Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Guterres e a ONU: Merkel pode ser a “bomba atómica”

  • 333

António Guterres, aqui ainda alto comissário para os refugiados

homas Mukoya / REUTERS

António Guterres tem esta terça-feira, às 20h (de Lisboa) a sua primeira audição nas Nações Unidas. É o primeiro passo numa caminhada considerada muito difícil e nada garantida para o cargo de secretário-geral da organização. Quatro mulheres podem tramar-lhe a vida

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Se a chanceler alemã decidir candidatar-se a secretária-geral das Nações Unidas será imbatível, uma verdadeira “bomba atómica” no dizer de uma fonte diplomática que acompanha o processo. E qualquer oportunidade de António Guterres de alcançar o cargo será reduzida a nada. O antigo primeiro-ministro tem hoje a sua primeira audição em Nova Iorque, no quadro do novo processo de seleção do próximo secretário-geral, mas fá-lo-á na pior condição possível: é homem e é europeu ocidental. (A audição pode ser seguida em direto através do endereço http://webtv.un.org)

A eventual candidatura de Angela Merkel tem circulado entre as chancelarias e na imprensa internacional. A chanceler é hoje a mais poderosa figura política na Europa, com uma autoridade acrescida em virtude da sua posição sobre os refugiados, o que a poderia tornar — caso quisesse — uma escolha quase óbvia, assim a Rússia e os Estados Unidos se pusessem de acordo nessa escolha, recorde-se.

Não é líquido que ela o queira. O facto de estar em perda de popularidade e da CDU ter sido derrotada em dois dos três Estados alemães que foram a votos em março não significa que Merkel desista. Aliás, quem a conhece diz que a sua posição é a contrária: não desistir, lutar sempre. As eleições gerais na Alemanha só terão lugar no outono de 2017.

Ela, bem como Helen Clark, ex-primeira-ministra neozelandesa e atual diretora do Programa de Desenvolvimento da ONU (PNUD) que na quarta-feira apresentou oficialmente a sua candidatura ao cargo, e ainda Irina Bukova, diretora-geral da UNESCO, figuram com as preferidas para dirigir a ONU, num inquérito realizado entre cerca de 700 pessoas a trabalhar com ou para as Nações Unidas.

Outra mulher, porém, pode vir a ter mais êxito: a ministra dos Negócios Estrangeiros da Argentina, Susana Malcorra, ex-chefe de gabinete do ainda secretário-geral Ban Ki-moon. A sua candidatura ainda não foi apresentada mas, ao que apurou ao Expresso, é praticamente dada como certa nos meios da ONU. Também se fala da Presidente do Chile, Michelle Bachelet, mas a probabilidade de renunciar ao cargo é reduzida.

No atual processo de seleção do secretário-geral, ser mulher é considerado uma condição indicativa que, além de mais, recolhe o apoio de movimentos da sociedade civil. Já a outra indicação, ser oriundo da Europa do de Leste, uma denominação herdada dos tempos da guerra fria, é vista mais como uma reivindicação dos Estados desta parte da Europa, que nunca tiveram um secretário-geral.

A Rússia, acentua uma fonte ligada à candidatura de Guterres, se bem que tenha manifestado o seu empenho em encontrar alguém desta zona geográfica, não disse que não vetaria se o eventual nomeado não fosse oriundo dessa região. Há dez anos, a China disse que vetaria se o secretário-geral não fosse asiático. Estes dois Estados, mais os EUA, a França e o Reino Unido são os chamados P5, aqueles que têm direito a veto e que, no fundo, acabam por fazer a escolha através de um processo que, desta vez, se tornou um pouco mais transparente.

É neste quadro e entre estes constrangimentos que Guterres vai tentar a sua oportunidade. A audição de terça-feira (que poderá ser vista em direto no site da ONU) supõe uma intervenção de 10 minutos e quase duas horas de resposta a perguntas. Tal como dizia uma fonte, “as audições não servirão para eleger um candidato, mas servirão pelo menos para excluir vários”. E, aqui, Guterres joga a sua habilidade.

O jornal “The Guardian” já o considerou como o candidato com mais alto perfil entre os oito já oficiais (quatro mulheres e quatro homens), que desempenhou o papel de “consciência do Ocidente” quando este falhou na crise dos refugiados. Depois de dez anos à frente da Agência dos Refugiados, é visto como alguém com ampla experiência tanto da máquina da ONU como em lidar com os Estados e um “orador apaixonado” — “talvez demasiado apaixonado para os P5, que podem não apreciar a sua independência de espírito”, escreveu o jornal.

Guterres sabe disso e que a sua candidatura “é contra a corrente do jogo”. Na terça-feira, entregou na ONU as linhas gerais do seu pensamento sobre a organização, um documento (“Desafios e Oportunidades para as NU”) que foge aos cânones habituais. No texto, aponta o seu compromisso em estabelecer um roteiro para se atingir a paridade nas nomeações dos quadros superiores e a sua visão de que, dada a complexidade e interligação dos problemas internacionais, só uma solução conjunta poderá ajudar a resolvê-los. A prevenção e, em particular, a diplomacia para a paz seriam fundamentais neste conceito.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde funciona uma comissão (chefiada pela secretária de Estado para os Assuntos Europeus) que trabalha diretamente com o candidato, traça-se a sua campanha. É uma campanha difícil, porque “a arte é não falar”, em que cada palavra tem de ser medida. O candidato já percorreu uma série de Estados e tem agendados outros tantos. E a convicção é que, no fim das contas, na velha discussão “entre um secretário e um general”, os P5 (e os EUA e a Rússia em particular) entendam que a situação no mundo é tão má e a ONU tem tantos problemas que o melhor seja encontrar alguém com capacidade de intervenção: Guterres.

As quatro rivais

Irina Bukova

A diretora-geral da UNESCO há sete anos é de origem búlgara e tem tido os favores do atual secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Mantém aparentemente boas relações com Moscovo (o que lhe pode facilitar a passagem) e com os Estados Unidos, mas não gozará de grande prestígio. Conseguiu afastar a outra potencial candidata búlgara, a comissária Kristalina Georgieva.

Helen Clark

Candidata oficial desde terça-feira, a ex-primeira-ministra neozelandesa e atual diretora-geral do Programa de Desenvolvimento da ONU (PNUD) é um nome forte se a escolha saltar da Europa de Leste para outra região. É a mulher mais poderosa da ONU, que conhece a máquina. Mas há quem critique a sua gestão do PNUD.

Angela Merkel

A chanceler alemã é o nome que todos temem, porque o seu prestígio e força política são inquestionáveis. Mulher europeia (e com vivência no Leste ainda por cima) seria imbatível. Mas é duvidoso que, apesar da sua baixa de popularidade e das derrotas da CDU, a chanceler abandone um cargo de efetiva liderança, em troca de outro de fraco poder executivo, submetida aos ditames de outras potências.

Susana Malcorra

A ministra dos Negócios Estrangeiros argentina é a grande incógnita. Os meios da ONU dão-na como virtual candidata, tanto mais que já foi chefe de gabinete de Ban Ki-moon, e cujo exercício de funções lhe permitiu ter um amplo conhecimento da máquina e das redes dos Estados. Tem feito uma verdadeira pré-campanha.