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Rui d’Espiney, a morte do último resistente maoísta

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Arquivo RTP

Morreu esta quata-feira em Setúbal, aos 74 anos, vítima de doença prolongada, o último dos protagonistas da cisão maoísta no PCP em 1964

Para toda uma geração de oposicionistas da ditadura que não se revia na teoria e na prática do PCP, havia um trio que simbolizava uma via alternativa: Francisco Martins Rodrigues, João Pulido Valente e Rui d’Espiney. Este, ironicamente, era primo direito de Rui Patrício, último ministro dos Negócios Estrangeiros da ditadura.

Fundadores em 1964 do Comité Marxista-Leninista Português (CMLP) e da Frente de Acção Popular (FAP) foram capturados e torturados pela PIDE nos meses seguintes, permanecendo presos no Forte de Peniche até ao 25 de Abril. Desaparecidos Martins Rodrigues e Pulido Valente, D’Espiney era o derradeiro sobrevivente de uma época, marcada pelo grande cisma sino-soviético e pelo despontar das correntes maoístas na Europa.

Recentemente, o “Courrier Internacional” publicou um texto do sítio norte-americano “Politico” dando conta do testemunho de Dennis Redmont, correspondente da agência Associated Press para o sul da Europa. Nesse artigo, Redmont contava o seu reencontro com D’Espiney já muito doente, na modesta casa onde residia, em Setúbal.

Em 1965 o jornalista americano fez a cobertura do julgamento de D’Espiney e Martins Rodrigues, acusados do homicídio de Mário Mateus ex-militante do PCP de quem suspeitavam, com fundadas razões, de ser informador da PIDE e ter denunciado Pulido Valente. Levado a uma mata em Belas foi interrogado e sumariamente liquidado.

“A imprensa fez alarde sobre o ‘julgamento sumário’ e atribuiu-nos um carácter sanguinário. Mas nós não tínhamos dúvida de que o nosso acto se inscrevia na resistência do povo português à ditadura”, escreveu mais tarde Martins Rodrigues.

O facto de, mesmo com as restrições da censura e as pressões da PIDE, ter havido repórteres estrangeiros como Redmont no julgamento, em 1965, terá frustrado o plano inicial da polícia secreta que apontava para a liquidação sumária dos réus.

Logo depois do 25 de Abril os três estiveram ligados à fundação da UDP. Posteriormente Rui d’Espiney manteve um perfil discreto, passando a dedicar-se ao ensino e à acção social junto de minorias.

O corpo de Rui d'Espiney, falecido aos 74 anos no dia 27 de Abri, foi cremado sexta-feira, dia 29 de Abril no cemitério da Paz, em Setúbal. Partiu para a última morada entre palmas, cravos, lágrimas e o soar de "Grândola, Vila Morena".