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As causas do rebelde competente

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INCISIVO. José António Pinto, na TEDxOporto de 2014: um discurso sem papas na língua

FOTO TIAGO PEREIRA / TEDXOPORTO

Foi dirigente estudantil, desenvolve projetos em zonas de exclusão, é palhaço em contexto hospitalar. Um pequeno retrato de José António Pinto, “Chalana para os amigos”, um homem de 50 anos que apela à sublevação dos mais pobres

No pequeno texto biográfico de suporte à sua apresentação da TEDxOPorto de 2014, de José António Pinto se dizia que “não usa relógio nem telemóvel, mas toca guitarra clássica”.

No combate à pobreza, Chalana toca vários instrumentos e em diferentes palcos. Fá-lo ao vivo (no terreno, com as famílias pobres do bairro do Lagarteiro) e em estúdio (como aconteceu no cinema Batalha, no Porto, em 2014, na TEDxOporto desse ano).

“Torna-te rebelde competente” foi o tema da sua intervenção (expressão tomada de empréstimo do sociólogo Boaventura Sousa Santos).

Pinto quer ser a voz dos que “sofrem silenciosamente, que não têm sindicatos, partidos, movimentos, fundações”, e que “não constituem nenhum grupo de pressão”.

São os que “morrem devagarinho”, as “pessoas em perda”, que “gradualmente” veem fugir-lhes “a saúde, o emprego, os laços familiares; perderam até os próprios documentos pessoais. Estão quase a perder a dignidade”.

Quanto faz um relato assim mais cru, Pinto provoca de imediato a plateia, como o fez no Batalha. “E vocês dizem-me: eh pá, Chalana, porque é que vens p'ra aqui com isso hoje, isto até estava a correr tão bem, a ser tão divertido...”.

É apenas o manancial de recursos do orador, antes de voltar a bater na tecla séria: “Cada vez temos mais pessoas caídas no chão: mais prostitutas, mais toxicodependentes, mais álcool, mais reclusos, mais sem abrigo”.

A quem explica tais percursos de vida pela “responsabilidade individual”, Pinto replica: “É uma responsabilidade de todos.” E aos que invocam o senso comum para lidar com as desigualdades sociais e económicas, contrapõe: “Temos de trazer para a luta contra a pobreza a ciência, não o senso comum”. Dito de outra forma: usar as armas da “consistência teórica, sensibilidade social e militância no combate à pobreza”.

Cartilha na mesa

José António, disse-o na TEDxOPorto de 2014, tem “uma ideia, um projeto e um sonho”.
A “ideia” é “desmascarar, denunciar e dar visibilidade ao sofrimento” de pessoas como as do Bairro do Lagarteiro (por vezes, “para fazerem uma refeição de carne, vão ao talho quando o balcão está a ser limpo à mangueira e trazem os aparos, que é aquilo que se dá aos cães”).

O “projeto” é criar uma “relação de afetos” com essas pessoas. De seguida, “capacitá-las, apetrechá-las, potenciá-las e depois disso fazer o que é mais importante: consciencializá-las, informá-las, esclarecê-las e politizá-las”.

O “sonho” de José António Pinto “é construir uma sociedade sem explorados nem exploradores, uma sociedade sem classes, mais fraterna, mais justa e mais solidária”. Chegado aqui, mais uma vez imagina a voz do céticos: “E vocês dizem-me: eh pá, Chalana, palavras tão lindas, mas tão impossíveis, isso é uma tanga; isso é utópico, é só discurso”

Esta quinta-feira, quando passam a ser do conhecimento público o Plano Nacional de Reformas e o Programa de estabilidade, e poucos dias depois de mais um relatório da Comissão Europeia ter advertido o Governo por algumas medidas sociais já adotadas, José António Pinto participará na primeira reunião do grupo de trabalho que, entre outras coisas, irá avaliar medidas de combate à pobreza.

E se alguém lhe disser...

— Eh, pá, Chalana, lá vens tu com esse discurso!

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    José António Pinto, assistente social no Porto e militante comunista (foi candidato nas últimas legislativas), integra o grupo de trabalho de bloquistas e socialistas que vai avaliar medidas contra a pobreza. A primeira reunião será esta quinta-feira, às 17h30, no Parlamento