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Uma semana a dar tiros nos pés

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STEPHANIE LECOCQ / REUTERS

Depois da polémica com Soares, Costa vê a Defesa a pegar fogo e a Educação sem pulso. Uma semana para esquecer

Se a “geringonça” parecia ser o maior risco à estabilidade do Governo, a última semana provou que o perigo não está no apoio de fora mas dentro da própria casa. Depois de ter perdido um ministro (o da Cultura), António Costa viu um secretário de Estado bater com a porta, em rota de colisão com o ministro da Educação, e o ministro da Defesa sob fogo cruzado dos generais, indignados com a “ingerência” no Exército. Foi a semana horribilis de Costa, que se manteve quase em silêncio (só uma frase) sobre uma sucessão de casos sem precedentes num Governo com apenas quatro meses de vida.

Ministro quis demissões no Colégio Militar

Vamos por partes. No caso da Defesa, que levou à demissão do chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) na semana passada, o ministro Azeredo Lopes pretendeu mesmo que o general demitisse o subdiretor do Colégio Militar (CM), na sequência de declarações sobre alegada discriminação sexual de alunos, e, ao que sabe o Expresso, fez chegar essa pretensão por canais não oficiais ao general Carlos Jerónimo. Este não gostou, considerando tal pretensão uma ingerência inadmissível na sua esfera de competências, e acabou por entregar em Belém o seu pedido de demissão, formalmente por “razões pessoais”. Alguns dos seus camaradas consideraram “precipitada” a sua atitude e que teria sido preferível manter uma posição firme e ser demitido. Mas o general já por várias vezes confidenciara não se sentir talhado para o cargo e estar farto. Ironicamente, a direção do CM acabou por apresentar a sua demissão por solidariedade. Mas Carlos Jerónimo recusou.

Todo o processo gerou uma enorme contestação pública dos meios militares, ao ponto de se chegar a ouvir apelos a que nenhum general aceitasse ocupar o cargo de chefe do Exército. Uma verdadeira incitação à insubordinação, que, a verificar-se, constituiria um “pronunciamento militar”, tal como afirmou o militar na reforma Carlos Matos Gomes. O general Loureiro dos Santos, que também se demitiu do cargo de CEME por discordância do poder político, afirmou por sua vez ao Expresso que isso seria “pôr em causa o normal funcionamento das FA”. “Tudo se teria resolvido com um comportamento mais prudente e mais hábil”, disse.

O novo CEME, o general Rovisco Duarte, que ontem tomou posse, terá sem dúvida o problema do CM para resolver e, pelo menos, terá de encontrar uma saída airosa para uma situação que já assumiu contornos políticos. O ministro e a direção do CM vão nos próximos dias ao Parlamento dar explicações sobre o que aconteceu.

Fontes militares garantem que não há discriminação sexual no CM. Ao Expresso, um professor que não quis ser identificado disse ter conhecimento, nos últimos 20 anos, de “uns três casos” de alunos que deixaram a escola por serem gays. “Num caso, o aluno assumiu-se e foi de imediato posto de parte por todos os colegas, que já nem sequer o deixavam formar com eles nas formaturas feitas perante os graduados.”

Segundo o docente, as situações passam-se sobretudo ao nível do internato, onde os alunos partilham a mesma camarata e onde assumem o chamado “código dos três tabus”: não admitem colegas que roubam, que se drogam ou que sejam homossexuais. “São completamente postos à margem. Mal seria se a direção se apercebesse disso e não avisasse os pais”, disse.

PR tentou travar demissão

O Presidente da República tentou travar a demissão do chefe do Estado-Maior do Exército. Ao que o Expresso apurou, Marcelo Rebelo de Sousa pediu a Carlos Jerónimo para reconsiderar, convicto de que as razões por detrás da sua demissão seriam superáveis. Mas a notícia da demissão já era conhecida, e o próprio CEME entendeu ser tarde demais.

A leitura nos meios presidenciais do que conduziu a esta demissão é a de que, sendo a situação no Exército “complexa, com um clima de insatisfação latente”, qualquer gota de água pode ter um efeito hiperbólico. Belém entende que houve uma reação exagerada das duas partes, ministro e chefe do Estado-Maior do Exército.

Parte da responsabilidade é atribuída ao ministro da Defesa, que, pela sua sensibilidade aos media (foi presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social), fontes oficiais consideram ter “hiperbolizado” as críticas feitas ao CM. Os artigos de opinião que criticavam as alegadas discriminações a alunos “foram levados demasiado a sério pelo ministro”. O entendimento é de que o ministro sai “fragilizado” e marcado por um erro inicial: “Gerou um clima negativo junto da instituição militar.”

Secretário de Estado pediu para mudar de tutela

Na terça-feira, o secretário de Estado do Desporto anunciou a saída do Governo, em aberto confronto com o ministro da Educação. Na base da rutura entre João Wengorovius Meneses e Tiago Brandão Rodrigues estão nomeações para altos cargos no ministério. A tensão tinha começado logo no primeiro dia, quando Tiago Brandão Rodrigues pediu a Wengorovius que nomeasse como chefe de gabinete Nuno Félix, uma pessoa da sua confiança. A relação entre Wengorovius e Félix foi tensa. Por várias vezes, o ex-secretário de Estado viu-se confrontado à última hora com conferências de imprensa que não estava preparado para dar.

Há cerca de um mês, Wengorovius pediu a exoneração do seu chefe de gabinete, algo que nunca chegou a acontecer. Brandão Rodrigues solicitou depois a João Wengorovius que exonerasse outro elemento do seu gabinete que era da confiança política do então secretário de Estado. João Wengorovius Meneses recusou. O secretário de Estado, próximo de Costa, falou com o primeiro-ministro, pedindo-lhe que retirasse a Secretaria de Estado do Desporto e da Juventude da tutela do Ministério da Educação, algo que o primeiro-ministro nunca aceitou.

Esta quinta-feira, tomaram posse os novos governantes, o embaixador Castro Mendes como ministro da Cultura (sucedendo a João Soares), Miguel Honrado na Secretaria de Estado da Cultura e João Paulo Rebelo como secretário de Estado da Juventude e Desporto. Costa só falou sobre a sucessão de casos ontem para pôr uma pedra sobre o assunto. Mas as polémicas continuam. A promoção de Castro Mendes a embaixador foi considerada ilegal pelo Supremo Tribunal Administrativo. Já João Paulo Rebelo foi presidente da Movijovem quando esta encomendou obras às Pousadas da Juventude que foram postas em causa pelo Governo seguinte de Passos Coelho.