento sindical deu umas tréguas longas a este Governo. Ficou mais tolerante?
Há tolerância por parte dos sindicatos porque reconhecemos que nos últimos quatro anos foi só tirar e agora estão a devolver a pouco e pouco. Se fosse tudo de uma vez, não havia dinheiro para pagar

Acredita que questões como as 35 horas ou a negociação coletiva vão correr bem?
Acreditamos que vão ser resolvidas por este Governo. Têm de ser, porque há um compromisso do primeiro-ministro!

E qual é o vosso limite de paciência?
Dura enquanto o dialogo social se for mantendo. Para as 35 horas a nossa baliza é 1 de julho. Eu acredito que o Governo o vai fazer nessa data. Senão o conseguir, deve ser negociada uma compensação.

Mesmo assim é um estado de graça muito prolongado... Não foi assim com o Governo PSD/CDS nos primeiros meses...
Porque aquilo era mau de mais...

Não é um risco dar um cheque em branco a este Governo?
Não estamos a dar nenhum cheque em branco! O Governo está paulatinamente a fazer uma reversão de medidas. Há promessas que estão agendadas no tempo. A UGT vê isto como um compromisso. Vamos aguardar até 2017.

Acredita que o Governo dura a legislatura?
Porque não há de durar? Se não for um Governo de legislatura alguém fica com o ónus perante o país.

Quem?
A esquerda parlamentar que apoia o Governo sabe muito bem as responsabilidades que tem e que o país tem compromissos internacionais a cumprir. Esses compromissos internacionais são um sinal de responsabilidade e maturidade política. PCP, Bloco de Esquerda e Verdes também têm responsabilidades de governação. Não estão no Governo, mas apoiam-no.

No entanto, sempre disseram que apenas garantiam o OE-2016. O resto é um grande ponto de interrogação e isso pode ser um risco para o que os sindicatos esperam vir a conseguir...
Acima de tudo o risco é para o país. A UGT é acusada de ser uma organização sindical muito institucional, que lida com os partidos e fala com o Governo, com os empresários. É verdade. Mas também alguém tinha de fazer esse papel. Isto não pode ser só rua e agitação. Mas do lado da outra central tenho de reconhecer que tem tido alguma paciência, permitindo ao Governo ir realizando pouco a pouco as medidas que prometeu aos portugueses antes de tomar posse. Acho que temos de dar tempo ao tempo. Ninguém sabe o que vai acontecer.

É mais fácil trabalhar com António Costa ou com Pedro Passos Coelho, os dois primeiros-ministros que conheceu como líder da UGT?
É uma pergunta difícil. Eu trabalhei com regularidade com o anterior Governo. Com António Costa já reuni duas ou três vezes e fui sempre bem atendido. Quando necessito tenho a porta aberta.

Foi para si uma surpresa como primeiro-ministro?
Ainda lá está há pouco tempo. Mas foi uma surpresa na habilidade para gerir este acordo com a esquerda. É preciso ter jeito.

Mas ainda há muito caminho pela frente...
Temos 12% de desemprego, 560 mil inscritos nos centros de emprego e 30 mil casais desempregados. Atravessámos o momento mais difícil da história da democracia em Portugal. E eu tive esta infeliz pontaria de ter sido secretário-geral da UGT...

Mas vai continuar?
Não sei. Vou colocar a questão, em primeiro lugar, à tendência socialista na UGT, no próximo dia 9 de julho. E depois à central. Depois, logo se vê. Sou eu quem decide. A minha vontade é a minha vontade. Isto não é uma monarquia, não vou ficar no cargo para sempre

Só teve um mandato!
Mas quatro anos é muito tempo. Foi muito desgastante e muito difícil. Eu sou um defensor da família e fiz a opção de viver no interior. Vim para a UGT imbuído de um espírito de missão e fiquei longe de casa. Não imaginava que isto fosse tão desgastante, tão complicado, tão exigente. Eu caí na UGT como de um paraquedas.

Porque o momento do país era difícil ou porque houve aspetos da liderança de uma central sindical com que não contava?
As duas coisas.

O que pesa mais?
O quadro político atual, que exige muita proximidade dos sindicatos. Desgasta porque é muito trabalho e é frustrante, porque tenho muita dificuldade em dar a volta a isto. Eu, infelizmente (e a culpa é minha não é de mais ninguém) habituei os dirigentes de todo o país a que, de cada vez que me convidam, eu vou. E tem sido uma coisa desgraçada.

Contou os quilómetros que já fez como secretário-geral?
Só neste carro, num ano já fiz 100 mil. No anterior, fiz 200 mil. E estou aqui há três anos. Mais o que andei no meu carro e sem contar com as viagens de avião. É a vida! Mas é um preço alto.