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Os amigos são para as ocasiões

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O caso de Diogo Lacerda Machado, o ‘melhor amigo’ que resolve problemas ao primeiro-ministro, tem alguma coisa de original? Sim. Mas não muito

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Mário Soares teve Almeida Santos; Cavaco Silva teve Manuel Dias Loureiro; António Guterres teve Jorge Coelho; Durão Barroso teve José Luís Arnaut; Pedro Santana Lopes teve Rui Gomes da Silva; José Sócrates teve Pedro Silva Pereira; Pedro Passos Coelho teve Miguel Relvas. Basta olhar para os últimos 30 anos e escolher um exemplo por cada primeiro-ministro para se confirmar que o ‘amigo do primeiro-ministro’ não é uma invenção de António Costa. É uma instituição nacional.

É alguém de absoluta confiança do chefe do Governo, com uma história comum feita de amizade e cumplicidade, que garante que o PM pode sempre contar com ele, seja para dar a cara pelo Governo naqueles momentos embaraçosos ou para conduzir nos bastidores as negociações melindrosas que não se podem confiar a mais ninguém — missões espinhosas que pedem entendimento e lealdade, passando muitas vezes por cima (ou ao lado) dos governantes que têm a tutela direta dos dossiês.

Hábeis, discretos, todo o terreno, capazes de guardar segredos e de engolir sapos, de proteger o PM de embaraços, mas também de lhe dizer na cara aquilo que poucos seriam capazes de lhe dizer — assim é o ‘amigo do primeiro-ministro’. Se os amigos são para as ocasiões, o ‘amigo do PM’ é precioso sobretudo ‘naquelas’ ocasiões. “A amizade facilita, sobretudo nos momentos de grande tensão em que, às páginas tantas, é difícil lidar com alguém que não se conhece a 100%”, diz um ex-ministro que teve essa função.

AMIGOS 1. Almeida Santos foi ministro-adjunto do primeiro-ministro 
e ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares no consulado de Mário Soares

AMIGOS 1. Almeida Santos foi ministro-adjunto do primeiro-ministro 
e ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares no consulado de Mário Soares

Ana baião

O atual chefe do Governo não foge a esta bonita tradição. António Costa sabe que conta com o amigo Diogo Lacerda Machado. Este discreto advogado terá muitas qualidades — além daquele “jeito nato” que Costa lhe apontou “para procurar encontrar soluções, para servir de mediador”, também é generoso, pois aceitou trabalhar pelo “valor simbólico” de 2 mil euros brutos por mês —, mas o que o transformou numa estrela foi o facto de ser “o melhor amigo há muitos anos” do primeiro-ministro. Costa confiou-lhe dossiês tão delicados — e com tanto impacto — como a renegociação da privatização da TAP, a procura de uma saída para os lesados do BES e a mediação do conflito entre o BPI e Isabel dos Santos.

Não há nada de novo na dupla António e Diogo. Quase nada. Almeida Santos foi ministro-adjunto do primeiro-ministro e ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares; Dias Loureiro esteve como ministro dos Assuntos Parlamentares e ministro da Administração Interna; Coelho começou como ministro-adjunto do PM, depois foi ministro da Administração Interna e ainda teve a Presidência e o Equipamento Social; Arnaut foi ministro-adjunto do PM; Gomes da Silva entrou como ministro dos Assuntos Parlamentares e saiu como ministro-adjunto do PM; Silva Pereira manteve-se seis anos como ministro da Presidência do Conselho de Ministros; Relvas foi ministro-adjunto do PM e dos Assuntos Parlamentares. Lacerda Machado não.

AMIGOS 2. Jorge Coelho tornou-se uma peça essencial na ascensão de Guterres dentro do PS nos anos 90

AMIGOS 2. Jorge Coelho tornou-se uma peça essencial na ascensão de Guterres dentro do PS nos anos 90

alberto frias

No passado, o ‘ministro-amigo’ estava no Governo, com as vantagens e desvantagens da exposição e do escrutínio de um cargo público. Nunca estava no conforto de um escritório de advogados, a uma distância segura das atribulações políticas.

“Se um primeiro-ministro acha importante ter um amigo ou alguém de confiança a trabalhar consigo para gerir assuntos do Estado, deve convidá-lo para o Governo”, considera José Luís Arnaut, advogado e ex-ministro. “Eu nunca representei o Estado em qualquer processo a não ser quando estive no Governo. Porque acredito que só pode representar o Estado quem estiver disposto a aceitar regras de transparência. Se não, ficava toda a gente do lado de fora, a representar o Estado quando fosse conveniente e a ganhar pelo privado, porque o Estado paga pessimamente.”

O outsourcing é a grande originalidade do ‘amigo de António Costa’. Mas não é um pormenor. O contrato de prestação de serviços entretanto assinado entre o Estado e Lacerda Machado, que obriga a que todas as comunicações entre os dois amigos sejam feitas por escrito, apenas tornou o caso ainda mais original.

Manel forever

Se descontarmos estas originalidades, a história do ‘amigo’ é velha como a história do poder. Por alguma razão, durante séculos, os Papas puderam nomear um (nalguns casos, vários) cardeal-sobrinho — quase sempre um familiar, na maioria dos casos um sobrinho, mas sempre alguém do círculo mais próximo e de absoluta confiança para os acompanhar no exercício do poder. A história dos cardeais-sobrinhos está repleta de escândalos, processos heterodoxos, jogadas de bastidores, enriquecimentos instantâneos e casos mais ou menos inconfessáveis. A outra escala, o clube português dos ‘amigos do PM’ também não é desinteressante.

Poucos casos incluem uma personagem tão completa como Manuel Dias Loureiro — o homem que, já ministro, cantou músicas de Frank Sinatra e Julio Iglesias no casamento da filha do primeiro-ministro, acompanhado por não outra do que a orquestra do maestro Shegundo Galarza, e o ministro que teve o raro privilégio de passar férias com Aníbal e sua família.

AMIGOS 3. José Luís Arnaut dirigiu, em 1995, a campanha 
de Durão Barroso para a liderança 
do PSD

AMIGOS 3. José Luís Arnaut dirigiu, em 1995, a campanha 
de Durão Barroso para a liderança 
do PSD

ana baião

Cavaco até tinha um amigo de infância no seu gabinete (Teófilo Carapeto Dias, que em rapaz morava do outro lado da estrada da casa dos Cavaco, em Boliqueime, e fazia o caminho para a escola com o amigo Aníbal — e pela mão deste chegou a São Bento, onde foi durante uma década assessor administrativo do chefe do Governo). Cavaco até foi convidando, ao longo dos anos, alguns amigos para pastas governamentais — Jorge Braga de Macedo, Manuela Ferreira Leite, Eduardo Catroga. Mas Dias Loureiro era um caso à parte.

Foi um habitué na residência de São Bento nos dez anos em que Aníbal e Maria lá viveram — era comum ir, ao sábado ou ao domingo, almoçar com a família Cavaco, para depois passar essa tarde no gabinete do primeiro-ministro a fazer o ponto da situação política, a discutir as últimas do partido ou as iniciativas seguintes do Governo. Era amigo da família, não apenas do PM. Maria apreciava-lhe o sentido de humor, a cultura, o jeito natural para contar histórias e nunca deixar morrer uma conversa.

AMIGOS 4. Em privado, Cavaco Silva tratava Dias Loureiro por “o Manel”

AMIGOS 4. Em privado, Cavaco Silva tratava Dias Loureiro por “o Manel”

rui ochôa

A história começou por mútuo interesse político, nada mais. Em 1985, quando Cavaco chegou a líder do partido, tinha uma vaga ideia sobre esse Dias Loureiro. Mas fixou-o depressa: no congresso da Figueira da Foz, foi um dos mais ativos dirigentes distritais a empurrar Cavaco para a liderança do partido. O seu papel foi bem diferente do de Fernando Nogueira, que se tornaria o outro grande general do cavaquismo — o apoio de Nogueira a Cavaco foi decisivo, mas só chegou depois de muita hesitação. Loureiro, pelo contrário, alistou-se no primeiro momento e foi incansável a arregimentar tropas para o homem de Boliqueime. Foi recompensado com o cargo de secretário-geral, e nesse lugar tornou-se imprescindível ao chefe. Nos cinco meses entre o congresso da Figueira e as eleições que deram o Governo a Cavaco, Dias Loureiro era o homem que estava ao seu lado todos os dias na sede do partido ou na estrada, a resolver todo o tipo de problemas. A amizade e a cumplicidade política duraram até hoje e resistiram mesmo ao escândalo em que Dias Loureiro se viu envolvido no BPN — já com essa sombra a pairar, Cavaco nomeou-o para o Conselho de Estado e segurou-o para lá do que aconselhavam as conveniências.

Na lendária rivalidade entre os dois Joaquins do cavaquismo — Nogueira e Dias Loureiro —, era evidente que Cavaco precisava de ambos, confiava nos dois e dividia para reinar. Nogueira era mesmo o nº 2 do Governo, mas Loureiro era o que mais privava com o PM e foi o que sentiu a confiança suficiente para lhe fazer frente: protagonizou alguns debates tensos em Conselho de Ministros com o chefe do Governo e chegou a pedir para sair do Governo entre críticas à falta de reformas estruturais e aos vícios do aparelhismo em que tinha caído o PSD. Cavaco nunca o deixou ir, mas perdoou-lhe tudo — até as inconfidências que fazia aos jornalistas e a pouco discreta vida social. Talvez por saber que “o Manel” (tratava-o assim em privado, ao passo que Nogueira nunca foi “o Fernando”) não ambicionava ser o nº 1.

Querer ser o nº 2

Nas características do ‘amigo do PM’, uma das mais importantes será esta: não terem apetência pelo lugar do amigo/chefe. “Tem de ser alguém sem uma agenda própria, que não se importe de ficar em segundo plano”, confirma um homem que já desempenhou esse papel mas pede para não ser identificado. A mesma fonte vai mais longe: “O nº 2 de um primeiro-ministro tem de ser alguém que tenha a ambição de ser... o nº 2 do primeiro-ministro.”

“A principal característica é ser alguém absolutamente leal, a quem o PM possa dizer tudo e que, no sentido contrário, também seja capaz de dizer tudo ao PM. Incluindo dizer-lhe sim, mas também dizer-lhe não e dizer-lhe quando errou”, conta outro ex-governante que fez esse papel. “Se já tiverem uma relação de amizade, isso ajuda, porque podem falar livremente, sem o filtro de uma relação de subordinação.”

 Rui Gomes da Silva 
era o grande amigo de Santana Lopes 
no Governo

Rui Gomes da Silva 
era o grande amigo de Santana Lopes 
no Governo

alberto frias

Jorge Coelho conheceu António Guterres em 1983. Coelho era chefe de gabinete do secretário de Estado dos Transportes, o seu primo Murteira Nabo; Guterres era um dos elementos mais destacados do ex-Secretariado, o grupo do PS que havia desafiado Mário Soares e daria três líderes ao partido no pós-soarismo. O talento político de Guterres era uma evidência; que havia de chegar a líder era outra. A capacidade operacional de Coelho e a sua leitura política terra a terra começavam a dar nas vistas. Aproximaram-se, fizeram-se amigos, e Coelho tornou-se uma peça essencial na ascensão de Guterres dentro do PS nos anos 90.

Quando chegaram à campanha das legislativas de 1995, era óbvio que, apesar de a entourage de Guterres incluir outras figuras de peso (António Vitorino, António José Seguro, Pina Moura), Coelho era o verdadeiro nº 2. Manteve esse papel no Governo, mesmo quando a hierarquia apontava para Vitorino. Essa é outra característica do ‘amigo do PM’: é reconhecido como nº 2, mesmo que o organograma diga outra coisa.

Passos Coelho disse que não dispensava Relvas porque “ele é um <i>doer</i> [fazedor]”

Passos Coelho disse que não dispensava Relvas porque “ele é um doer [fazedor]”

alberto frias

Coelho era ‘o homem da máquina’ e tinha a fama de ‘bombeiro de serviço’. Pôde exercitá-la amiúde no Governo de Guterres, que vivia crises — grandes, médias e pequenas — ao virar de cada esquina. Ser bombeiro era, por exemplo, isto: num dia de 1996, Coelho foi ao Parlamento defender um bicho esquisito chamado ‘Totonegócio’ (as verbas do Totobola passavam a reverter na íntegra para os clubes de futebol, de forma a estes pagarem as dívidas altíssimas que haviam acumulado ao fisco). O ministro-adjunto não tinha estado nas negociações do acordo com os clubes nem sequer conhecia os pormenores do negócio, que lhe foram explicados à pressa pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Mas dava-se uma coincidência fatal: por um lado, o ministro das Finanças, Sousa Franco, não sabia de nada e, quando soube, ficou furioso; por outro, Coelho era o único com a combatividade e a cara de pau suficientes para se atravessar por um diploma que mal conhecia e que tinha tudo para correr mal. “Foi muito ingrato para mim”, reconheceria Coelho, “mas considerou-se que eu era a melhor solução, por isso lá fui.” Era assim.

E assim foi até Coelho se demitir depois da tragédia da ponte de Entre-os-Rios. Acabou uma colaboração que deu bons resultados políticos mas não a amizade — ainda há dias, com Guterres em plena campanha para secretário-geral da ONU, jantou com Coelho em Lisboa. Continuam a considerar-se melhores amigos.

O fazedor do líder

Tal como Coelho com Guterres, também Miguel Relvas foi decisivo na caminhada de Pedro Passos Coelho para a conquista do PSD e do Governo. Conheceram-se há muito tempo — há tanto que ainda Passos nem sequer liderava a JSD. Relvas foi sempre o operacional de serviço, além de amigo. E quando Passos fez uma sabática no sector privado, Relvas oleou a máquina do PSD e abriu caminho para o amigo voltar. Há quem jure que foi Miguel quem fez de Pedro o nº 1 e não Pedro a fazer de Miguel seu nº 2.

Na fase em que o Governo estava em formação, Relvas já cumpria o papel de ‘ministro-amigo’ ao sondar gente para o Executivo, para garantir que aqueles a quem o primeiro-ministro telefonasse não lhe dissessem não. Via-se como um homem com quatro funções: proteger, alertar, atenuar e agir. Já no Governo, passava o dia ao telefone e em reuniões com todo o Governo, no trabalho de coordenação política, que é uma das missões essenciais destes elementos. Passos reconheceu-lhe sempre a lealdade e o empenho, mesmo que os resultados não fossem sempre imaculados — as falhas de coordenação nesse tempo foram muitas, e Relvas acabou como um dos elementos mais desgastados do Executivo. Quando caiu em desgraça (sobretudo por causa da sua estranha licenciatura), o PM explicou ao partido que não o tinha ao seu lado por causa da licenciatura mas porque “ele é um doer [fazedor]” que “faz bem”.

Os amigos tóxicos

Pedro segurou-o até ao fim, mesmo quando Miguel já era um ativo tóxico para a imagem do Governo. E só saiu quando se viu “sem força anímica”. Onde se prova que, por vezes, ter um amigo ao lado pode implicar a grande desvantagem de ser mais difícil ter o discernimento para o deixar cair.

Veja-se o caso de Pedro Santana Lopes. O seu núcleo mais próximo, onde estavam dois dos seus amigos de maior confiança, foi decisivo para matar esse estranho Governo. Henrique Chaves, um recatado advogado lisboeta que só dava nas vistas quando aparecia nos congressos do PSD ao lado de Santana Lopes, entrou nesse Governo como ministro-adjunto do PM. Ocupou o cargo por 130 dias. Foi depois despromovido para ministro da Juventude e Desporto, quando a equipa de Santana dava sinais de implosão. A troca de cadeiras tinha a ver com Rui Gomes da Silva, o outro grande amigo de Santana no Governo. Gomes da Silva era ministro dos Assuntos Parlamentares e atirou-se a Marcelo Rebelo de Sousa, um dos mais contundentes críticos do Executivo. Marcelo, queixando-se de pressões, abandonou o programa. Rui acabara de derrubar o mais influente comentador político do país, mas não tinha arcaboiço para isso. O efeito boomerang foi só uma questão de tempo. Santana não quis abdicar de manter ao seu lado o velho amigo dos tempos da faculdade e, em vez de o afastar, decidiu dar-lhe um lugar mais protegido... o de ministro-adjunto, que era de Henrique Chaves. Oito dias depois da troca, Henrique percebeu que o amigo Pedro o tinha despachado para uma pasta irrelevante com base em argumentos falsos. Foi o fim: Chaves deu cabo do que sobrava da imagem do primeiro-ministro com uma carta em que acusava o até então grande amigo de “falta de lealdade e de verdade”.

Sócrates tinha com Silva Pereira uma relação de amizade mas, sobretudo, de enorme confiança

Sócrates tinha com Silva Pereira uma relação de amizade mas, sobretudo, de enorme confiança

alberto frias

Por ironia, duas semanas antes, o mesmo Gomes da Silva tinha impedido o Governo de se desfazer. O PSD realizou um congresso em Barcelos, no qual Santana foi por fim ungido como sucessor de Durão Barroso, mas a notícia do conclave foram as críticas de alguns barões ao CDS, o parceiro que garantia a coligação de Governo. Paulo Portas ficou furioso com a deslealdade, e o acordo tremeu. Santana tentou remediar por telefone, mas Portas nem o atendia. E Gomes da Silva foi de urgência de Barcelos para Lisboa para acalmar o líder do CDS. Conseguiu colar os cacos.

Quando Santana e Gomes da Silva caíram, também saíram do Governo Nuno Morais Sarmento e José Luís Arnaut — ambos estavam ali sobretudo para fazer um favor a um amigo. Não a Santana, mas a Durão Barroso, que ao trocar o Governo pela Comissão Europeia lhes havia pedido que se mantivessem no Executivo em nome da estabilidade. Ambos aceitaram, mas com “o Pedro” não havia a mesma química que com “o Zé Manel”. No Executivo de Barroso havia um trio que acompanhava o primeiro-ministro desde tempos remotos, formado por Sarmento, Arnaut e José Matos Correia — os dois primeiros eram ministros, o terceiro era o chefe de gabinete do PM, todos eram amigos há muitos anos e todos tinham trabalhado imenso para que Barroso chegasse à liderança do Executivo. E lá chegaram com ele.

Arnaut até fez mais: em 1995 dirigiu a campanha de Durão para a liderança do PSD. Fernando Nogueira ganhou, mas no ano seguinte saiu, e o partido olhou para Durão Barroso, à espera que rendesse o anterior líder. Mas para Barroso era cedo, havia toda uma legislatura de oposição pela frente, e decidiu resguardar-se. Quando parecia haver um vazio de poder no partido, Marcelo Rebelo de Sousa chegou-se à frente, e Arnaut deu uma mãozinha. Não por Marcelo, mas pelo “Zé Manel”. Manter o professor em funções significava ganhar tempo para Barroso — e, em simultâneo, Arnaut punha os dois pés no PSD, a medir-lhe o pulso e a preparar a sucessão, que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Foi mais cedo do que tarde, e José Luís, que no tempo de Marcelo era ‘o homem da mala’, com Durão chegou a secretário-geral. Manteve, aliás, esse cargo depois de ascender ao Governo — o que vale tanto como prova de confiança de Durão como prova de amizade de Arnaut (“Hoje, nem morto”, costuma dizer sobre esses tempos de acumulação de funções).

Os facilitadores

O peso do ‘amigo do PM’ na máquina partidária é outra quase constante da história. Loureiro, Coelho, Arnaut, Gomes da Silva, Relvas, todos tinham um olho no Governo e outro no partido, onde arrumavam a casa sempre que era preciso, fosse com autoridade própria ou emprestada pelo líder. A grande exceção a esta regra foi Pedro Silva Pereira, o homem de confiança de José Sócrates: entrou tarde no PS e nunca lhe pôs a mão. Sócrates não precisava — tinha cimentado o seu poder no aparelho socialista através de uma teia de amizades e cumplicidades pessoais que o punha em linha direta com os grandes caciques socialistas.

A dupla Sócrates/Silva Pereira é outra que tem origem nos bancos da faculdade, mas neste caso por interposta pessoa. Aliás, tendo em conta o atribulado percurso académico de Sócrates, cuja grande característica foi não ir às aulas, seria estranho que aí se forjasse uma qualquer aliança para a vida. Aqui entra em cena António Costa, que foi colega de Silva Pereira no curso de Direito. Quando Sócrates era secretário de Estado do Ambiente e precisava de um assessor jurídico, Costa recomendou-lhe o ex-colega Silva Pereira, que por esses dias era editor da TVI.

António Costa sabe que pode contar com o amigo Diogo Lacerda Machado para o que for preciso

António Costa sabe que pode contar com o amigo Diogo Lacerda Machado para o que for preciso

fotos LUÍS BARRA e LUÍS COELHO

À solidez jurídica, o novo assessor juntava a experiência na comunicação social e uma intuição política prática e certeira. Estava ali uma dupla que podia funcionar. Funcionou. Subiram juntos os degraus todos até Sócrates chegar ao poder — e, lá chegado, não dispensou Silva Pereira, com quem já tinha uma relação de amizade mas, sobretudo, de enorme confiança. Eram lendárias as fúrias de José Sócrates em São Bento de cada vez que tinha alguma contrariedade. Pedro Silva Pereira, ministro da Presidência nesses dois governos, nunca perdia a calma, nunca deixava de contrariar Sócrates quando discordava — e discordou muitas vezes— e, em boa parte desses episódios, ficava com a responsabilidade de resolver o problema.

Além de nunca se ter assumido como barão do aparelho partidário, o ex-braço-direito de Sócrates tem outra característica que o demarca dos demais desta história — nem durante o poder nem depois se deixou embrulhar em relações perigosas com o mundo dos negócios. A fama de Almeida Santos como grande facilitador do regime era bem conhecida, o caso de Dias Loureiro já foi referido, a contratação de Coelho pela Mota Engil fez correr muita tinta, o sucesso de Arnaut e Sarmento como advogados de negócios é um caso sério. E Miguel Relvas, com o seu ar despachado e a 200 à hora, teve sempre sobre si a suspeita de que andava a tratar da vidinha. Eis um exemplo: quando se soube que Relvas se reuniu com German Efromovich por causa do processo de privatização da TAP, caiu o Carmo e a Trindade. “Promiscuidade e falta de transparência inaceitáveis”, bradou o PS — PS que não vê agora problema algum em que o mesmo dossiê da TAP tenha sido acompanhado por Lacerda Machado. Miguel era ministro-adjunto do PM, tinha funções transversais no Governo e não acumulava essas funções com nenhumas outras, não se colocando questões de incompatibilidade. Diogo é só o ‘melhor amigo do PM’. Não estava no Governo, não cumpria princípios de transparência e até tem um potencial problema de incompatibilidade: esteve envolvido no negócio mais ruinoso da história da TAP, a compra da VEM, no Brasil. Mais vale amigo do que ministro?

Artigo publicado na Revista E do Expresso de 23 abril 2016