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José Eduardo Martins: “António Costa é um príncipe da política”

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antónio pedro ferreira

É o novo enfant terrible do PSD (“se enfant terrible é um moscardo que chateia, contem sempre comigo”). Foi ao congresso deixar avisos a Passos Coelho e admite ir ao próximo disputar a liderança

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

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Jornalista da secção Política

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Ausente desde o consulado de Manuela Ferreira Leite, José Eduardo Martins voltou ao ativo, convicto de que vai haver eleições antecipadas porque “o cimento das esquerdas é insustentável”, António Costa “é mais habilidoso” do que Pedro Passos Coelho e o PSD “tem que ter muito cuidado”. Admite candidatar-se a líder daqui a dois anos, mas não está a fazer nenhum circuito da carne assada: “Eu sou mais lampreia e papas de serrabulho.” Antes disso, não diz “não” a Lisboa — seria “um desafio muito estimulante”. Em entrevista ao Expresso, no escritório de advogados onde é colega de Marques Mendes, José Eduardo Martins descola de Passos: “Ele acha-se sempre um bocadinho mais autossuficiente do que na realidade é.”

O PSD saiu melhor ou pior deste congresso?
Saiu mais ou menos na mesma. Houve uma tentativa de responder à crítica de que o partido ainda está atordoado pelo resultado das eleições e a não cumprir o papel de líder da oposição. Tudo isso parece ter sido compreendido pelo líder. Espero que resista à ideia de que basta estar na oposição para que eles caiam.

Normalmente é assim, são os governos que perdem as eleições, não são as oposições que as ganham.
E com um certo farisaísmo, não é uma situação que se possa imaginar estar assim tão longe da verdade. Mas ao contrário de certas pessoas, eu não acho que o cimento desta coligação esteja para durar, acho até que é insustentável. Não pode haver grande cimento entre um partido que subscreve o tratado orçamental e quer viver dentro da UE com imposições centralistas e dois partidos que são antieuropeístas e têm uma posição de afronta que não está na cabeça do PS.

Mas António Costa pode ser diferente de Passos a gerir a relação com Bruxelas ou ter a sorte de apanhar um novo ciclo na UE.
Não vejo nenhuma diferença nos resultados. António Costa consegue é fazer política de uma forma mais habilidosa. Veja o que se está a passar com a banca: espantoso não é? Quando veio um diktat de Bruxelas a dizer que a solução para o Banif era aquela, Costa achou bem entregar uma peça do sistema bancário a uma instituição espanhola. Mas é o mesmo Costa que depois lidera a luta contra a suposta espanholização da banca! E nós? Estivemos dois dias em congresso depois do Governo apresentar o Plano Nacional de Reformas, que é uma peça ridícula e sem conteúdo, e não aproveitámos para dizer que o rei nem sequer saiu à rua.

De facto, ninguém falou do Plano Nacional de Reformas. Nem o senhor.
Mas repare, enquanto alguns oradores chegaram a falar 20 minutos, eu ao fim de seis anos fui a um congresso com outras coisas que me pareciam mais importantes, e antes de acabar de dizer o que queria a mesa ofereceu-me música. Eu identifiquei cinco temas centrais que tratámos mal nos últimos cinco anos, e em que me parece que o PSD até fez uma espécie de ato de contrição, pelo menos a crer nos dois discursos de Passos Coelho, que os referiu de uma forma repetida: a segurança social, a carga fiscal, a coesão territorial... Temos de ver em que é que se concretizam as proclamações que ali foram feitas.

O líder teimoso moveu-se?
Ouvi com atenção o discurso final de Passos e confesso que não percebo o que se vai seguir. O tema da carga fiscal deve ser central ao PSD, mas o que fizemos nestes últimos anos não correspondeu a um guião de reformas estruturais. Não houve nem liberalismo nem social-democracia, mas uma espécie de libertacionismo negacionista em que tudo o que era público era mau. E aí falhámos à cultura política do PSD, que, é bom lembrar, é a cultura desta Constituição. A Constituição, desde 1989, é tanto do PSD como da esquerda: tem uma lógica de contrato social e não confrontacional como a que Passos lhe imprimiu.

Gostava de ter visto o partido agarrar a reforma do Estado como bandeira?
Quando ouvi o líder dizer que é muito injusto que 16% dos portugueses paguem 84% da receita fiscal, e que isso prova que a função redistributiva está avariada, não consegui perceber por onde é que a vamos remendar. Não percebi se a solução do PSD é aplicar uma taxa para os (entre muitas aspas) mais ricos, no acesso às prestações sociais. Seguramente, no futuro a escassez terá de ser gerida com justiça, e quem pode mais terá de pagar mais. Mas não é expectável, com a carga fiscal brutal que as pessoas pagam, que se desista de pensar que pode haver mais eficiência no Estado. Pareceu-me ver uma certa desistência em relação a isso.

Passos terá tempo e ambiente para concretizar um programa reformista?
Então não? Tem dois anos, liberto do quotididano do Governo, da canga da troika, do endividamento, da falta de autoestima. São dois anos para refletir e, agora, com a experiência governativa, produzir um conjunto de ideias estruturado.

O que é que significa a sua presença neste congresso?
Ultimamente andamos a precisar muito da semiótica para perceber a política, não é?

Pergunto isto porque não foi ao último, nem ao penúltimo, mas foi a este. E proclamou a alegria do regresso.
Sim. É tudo verdade. Fiz parte da direção de Manuela Ferreira Leite, mas quando a direção de Pedro Passos entrou em funções antecipei o que já sabia, porque já trabalhámos juntos, e percebi que não iria ter prazer em continuar a participar do quotidiano do PSD. Não pode ser dito com mais franqueza. Por isso decidi afastar-me.

E agora regressa porque acha que ele dura pouco?
Regresso porque se cumpriu uma legislatura e porque não deixei de ter opinião. Neste seis anos só recebi cartas do PSD para pagar quotas, nunca ninguém me pediu uma opinião para coisa rigorosamente nenhuma.

Nunca falou com Passos nestes anos?
Encontrámo-nos uma vez, no casamento da filha de Marques Mendes. E outra vez num restaurante. Conversámos, simpaticamente, de circunstâncias. Sobre política não trocámos uma única opinião. Nunca ninguém da direção do PSD quis ter comigo uma conversa sobre o que quer que seja. O PSD tratou-me como se eu não existisse. Mas para mim o PSD continua a existir e faz parte da minha vida. Se Passos durar mais 20 anos eu não vou ficar 20 anos à espera de dizer o que penso. Não me importa se estou acompanhado ou sozinho.

E está acompanhado ou sozinho? Não esperava mais eco em Espinho?
Vocês sabem muito bem que alguém que diz que vai divergir é hiperbolizado. Eu fiz exatamente o que tinha pensado fazer e no tom que tinha pensado fazer.

Este congresso criou expectativa à volta de uma nova geração, que o inclui a si, ao Pedro Duarte, a Paulo Rangel. Há algo de novo na forja?
Eu sou muito amigo do Pedro Duarte, falamos, e nesta caminhada para o congresso jantámos algumas vezes. Com o Paulo Rangel não conversei de todo. Aliás, percebi-o mais empenhado em criticar-me a mim do que à liderança.

Se calhar há pessoas que temem os seus avanços no partido.
Ah, mas eu não quero ser temido. Quero ser amado [gargalhadas].

Devemos olhar para si como candidato à liderança do PSD no próximo congresso?
Só lhe posso dar uma resposta sincera: não sei. É evidente que já pensei nisso. E ainda não terminei de refletir. Daqui a dois anos avaliarei. Uma coisa lhe digo: não vou andar 10 ou 20 anos a dizer que amanhã penso. Porque também é isso que faz com que haja uma nova geração que quer tomar posição.

Quer dizer que o futuro pós-Passos está para breve?
O futuro é cada vez mais rápido. E o PSD está numa circunstância em que tem de ter muito cuidado. O presidente do PSD foi ao fim do congresso do CDS, a presidente do CDS veio ao fim do nosso congresso. Estamos cheios de sorrisos como aquelas pessoas para quem o divórcio é uma alegria partilhada...

O CDS é um risco para o PSD?
Claro que é.

Mesmo sem Portas?
Mesmo sem Portas. Estamos perante uma mudança de paradigma como nunca houve no arranjo político português. O PS pode habituar-se a conviver para sempre com o BE, pode tornar-se um partido como o Labour de Corbyn.

Mas está aí uma oportunidade para o PSD.
Uma enorme oportunidade. Mas se nós fizermos da nossa agenda uma confusão com a do CDS e se a ideologia não conta nada... Eu achei um erro neste congresso continuarmos a falar para os 40% que votaram em nós, 40% não chegam para governar este país. Passos devia deixar de pensar nos eleitores da PàF para pensar num país maior.

Acha impensável Passos aguentar-se quatro anos na oposição?
Impensável e Passos são coisas difíceis de conjugar.

Ele está obrigado a ganhar as autárquicas?
Se estivermos na oposição, claro que está.

E pode ser por “poucochinho”?
O que é “poucochinho”?

Pergunte a António Costa.
[gargalhadas] Definir o objetivo (como Passos Coelho fez) de ganhar a Associação Nacional de Municípios, isto é, ter mais uma câmara, é um bom objetivo. Tem dois problemas grandes: o facto de o PS querer uma coligação de esquerda em Lisboa e de, no Porto, o CDS já ter saído a grande velocidade para os braços de outro.

Se ganhar a maioria das câmaras mas perder Lisboa e Porto, Passos pode cantar vitória?
Isso agrava o problema da implantação do PSD nos grandes centros. Mas acho que, apesar de tudo, estando na oposição, o objetivo da maioria das câmaras é razoável.

Então Passos pode chegar às legislativas.
Você está a imaginar uma coisa que eu não consigo: é que a legislatura dura quatro anos. Mas imaginemos que ainda não houve legislativas no próximo congresso. Nessa altura, haverá ou não disputa da liderança, consoante o PSD sentir que está em boas ou más condições de disputar as legislativas.

Passos Coelho diz que não tem pressa.
Mas essa pressa pode não depender dele.

Se a esquerda faltar a Costa, Passos deve dar-lhe a mão?
Passos tem dito que não. E eu acho isso bem. Se houver um retificativo a este Orçamento é evidente que ou há um voto da esquerda ou vamos para eleições. E o PSD, na minha opinião, tem de estar preparado para que elas possam surgir a qualquer momento.

Não estará o PSD a fazer com Passos o que Costa fez a Seguro?
No PS estas coisas são mais orgânicas, no PSD mais espontâneas. Achou que nós tínhamos um plano?

Achei que há um “estado de alerta”.
No congresso o que me disseram foi: “Ainda bem que falaste, porque ele estava a precisar de ouvir.” Não há uma oposição orgânica, há um sentimento de que temos de ter mais força, alegria e densidade.

Isso é possível com este líder?
Acabámos de o eleger com 95% dos votos. Ele tem de procurar os melhores.

Os melhores estão na direção que saiu do congresso?
Não especialmente.

Achou bem Passos levar Maria Luís Albuquerque para vice-presidente?
Eu não teria feito essa escolha e acho que o partido em geral pensa como eu. Estão a vê-la a ser uma deputada combativa? Eu não tenho sequer dado por ela. Como não tenho visto nenhuma destas pessoas na primeira linha do combate político. O Jorge Moreira da Silva tem-se apagado, o Marco António Costa trata mais das coisas internas, Maria Luís tem estado sentada na última fila. O PSD até tem conseguido ter dois ou três protagonistas (da nova geração) na bancada, mas Passos, pelos vistos, acha que não precisa deles na primeira linha do partido.

Passos sempre foi de proteger os amigos?
A lealdade é uma característica do Pedro e é uma qualidade. Às vezes há é formas diferentes de ajudarmos os amigos. Quando somos presidentes de um partido temos responsabilidades maiores do que nós.

antonio pedro ferreira

Maria Luís ter aceite o lugar para a Arrow fragiliza o PSD?
Claro que sim. Ainda vamos discutir muito o Banif, ela vai estar sob ataque do PS. Toda a gente me diz que ela só aceitou o convite depois de o presidente do partido a ter incentivado. Nesta medida, acho bem que ele a tenha convidado para vice-presidente, porque também é um bocadinho responsável pela situação em que ela se colocou.

Se estivesse no lugar dela não teria ido para a Arrow?
Não, não teria. Eu já trabalhei enquanto advogado em recuperação de crédito. Aquele comunicado da Arrow é um bocadinho desagradável, faz até referência ao currículo político da técnica que contratou.

A lei das incompatibilidades deve ser apertada ou há um risco de funcionalização do Parlamento?
Depende da maneira como se faz. Eu não gostaria de um Parlamento em que toda a gente estivesse em exclusividade, mas também compreendo que às vezes o que parece é e não deve sequer parecer.

No seu caso, sentiu-se bem a acumular a função de deputado com a profissão de advogado?
Eu desafio todos — e a última vez que alguém o tentou fazer no Parlamento resultou mal para mim porque eu fui mal educado com outro deputado — a identificar um único assunto em que eu tenha tido intervenção na Assembleia sobre assuntos tratados aqui no escritório. Deixe-me dar um exemplo de como é que essas coisas se evitam. Uma vez, Marques Mendes telefonou-me a pedir para representar o partido na discussão da nova lei do tabaco. Nós tínhamos recebido no escritório na véspera um pedido de uma importante companhia de tabaco para dar um parecer fiscal e, embora não fosse eu que ia tratar do assunto, disse aos meus colegas que não poderíamos aceitar porque não seria liso que eu fosse um deputado envolvido com essa matéria na Assembleia ao mesmo tempo que o escritório dava pareceres a essa empresa. E nunca essa empresa foi nossa cliente até hoje.

Mas acha que se isso for deixado ao critério de cada um será esse o padrão?
Eu gostava de acreditar que nós elegemos pessoas com probidade suficiente para saberem avaliar o que devem ou não devem fazer. Mas não sou ingénuo. Sou mais hobbesiano do que rousseauniano.

Os políticos deviam ganhar mais?
Acho que deviam. A minha vida não tem nada de especial mas o tempo em que estive em exclusividade no Governo foi quando tive mais dificuldades em pagar as minhas dívidas. Agora, também não acho que seja por aumentarmos os vencimentos dos políticos que combatemos o problema da corrupção.

José Pedro Aguiar Branco lançou-lhe um desafio: ser candidato à Câmara de Lisboa. O que achou?
Achei que o Zé Pedro às vezes parece que ainda tem 20 anos. Se fosse um desafio bem intencionado tínhamos conversado antes. Mas não precisa de ficar sem resposta.

Faz sentido para si uma candidatura a Lisboa?
O que faz sentido é que os órgãos do partido escolham o melhor. E sobre isso até ouviram um ótimo conselho de Santana Lopes: mantenham a calma. Mas se esse é um desafio absolutamente estimulante, claro que sim.

Então, não diz que não?
Não. Mas nunca me ofereci para candidato a coisa nenhuma. A única coisa que decidirei sozinho é se um dia me passar pela cabeça ser presidente do PSD. Para Lisboa, há a convicção de que Jorge Moreira da Silva está muito motivado para essa candidatura.

Carlos Barbosa também.
Com todo o respeito, numa altura em que se perspetiva que a esquerda se coligue e o CDS avance com a sua líder, o PSD não deve avançar com um independente. Voltando a Santana Lopes, se ele estiver disponível a questão fica arrumada, porque o PSD tem muito pouca gente com a sua capacidade de mobilização.

Mas a esquerda é maioritária em Lisboa, e se se unir para apoiar Medina...
Por isso é que é um desafio altamente estimulante. Porque há um presidente de câmara com um Governo a seu favor, porque o anterior presidente é o atual primeiro-ministro, porque o BE já deu por duas vezes com os burros na água e tentará esconder-se na candidatura do PS, porque o PCP, mesmo que tenha um candidato autónomo, não deixa de convergir para a maioria de esquerda no dia a seguir. De facto, o PSD, sozinho, nunca ganhou à maioria de esquerda.

E no Porto o PSD também tem que ter um candidato próprio?
Claro.

Não quer desafiar Aguiar Branco a avançar?
Ele já anunciou que é candidato à Assembleia Municipal de Guimarães.

Já disse que vê na colagem do PS à esquerda uma oportunidade para o PSD crescer ao centro. E o novo Presidente da República é uma oportunidade ou um problema para o PSD?
É uma grande oportunidade. Este PR, a sua popularidade e a maneira como até agora tem intervindo, corresponde em absoluto àquilo que é a cultura do PSD.

Mas Marcelo tem dado cobertura ao Governo e até ao acordo das esquerdas...
Isso é o que o PS gosta muito de fazer crer e é o que o PSD, às vezes por azelhice, também ajuda a construir como imagem. Na soma do oportunismo do PS e da azelhice do PSD está Marcelo Rebelo de Sousa, que não é nem uma coisa nem outra. Devíamos estar contentes por ele ter sido eleito com esta limpeza, o que só lhe dá força para tomar decisões quando as tiver que tomar. E naquelas duas ou três coisas em que nós estivermos em divergência com ele, devemos compreendê-lo. Veja este caso da banca...

Achou bem António Costa receber Isabel dos Santos para decidir a estrutura acionista do BCP, ou ficou arrepiado?
Não, não fiquei tão arrepiado quanto o líder do meu partido. Porque este é um país descapitalizado, em que as instituições de crédito não são indiferentes à estratégia que queremos ter no futuro, e porque não estamos a lidar, do outro lado, com uma abstração liberal que são os mercados, ou com capital cego que muda de pátria. Nada disso. Do outro lado houve um diktat político do centralismo europeu, que quer concentrar os recursos bancários deste lado da península em Espanha, ponto final parágrafo. Então, num país descapitalizado, a situação da banca como um financiador essencial à economia é matéria que deve parecer indiferente a um político social-democrata? Não me parece.

É mais uma vez Passos a ceder ao centralismo europeu?
Convenhamos que, além do mais, não há grande moral para questionar a origem do capital angolano, para quem fez grande parte da receita para enfrentar a bancarrota à custa de vendas a empresas públicas chinesas. Às vezes há razões de Estado que nos levam, e eu falei disso no Congresso, a querer vencer na economia do conhecimento, mas nós também precisamos desesperadamente de capital que não temos. Nessa medida, a reorganização do sector estratégico da banca não nos pode ser indiferente.

O Governo anterior não fez o que tinha a fazer na banca?
O que começa a tornar-se evidente é que nós confiámos demasiado no mercado para acreditarmos que tínhamos uma banca sólida e desaproveitámos o dinheiro da troika para o fazer. O resultado é que o primeiro banco que disse que não precisava da troika está hoje na posição que se conhece, ainda o estamos a tentar vender.

Passos tem legitimidade para escolher como bandeira “Social democracia, sempre”?
Passos Coelho, às vezes, é quase libertário, no sentido económico. Os tempos são diferentes desde que há 40 anos Sá Carneiro nos quis pôr na Internacional Socialista. Hoje, nós somos membros, parece que com alegria, de uma coisa chamada PPE, de partidos conservadores e democratas cristãos.

Acha mal, o PSD estar no PPE?
Acho. A única razão foi para pertencermos a um grande partido da direita. No fundo, nós quisemos replicar nas famílias europeias aquilo que não existe no paradigma da política portuguesa, que é um grande bloco de esquerda, socialista e social-democrata e um grande bloco de direita conservador e social cristão. O PSD tem matrizes de três elementos essenciais, social-cristão, liberal e social-democrata. Mas, nos últimos anos, com o liberalismo que quer queiramos quer não é a matriz da globalização como ela hoje existe, perdemos na social democracia.

Que bandeiras sociais-democratas vos restam? Passos lançou a reforma da Segurança Social. Quais são as suas linhas vermelhas?
Na Segurança Social, penso que obviamente temos que ter um sistema misto e temos que ter a coragem de fazer uma proposta com sustentabilidade a longo prazo e sem beliscar o seguro social que já temos firmado para os que existem agora.

E na Saúde, o Governo de Passos preservou ou ameaçou o SNS?
Há uma coisa a que não vamos escapar no futuro, que é a escassez. E a escassez obriga-nos a reafirmar o compromisso do combate às desigualdades e a distribuir melhor. Por exemplo, na Saúde há uma coisa em que eu não percebo como é que deixámos o PS voltar atrás, que é o horário das 40 para as 35 horas. A grande diferença é no horário dos enfermeiros e dos médicos e aquilo que o PSD tentou fazer era uma maneira bastante social-democrata (tivemos muitas, embora mal explicadas) de garantir o SNS mais eficaz.

Mas, afinal, em que é que de substancial difere de Passos?
Nós não fizemos nenhuma reforma estrutural para libertar recursos mal gastos para aplicar nesses sectores estruturais. Falta a reforma do Estado e falta libertar recursos para baixar os impostos à classe média, porque é isso que verdadeiramente nos torna mais produtivos. Falta ser consequente com muitas das coisas que dissemos, e falta fazer escolhas e saber explicá-las e mantê-las. Eu ouvi coisas naquele discurso final de Passos Coelho no congresso, tentei perceber aquela ideia de que a circunstância de termos menos Estado libertaria as pessoas para outra atividade económica e que isso criaria riqueza. Mas agora temos é que começar a chutar à baliza e dizer como é que isso se faz.

Passos defende o princípio da livre escolha para quase todas as políticas sociais. Temos condições para isso?
Isso acontece em muitos países sociais-democratas mas em que os impostos têm uma rede pública suficiente para que essa livre escolha assegure qualidade a todos. Estamos muito longe de ser esse o caso português.

No seu caso, quando vai ao médico, prefere o privado ou público?
Depende, se eu tiver pressa de tratar uma coisa simples vou ao privado, se tiver que tratar uma coisa complicada vou ao público e isso dá uma tranquilidade muito grande. Por exemplo, o meu último filho nasceu num hospital particular, com ótimas instalações, e foi ótimo porque sabíamos que se surgisse alguma complicação o Hospital de Santa Maria estava perto.

Os seus filhos estudam no privado ou no público?
A mais velha numa pública, os dois mais novos no privado. Mas têm todos vontade de ir para a escola pública a partir do 6º ano e normalmente faço-lhes a vontade. Temos ainda ótimas escolas públicas e algumas não tiveram obras da Parque Escolar.

Concorda com Paulo Rangel, que propôs o fim do tratamento por doutor e engenheiro?
[Ri-se] Mas isso é uma proposta? Precisamos de legislar sobre isso?

E as chamadas causas fraturantes, mobilizam-no?
Eu sou completamente liberal nessas matéria. A favor dos direitos do homossexuais, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, da coadoção por pessoas do mesmo sexo... Por amor de Deus, estamos no século XXI, eu não quero saber a que igreja vão, não quero saber em que cama dormem.

É pela eutanásia?
Sou, assinei o manifesto e sou a favor.

Tem-lhe corrido bem a experiência de empresário de festivais de música?
Pago os impostos. Se corre bem? Nós podemos ter muitas medidas para o sucesso. Na minha vida profissional central felizmente não tenho de que me queixar, vai servindo para pagar a hipoteca e as contas ao fim do mês. A música é uma paixão partilhada por amigos, todos duma terra pequena onde surgiu uma coisa extraordinária [Paredes de Coura]. Eu adoro aquilo, dá-me imenso prazer.

Mas se adora ser advogado, adora organizar festivais, adora ser comentador, para que é que precisa de voltar à política?
Mas não se pode fazer isso tudo? Para um tipo pessimista, com hipertiroidismo, eu diria que me superei muito. Porque eu de facto gosto mesmo da minha vida.

Mas tem saudades da política?
Tenho.

O poder é irresistível, não é?
Não é o poder, é o prazer de sentir que alguma coisa mudou porque nós ajudámos a mudar. A minha passagem pelo poder foi frustrante e hoje sinto que tenho outra maturidade.

antónio pedro ferreira

Sente que tem coisas a dar ao país?
Dizer isso é um bocadinho imodesto. Mas eu sou um bocadinho imodesto.

Já disse que António Costa é mais habilidoso do que Passos Coelho. Mas será só habilidade? O Luís Montez, que é seu concorrente nos festivais, quando Costa chegou à liderança do PS disse que se estava ao nível da Champions. Subscreve?
O Luis Montez já não ia a Paredes de Coura há uma data de anos e até apareceu lá em plena campanha eleitoral para apoiar o António Costa. Presumo que isto é uma convicção mesmo muito funda. No meu caso, eu acho que o António é assim um príncipe da política, mas não é um príncipe da estratégia, nem uma pessoa que tenha uma visão do Portugal que devemos ser daqui a 10 anos. É um político da velha guarda.

Dá-se bem com ele?
Com o António? Sim. Gosto de conversar com ele. Acho-o uma pessoa cativante e interessante. Viveu uma série de anos perto da mercearia do meu pai, somos todos dali do Bairro Alto, sou amigo do irmão dele há muitos anos, foi com muito gosto que o recebemos em Paredes de Coura e acho que ele se divertiu.

E quer contar-nos porque é que um dia se zangou com o PPC, de quem era amigo?
É muito simples. Eu acho que o Pedro não procedeu comigo de forma diferente do que terá procedido com outros. Vou-lhe dar um exemplo. O Miguel Poiares Maduro deixou a Universidade em Florença para vir trabalhar com o Pedro. Quando ele chegou, toda a gente pensou que ia fazer parte de um núcleo de decisão e de reflexão coletiva, partilhada, lealmente construída e por aí fora. Este verão, estive com ele num casamento e eu disse-lhe: já trabalhei com o PPC e, como o Miguel há de perceber, a experiência é irrepetível.

Porquê?
Porque quando se tem da política, como eu tenho, um sentimento de construção em conjunto, dificilmente se faz parte com alegria das equipas do PPC. Ele acha-se sempre um bocadinho mais autossuficiente do que na realidade é. E o que aconteceu comigo foi que eu achava que fazia parte de uma equipa, mas não fazia parte de equipa nenhuma e decidi que não estava disponível. Eu tenho da política a visão de um exercício muito mais coletivo do que ele.

Se Passos não durar a legislatura, acha Rui Rio o nome mais forte para a corrida à sucessão?
Se me estivesse a fazer a pergunta há um ano eu dizia que sim. Um ano depois, acho que Rui Rio está perigosamente a desperdiçar muito do capital de esperança que chegou a significar para o universo social-democrata. A permanente hesitação não o tem beneficiado. Já são muitos anos de esperança adiada. Não se pode manter a esperança para sempre.

E Maria Luís Albuquerque é uma possível candidata à liderança?
Não!

Porquê?
Porque não acho que tenha características, nem força, nem abrangência para liderar o PSD.

E Nuno Morais Sarmento? Deu uma entrevista em que não se põe de fora da corrida.
Isso é a entrevista que o Nuno dá sempre antes dos congressos do PSD. Quando eu tinha 15 anos achava que iria ajudar o Nuno a ser primeiro-ministro. Hoje, com 46, já não tenho essa esperança.

Quando diz que Marcelo fez história por ganhar eleições sem aparelhos partidários, acha mesmo possível chegar a líder de um partido sem aparelho?
Acho. O aparelho no PSD ainda tem várias camadas. Quando me sento em Castelo Branco com os autarcas, a falar com homens bons ou a comer lampreia, aquilo é o aparelho do PSD.

Mas tem andado em contactos com as estruturas do partido?
Não ando por aí a fazer nenhum circuito da carne assada.

É mais da lampreia...
Eu sou mais lampreia e papas de sarrabulho. Já estou uma boca mais afinada.

Ouvindo-o, parece que o seu sonho era chegar a líder como Marcelo chegou a Belém, contra tudo e contra todos. Mas Marcelo levava 20 anos de televisão.
Eu sei, nem acho que haja alguém na minha geração que se possa comparar. Mas acredito que a atitude de querer também tem em si algum valor e nestes seis anos, em que só recebi cartinhas do PSD a pedir para pagar os 12 euros das quotas, não deixei de encontrar imensos militantes que no dia a dia se reveem na atitude de desprendimento como aquela (desculpem o elogio em boca própria) que eu tenho procurado praticar. Se um dia entender que me devo candidatar à liderança, não é por saber que vou perder que deixarei de avançar.

Qual é então o seu papel no PSD: candidato a barão ou enfant terrible?
Candidato a barão não sou de certeza. Se um enfant terrible é um moscardo que chateia contem sempre comigo.