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Presidente marca território e promete abrandar

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tiago miranda

Marcelo Rebelo de Sousa entrou a matar, aliviou o ambiente e somou popularidade. Depois da intervenção no Parlamento Europeu virá uma pausa?

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Marcelo Rebelo de Sousa está a ser aconselhado por alguns dos seus mais próximos a acautelar a exposição (excessiva?) que marcou a sua entrada em cena em Belém, mas não é certo que o país assista a um novo registo presidencial, pelo menos no curto prazo. O Presidente da República invadiu o palco político desde que tomou posse (foi há um mês mas teve uma agenda de tal forma avassaladora que pareceu um semestre). E o seu estilo pessoal não explica tudo — preocupado com o país, Marcelo quis mesmo marcar o território e entendeu que ou o fazia nos primeiros dois meses ou perdia a oportunidade.

“Se se tivesse fechado em Belém a ver se o Governo metia água, o Presidente não cumpria o que prometeu — ajudar a distender a vida política portuguesa”, concorda fonte próxima. Com um alerta adicional: “O país saiu de uma crise, atravessa um momento muito especial, com uma fórmula de Governo nova que pôs os investidores internacionais na retranca, e era urgente normalizar tudo isto.” Na semana passada, foi pela voz de um socialista que chegou o reconhecimento máximo: Francisco Assis escreveu no “Público” um artigo muito elogioso para o novo Presidente da República, que disse ter encontrado “o tom certo” e ter sabido “ocupar o centro do país”.

Ocupar o centro foi um dos segredos que Marcelo arrastou da campanha eleitoral para Belém. O Presidente sabe que os tempos são complexos, que a estabilidade política do Executivo tem as debilidades de uma maioria relativa, e que nada o livra de ter de intervir na gestão de uma crise antes do fim da legislatura. Quanto mais fortalecida estiver a sua imagem, mais fácil será impor a sua autoridade. E a forma como Marcelo Rebelo de Sousa tratou de marcar o território não será avessa a nada disto. “Um Governo menos forte exige um Presidente mais forte”, conclui fonte próxima.

Infografia Carlos Esteves

José Miguel Júdice, velho confidente de Marcelo, acha que ele fez o que tinha que fazer: “Consolidou a sua autoridade junto da opinião pública e isso era essencial. Se um dia tiver que dizer ‘uh!’ (subir a voz/pregar um susto) a Costa, Passos ou a Jerónimo de Sousa, ele sabe que tem o respaldo da maioria dos portugueses. E isso é fundamental para quem tem uma missão estratégica.” Marcelo tem a sua: puxar pelo país, cá dentro e lá fora. E serenar a desconfiança, sobretudo dos investidores, num Governo apoiado por comunistas e bloquistas é uma das razões para o discurso que o Presidente fez na semana passada no Parlamento Europeu.

Depois de deixar uma palavra de reconhecimento ao anterior Executivo por ter garantido a saída limpa do resgate, Marcelo destacou que embora tenha “um caminho diverso”, o atual Governo “é também europeísta, respeitador dos compromissos internacionalmente assumidos, apoiado no Parlamento não só por uma das duas principais famílias políticas europeias, mas também por partidos de outra relevante família europeia, que até agora tinham estado fora do poder executivo em Portugal”. Só a direita radical não bateu palmas a Marcelo. O Presidente deixou em Estrasburgo a garantia de que Portugal continuará fiel aos compromissos europeus. Cá dentro, tem partilhado uma certeza: a de que Costa fará o que for preciso e o défice será cumprido.

Pelo sim pelo não — e embora ouça os que o avisam para o desgaste de uma exposição excessiva — Marcelo Rebelo de Sousa vai fazer uma nova ronda de audiências com todos os partidos para acautelar que o Programa de Estabilidade com novos compromissos orçamentais e económicos chega a Bruxelas sem dramas. Se sentir que as coisas correm bem, então sim, a partir de maio, junho, Marcelo admite acalmar um pouco.

Com a popularidade em alta, o Presidente passou o primeiro mês no centro do palco. E surgiram os primeiros sinais de incómodo alheio. Ascenso Simões, deputado do PS próximo de António Costa, criticou o convite “estranho” a Mario Draghi para o Conselho de Estado e antecipou perigos para o Governo caso o Presidente da República inove “nos circuitos de decisão”. Voltemos a Júdice: “Marcelo quer que tudo corra bem. Mas isso não significa ser bonzinho.”

Parada militar regressa ao Terreiro do Paço

Depois de 40 anos, a grande parada militar que acompanha o 10 de Junho vai regressar ao Terreiro do Paço, tal como era efetuada antes do 25 de Abril. “A decisão não foi ainda tomada formalmente pela Presidência da República, mas é muito provável que assim aconteça”, afirmou fonte oficial de Belém. Antes da Revolução dos Cravos e de 1963, dois anos depois do início da guerra em Angola, a realização de uma grande cerimónia militar no Terreiro do Paço era considerada uma jornada de “exaltação patriótica”, em que eram homenageados militares e seus familiares, numa correlação direta com a guerra do Ultramar. Era o ponto alto das comemorações do “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”, como recorda o militar na reserva Miguel Machado no seu site ‘Operacional’”, em que as unidades e militares que se tinham distinguido e os familiares dos que tinham morrido recebiam as distinções. Depois do 25 de Abril e em virtude da identificação do 10 de junho com a guerra em África, foi cancelada a cerimónia militar e as comemorações do 10 de Junho “desmilitarizadas”. O Dia das Forças Armadas passou depois a ser celebrado a 24 de junho, mas só com a chegada de Cavaco Silva à presidência são reintroduzidas no Dia de Portugal as cerimónias militares com a tradicional parada.

Ficha técnica
Estudo de opinião efetuado pela Eurosondagem S.A. para o Expresso e SIC, de 7 a 13 de ABRIL de 2016. Entrevistas telefónicas, realizadas por entrevistadores selecionados e supervisionados. O universo é a população com 18 anos ou mais, residente em Portugal Continental e habitando lares com telefone da rede fixa. A amostra foi estratificada por região: Norte (20,5%) — A.M. do Porto (14,4%); Centro (28,3%) — A.M. de Lisboa (27%) e Sul (9,8%), num total de 1026 entrevistas validadas. Foram efetuadas 1237 tentativas de entrevistas e, destas, 211 (17,1%) não aceitaram colaborar neste estudo. A escolha do lar foi aleatória nas listas telefónicas e o entrevistado, em cada agregado familiar, o elemento que fez anos há menos tempo, e desta forma resultou, em termos de sexo: feminino — 50,3%; masculino — 32,2% e no que concerne à faixa etária dos 18 aos 30 anos — 17,5%; dos 31 aos 59 — 52,4%; com 60 anos ou mais — 30,9%. O erro máximo da amostra é de 3,06%, para um grau de probabilidade de 95%. Um exemplar deste estudo de opinião está depositado na Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

Atualização de artigo publicado na edição do EXPRESSO de 16 abril 2016