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Marcelo: “Felizmente há dois caminhos. Unamo-nos no essencial”

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Marcos Borga

“Bem hajam, capitães de abril!”. Marcelo afagou a esquerda, deu espaço à direita - “felizmente há dois caminhos diferentes” - mas pediu “união no essencial". Lembrou que o seu mandato é maior que o do Governo. E deixou um aviso: “A memória do 25 de abril começa a ser descoroçoante para quem só se lembrar dos anos 90”

Marcelo quer consensos setoriais de regime e deixou um aviso aos partidos: “O mandato presidencial é mais longo e mais sufragado do que os mandatos partidários. E não depende de eleições intercalares”. Com ou sem crises políticas, o Presidente estará cá para exigir “bom senso”. O PR foi mesmo buscar o exemplo das famílias que se uniram para sair da crise para ilustrar o que espera dos políticos: “Sem negarmos a riqueza do confronto, unamo-nos no essencial”.

Depois de abraçar a esquerda com um “Bem hajam!” aos capitães de abril que este ano voltaram ao Parlamento, o Presidente da República deu espaço à direita - “felizmente neste momento há dois caminhos bem diferenciados quanto à governação” -, mas avisou que é preciso "trocar as emoções pelo bom senso" e deixar de “viver em campanha eleitoral”.

Se “temos um amplo acordo de objetivos nacionais e dois distintos modelos de governação. Quer isto dizer que vamos continuar em campanha eleitoral? Que os consensos setoriais são impossíveis? Ou que a unidade essencial entre os portugueses é posta em causa pelos projetos políticos diferentes?”, eis as questões deixadas pelo Chefe de Estado no seu primeiro discurso num 25 de abril. A sua resposta é “Não”. “O estimulante pluralismo político não impede consensos setoriais de regime”. Fica o recado para o PSD e Passos Coelho.

Sobre a memória do 25 de abril, Marcelo Rebelo de Sousa foi pragmático: “o saldo é claramente positivo, para quem tiver a memória dos anos 70. Mas pode começar a ser preocupantemente descoroçoante para quem só se lembrar dos anos 90 e da viragem do século”. É “míope” negar “as desilusões”, avisou o Presidente. “Sem negar o que todos devemos ao 25 de abril de 74”, Marcelo pôs o dedo na ferida “da debilidade do crescimento, da insuficiência do emprego, do aumento das desigualdades, da persistência significativa da pobreza”.

Marcos Borga

A Europa também mereceu reparos. Marcelo falou da necessidade de “lutar por uma Europa menos confidencial, menos passiva, mais solidária, mais atenta às pessoas, e sobretudo que não pareça aprovar nos factos o oposto do que apregoa nos ideais”. O discurso do Presidente da República foi de exigência: “O Portugal da coesão social deve ser muito mais corajoso, não só a recuperar a classe média, mas também a combater a pobreza que nos deve envergonhar” (indireta a um Governo focado na Função Pública?).

Como pano de fundo do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, uma aula de história sobre a revolução de abril que abriu horizontes para quatro desafios, descolonização, democratização, integração europeia e construção de uma nova economia. A segunda parte da história foi sobre “os custos de vária ordem” que aqueles quatro desafios “enfrentados em tão concentrado espaço de tempo, com crises externas e fraquezas internas”, provocaram. E foi apostado em olhar de frente as “desilusões” e os défices democráticos, económicos e sociais, que o Presidente Marcelo viveu o seu primeiro 25 de abril no cargo.

Aos partidos deixou um encargo: “mais instabilidade não abre caminhos, fecha horizontes”. Marcelo não larga a tecla anticrises políticas e pelos consensos, desafia a direita a alinhar, e lembra que, com eleições antecipadas ou sem elas, ele estará cá. Disposto a puxar por um país mais exigente “na educação, na cultura, na língua, na CPLP, na Europa, na coesão social e territorial”. Um país “mais corajoso”. Que, na sua opinião, precisa como de pão para a boca de consensos setoriais (saúde, segurança social e justiça foram áreas referidas no discurso), “possivelmente com passos lentos mas profícuos”.

Ao lado de Marcelo na tribuna, Ferro Rodrigues fez várias vezes sinais de assentimento ao discurso presidencial. PSD, PS e CDS aplaudiram o Presidente de pé. No BE e PCP, uns aplaudiram outros não.