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BE finta PCP e desvia Chalana para negociações com o PS

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ILUSTRAÇÃO DE JOEL FARIA / TEDxOporto

José António Pinto, assistente social no Porto e militante comunista (foi candidato nas últimas legislativas), integra o grupo de trabalho de bloquistas e socialistas que vai avaliar medidas contra a pobreza. A primeira reunião será esta quinta-feira, às 17h30, no Parlamento

A sugestão partiu de Catarina Martins, a líder do Bloco, que é do Porto: convidar José António Pinto, assistente social na junta de freguesia da Campanhã e com trabalho de mérito no Bairro do Lagarteiro (um dos mais problemáticos da cidade), para fazer parte da equipa negocial de Bloco e PS que vai estudar as pensões não contributivas e a estrutura da proteção social, assim como avaliar as medidas de combate à pobreza.

Catarina “conhece bem o trabalho dele” em Campanhã, no qual alia “a experiência no terreno ao conhecimento académico”, conta ao Expresso fonte do BE. Licenciado em Serviço Social, Pinto é mestre em Sociologia. O seu labor no Bairro do Lagarteiro foi distinguido, em 2012, com a medalha de ouro comemorativa do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, atribuída pela Assembleia da República.

Na ocasião, o laureado surpreendeu a plateia quando disse que deixava o galardão em Lisboa em troca de outro modelo de desenvolvimento económico para Portugal “Não quero medalhas, quero que os cidadãos deste país protestem livremente e de forma digna dentro desta casa e quando reivindicam os seus direitos por uma vida melhor não sejam expulsos pela polícia destas galerias”, disse José António Pinto, para de seguida receber fortes aplausos.

Há dois anos, ao falar na TEDxOporto (ciclo de conferências anuais, com a presença de especialistas nacionais e estrangeiros, que promovem a partilha de conceitos e experiências para motivar intervenções na comunidade local), José António Pinto fez uma intervenção que é em si um programa de combate à pobreza e às injustiças sociais (ver, em baixo, texto “As causas do rebelde competente”).

Triângulo informal?

Comummente conhecido como Chalana (o nome do antigo futebolista do Benfica é uma designação que o próprio acarinha e promove), Pinto é um destacado militante comunista do Porto. Foi várias vezes candidato a deputado pelo distrito, em lugares não elegíveis. Nas últimas legislativas, de outubro passado, foi o 21º da lista.

É por isso, com alguma surpresa — sobretudo porque tendo o PCP optado por uma negociação direta com o PS (fora de qualquer instância de diálogo entre socialistas e bloquistas) — que se observa agora a presença de um reconhecido militante comunista num grupo de trabalho entre o PS e o Bloco.

Num conjunto de questões colocadas (desde as suas motivações para aceitar o convite às expectativas sobre a tarefa que tem pela frente), o Expresso perguntou a José António Pinto para esclarecer se antes de aceitar o convite discutiu o assunto dentro do seu partido.

“Depois de ler as perguntas, penso que neste momento não é oportuno e relevante pronunciar-me publicamente sobre a minha participação [no] grupo de trabalho”, respondeu, com o mesmo jogo de cintura com que Chalana desarmava os defesas adversários. E num tom humorado, o que pontua muitas das suas intervenções e faz lembrar as inimitáveis fintas curtas do “pequeno genial” do Benfica dos anos 80, Pinto explicou ao jornalista: “Como sabe, não sou assim tão importante para merecer destaque” no Expresso.

O PCP em nada ajuda a aclarar as coisas: “O relacionamento do PCP com o PS e o Governo é feito no plano institucional e político por contactos do PCP e, como é óbvio, não é tratado em contactos mais ou menos estruturados por parte do BE, que o responsabilizam apenas a si próprio”, respondeu ao Expresso o gabinete de imprensa dos comunistas.

O grupo de trabalho em que José António Pinto irá participar como especialista convidado (e que visa criar entendimentos entre os dois partidos para dar corpo a medidas a inscrever no Orçamento do Estado do próximo ano) terá a primeira reunião nesta quinta-feira. É presidido pela secretária de Estado da Segurança Social, Cláudia Joaquim. Pelo lado do PS estarão presentes os deputados Sónia Fertuzinhos e Luís Soares, enquanto o BE se faz representar pelos dirigentes Ricardo Moreira e Mariana Aiveca, também ex-deputada. O outro especialista convidado, pelo Executivo, é o economista Vítor Junqueira.

  • As causas do rebelde competente

    Foi dirigente estudantil, desenvolve projetos em zonas de exclusão, é palhaço em contexto hospitalar. Um pequeno retrato de José António Pinto, “Chalana para os amigos”, um homem de 50 anos que apela à sublevação dos mais pobres

  • A geração atraiçoada

    Fosso geracional. Dados inéditos mostram que o rendimento dos jovens está a cair há 20 anos em relação aos mais velhos. A desigualdade nunca foi tão grande. E pode piorar: a pobreza ameaça a velhice da geração milénio

  • Lar, inexistente lar

    O sociólogo Matthew Desmond, professor em Harvard, viveu durante dois anos num bairro pobre e num parque de caravanas de Milwaukee, presenciando diariamente despejos de famílias inteiras