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Guterres foi ele próprio e correu-lhe bem

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UN Photo/Manuel Elias/ Lusa

A paridade homem-mulher e a prevenção de crises como uma prioridade foram os destaques na presença de António Guterres, esta terça-feira, no diálogo informal com os candidatos a secretário-geral da ONU. No primeiro passo de uma longa caminhada, o antigo primeiro-ministro português discursou e respondeu ao longo de duas horas às questões dos embaixadores

Esta terça-feira, o candidato a secretário-geral das Nações Unidas deu o primeiro passo numa caminhada considerada muito difícil e nada garantida para o cargo que ainda é ocupado por Ban Ki-moon. O português discursou por dez minutos e em três línguas (inglês, francês e espanhol) e responde ao longo de quase duas horas às perguntas dos embaixadores. António Guterres foi ele próprio e correu-lhe bem.

A questão da paridade de géneros foi provavelmente uma das que mais vezes foi referida. Sabe-se que no atual processo de seleção do secretário-geral, ser mulher é considerado uma condição indicativa que, além de mais, recolhe o apoio de movimentos da sociedade civil. Portanto, Guterres comprometeu-se com um calendário e com a colocação de mais mulheres nos altos cargos da organização, lembrando que no início dos anos 1990, enquanto líder do PS, introduziu uma quota de 30% para as mulheres.

“As Nações Unidas deveriam estar na frente. E, vamos ser honestos, não foi sempre assim ”, defendeu o candidato a secretário-geral da ONU, sublinhado que se deve promover o empoderamento de mulheres e meninas, deixando de ser vista meramente como alvo de proteção.

“O mundo gasta muito mais energia e recursos em gerir crises do que em preveni-las”, salientou António Guterres, defendendo que é necessário o compromisso com uma cultura de prevenção, em que esta é “a prioridade”.

“Se há algo em que a comunidade internacional está a falhar, é na prevenção e resolução de conflitos, e na proteção da segurança global contra terrorismo. É por isso que eu acredito que precisamos de um impulso na diplomacia para a paz”, disse.

Relativamente ao terrorismo, Guterres sublinhou que é necessário “garantir, em primeiro lugar, que estamos a lutar com todas as nossas armas”, e embora possa ser preciso recorrer à força a ONU “não pode esquecer” que o combate ao terrorismo também é “um confronto de valores”.

“Vivemos em tempos perigoso e precisamos combinar esforços para exercer a nossa responsabilidade para erradicar o terrorismo(…) Erradicar a intolerância a violência e radicalismos(…) Devemos ter orgulho na nossa diversidade, Um diversidade que apenas enriquece a força de expressão da humanidade”, afirmou.

Opção e não desespero

António Guterres defendeu mudanças a nível internacional para que as migrações se tornem numa “opção e não um ato de desespero”. O candidato disse ainda que a “globalização é assimétrica” pois “o dinheiro move-se livremente, mas há muitos obstáculos para as pessoas, o que cria desigualdades”.

“A globalização funcionou para os bens e serviços mas não para os seres humanos”, referiu.

A questão de como iria lidar com a atual crise dos refugiados surgiu entre as primeiras perguntas colocadas esta terça-feira no diálogo informal na ONU. “Temos de ter programas de recolocação muito melhores do que os atuais”, afirmou apoiando a necessidade de haver maior solidariedade entre os diferentes estados nesta matéria.

Lembranças de Portugal

Por algumas vezes recorreu à experiência na política portuguesa para responder às questões dos embaixadores: “Uma das coisas que fui acusado como primeiro-ministro do meu país foi de apostar demasiado no diálogo, algo que penso que seja uma qualidade como secretário geral da ONU”.

“Toda a minha vida geri crises, fui líder de um partido durante dez anos, não há nada pior em relação a gerir crises do que liderar um partido”, acrescentou mais adiante.

Em defesa da sua capacidade para obtenção de concertar posições, referiu ainda o papel que teve enquanto primeiro-ministro português, durante o período em que Portugal teve a presidência rotativa da União Europeia, para a aprovação do acordo que ficou conhecido como a “agenda de Lisboa”.

Os relatos de abusos sexuais entre os capacetes azuis

Têm sido relativamente frequentes as denúncias de pessoas que dizem ter sido abusadas ou violadas por funcionários das Nações Unidas. A situação dos capacetes azuis foi mais uma das questões colocadas a Guterres, que considerou a situação inaceitável.

“Temos de nos unir todos para garantir que não há mais impunidade nas violações e abusos sexuais”, disse. “Quaisquer atos desse género têm de ser severamente punidos – afetam o orgulho dos países envolvidos”.