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Política

MRPP ‘regressa’ à clandestinidade

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O PCTP/MRPP abriu uma campanha de combate pelas 35 horas, mas continua um partido fechado

Alberto Frias

Partido de Arnaldo Matos em blackout. I Congresso Extraordinário começa na sexta, mas não se sabe onde

A fachada de vidro da sede regional do PCTP/MRPP, em Lisboa, onde funciona a redação do “Luta Popular”, o jornal online e órgão central do partido, pouco mais deixa ver do que os posters com propaganda veiculada ao longo de mais de 40 anos. Tudo o resto é opaco.

Esta semana, tocámos por duas vezes à campainha do número 200 da Av. do Brasil para pedir informações sobre o partido e o I Congresso Extraordinário do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses, acontecimento histórico na sequência do afastamento de Garcia Pereira, que terá lugar dias 29, 30 de abril e 1 de maio. “Não estou autorizado a dizer”, respondeu Álvaro de Abreu quando quisemos saber onde decorrerá o congresso e quais as moções ou temas que serão discutidos.

O membro da redação do “Luta Popular”, não só se negou a prestar informações sobre o partido, mesmo as mais básicas — “Não sou obrigado a dizer quantos militantes temos!” —, como impediu uma camarada de o fazer. “Vou sair e tu estás proibida de dar qualquer informação. Não dizes nada, ouviste?”, exigiu-lhe de dedo em riste.

O único esclarecimento dado é que todas as questões deviam ser enviadas por e-mail para o endereço do “Luta Popular”. Para azar nosso, o primeiro e-mail enviado, depois de telefonemas e SMS sem resposta realizados logo no início da semana, e de duas visitas às instalações da sede nacional, na Rua da Palma, onde não estava ninguém, tinha seguido para o endereço principal do PCTP/MRPP. “Temos uma pessoa todos os dias na Rua da Palma, ele deve ter ido tomar café”, disse-nos Álvaro de Abreu, depois de confrontado com as respostas dos vizinhos da sede nacional, que nos garantiram: “Há muito tempo que está fechada e só lá vai um senhor de tempos a tempos buscar correio”.

Reencaminhadas as questões sobre a atividade do partido e o pedido de entrevista a Arnaldo Matos, que desde outubro assumiu a liderança do partido, de forma encapotada mas consentida, ficámos à espera das respostas. Até ontem não tinham chegado.

Fundador e líder histórico do PCTP/MRPP, Arnaldo Matos, 76 anos, advogado madeirense, que ficou conhecido em 1975 como o “grande educador da classe operária”, esteve afastado do partido mais de três décadas, embora sempre umbilicalmente ligado ao afilhado Garcia Pereira, o advogado que tem sido o rosto do partido e quem conseguiu os melhores resultados eleitorais.

Curiosamente, foram precisamente os resultados das últimas legislativas que serviram de mote para o afastamento de Garcia Pereira, desencadeado por uma carta publicada no “Luta Popular”, no dia seguinte às eleições e assinada por “Espártaco”, que sabemos tratar-se do próprio Arnaldo Matos, que também assina textos como “Viriato”. O uso de pseudónimos e nomes de código é aliás uma prática desde os tempos da clandestinidade. O PCTP/MRPP não alcançou o objetivo mais ambicioso, eleger um deputado, e perdeu cerca de três mil votos face às eleições de 2011 (62.683 votos), mas manteve uma subvenção à volta de 170 mil euros.

Na carta de “Espártaco” era exigida a purga dos dirigentes que falharam a missão, apesar de terem “as melhores condições objetivas de sempre para alcançar os seus objetivos políticos imediatos: uma situação política geral de profundo repúdio pela política de austeridade governativa, cerca de 800 mil euros em dinheiro, provenientes da lei de financiamento dos partidos, e um membro do comité permanente do comité central com um programa de televisão semanal na ETV [Garcia Pereira]”.

Num tom imperativo, além da suspensão do secretário-geral (Luís Franco) e dos membros do comité permanente, a carta anunciava a formação de uma Comissão Política Especial (CPE), liderada por “Espártaco” e destinada a preparar um congresso extraordinário.

Lavagem de roupa suja online

Até final de outubro último, Arnaldo Matos nem sequer era militante do partido como se pode ler no ‘Jornal de Parede’, publicado no “Luta Popular”.

Com a suspensão dos membros do comité central e o partido cada vez mais divido entre os apoiantes de Arnaldo Matos e os de Garcia Pereira, segue-se uma troca de acusações que alastrou às redes sociais, num tom e linguagem impublicáveis. Suspenso pelo partido, Garcia Pereira apresentou a demissão em meados de novembro.

O advogado manteve-se sempre em silêncio — esta semana voltámos a tentar contactá-lo, em vão —, mas a sua mulher (Sandra Vinagre) e filha (Rita Pereira) não conseguiram calar a revolta contra os ataques que lhe são feitos e saem em sua defesa, escrevendo cartas abertas que circulam no Facebook. Depois de ver o pai comparado a Belmiro de Azevedo, Rita Pereira contra-ataca, em tom irónico: “Queres falar dos almocinhos no Gambrinus, Arnaldo? Grande educador, Arnaldo. Grande protetor da classe operária”.

Nesta lavagem de roupa suja surge a ex-secretária de Arnaldo Matos, Sandra Raimundo, acusada no “Luta Popular” de “insultar pessoalmente o partido e alguns dos seus militantes nas chamadas redes sociais”. Na troca de galhardetes, Sandra escreve um direito de resposta, publicado no blogue ‘Insurgente’, onde identifica “Espártaco” como um pseudónimo de Arnaldo Matos.

Apesar de ninguém atender os telefones ou responder aos pedidos de contacto, o partido parece continuar a funcionar, já que ontem recebemos pela primeira vez, por e-mail, o último editorial do “Luta Popular”, escrito por Arnaldo Matos, cujo título é “As Forças Armadas ao Serviço do Imperialismo”, onde o líder histórico escreve “as Forças Armadas, de portuguesas só têm o nome. As FA ditas portuguesas são hoje um grupo de mercenários, lacaios do imperialismo americano, francês e alemão”.

Mas um dos textos que mais eco tiveram na comunicação social foi o editorial publicado depois da anunciada formação do Governo.“Política de esquerda esta? Isto não é política de esquerda. Isto é tudo um putedo!”. Noutro texto, Arnaldo Matos afirma que os atentados de Paris foram “um ato legítimo de guerra” e que foram cometidos por “combatentes dos povos explorados e oprimidos pelo imperialismo, nomeadamente francês”.

Sobre o I Congresso Extraordinário que deverá começar na sexta-feira, a única coisa que se sabe além da data, é que servirá para eleger comités, que irão formar a estrutura superior do Partido, dirigida diretamente pelo comité central saído do Congresso Extraordinário.