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“Não antevejo risco significativo de novo resgate”

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Luís Barra

Fernando Teixeira dos Santos, ex-ministro das Finanças, cinco anos depois do resgate

João Silvestre

João Silvestre

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Jornalista

Luís Barra

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Foi o grande protagonista do pedido de resgate português. Na tarde de dia 6 de abril de 2011, em declarações ao “Jornal de Negócios”, anunciava que Portugal devia avançar com um pedido de financiamento internacional. Apesar de pouco ortodoxo, foi o suficiente para desencadear um processo que levou à assinatura do programa com a troika no mês seguinte. Agora, no quinto aniversário da data, recorda esse dia histórico.

Naquele dia acordou e já tinha consciência de que iria ser um dia histórico?
Sim. Estava a acompanhar a situação há muito tempo e tinha consciência de que naquela dia seria necessário tomar decisões importantes.

Já tinha pensado na forma como o iria fazer?
Pensei que fosse diferente. Estava em contacto com o primeiro-ministro, alertando-o para a necessidade de tomar uma iniciativa. No início desse dia pensei que o convenceria, o que não aconteceu. Perante a gravidade da situação e a necessidade de ser tomada uma decisão, não podia obviamente ficar calado.

Na reunião do Conselho de Ministros dessa tarde sentiu que os seus colegas estavam consigo ou, pelo contrário, viam a sua atitude como uma traição?
Tenho alguma dificuldade em ler o que ia na alma dos meus colegas. Penso que, de uma forma geral, entenderam que o primeiro-ministro acabou por tomar a decisão que se impunha. Mas, com certeza, num ambiente pesado.

Já o primeiro-ministro não ficou muito satisfeito?
Não ficou e teve oportunidade de mo transmitir. Não foi um momento fácil. Mas tendo já há alguns dias insistido na necessidade de tomar uma posição, achei que era um momento em que concordaria comigo ou romperíamos por aí.

Quando percebeu que era inevitável um resgate?
Nos dias anteriores tinha havido um agravamento acentuado das condições de mercado. O país já não podia pensar que nos meses seguintes seria capaz de satisfazer as suas necessidades de financiamento. Por isso, teria de se socorrer de outras fontes de financiamento.

Em outubro do ano anterior, numa entrevista ao Expresso, falava num limiar de 7% para pedir um resgate. Estava já a avisar que poderia ser inevitável?
Atingir-se essa taxa era um sinal claro do agravamento das condições de financiamento. Curiosamente, isso aconteceu em fevereiro de 2011. Exatamente na altura em que estávamos a negociar o PEC 4.

O PEC 4 teria sido suficiente, com a ajuda do BCE, para evitar um resgate?
Sem dúvida que aliviaria a pressão sobre nós. O PEC 4 representava já um programa cautelar. Era esse o intuito. Daí a vontade do Banco Central Europeu (BCE) de intervir de forma mais ativa no mercado de dívida, daí o apoio político da Comissão e o apoio dos nossos parceiros. No dia 11 de março, o dia em que o PEC 4 foi publicamente anunciado, houve um comunicado conjunto inédito do presidente do BCE e do presidente da Comissão a apoiar a iniciativa portuguesa.

Olhando para trás que balanço faz do programa?
As coisas não correram como se esperava. Havia três grandes frentes de intervenção do programa: a orçamental, a financeira e a das políticas estruturais. Ficámos aquém em todas. O programa terminou há dois anos e ainda não saímos do défice excessivo. A dívida só no ano passado é que baixou pela primeira vez. Sobre o sistema financeiro, não vale a pena falar. E as reformas estruturais acabaram em maio de 2014. Quando terminou o programa e se começou a pensar nas eleições, todo o esforço reformista parou.

Acha que há o risco de Portugal ter de pedir um novo resgate a curto ou médio prazo?
Não antevejo um risco signi- ficativo. A situação está a ser gerida e sob controlo. Mas tenho a noção de que são eventos internacionais, fora e dentro da Europa, que podem de uma forma muito repentina mudar o sentimento dos mercados. Tirando essa hipótese mais extrema, não vejo razões para crer num cenário dessa natureza.