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“Ou temos Forças Armadas ou uma espécie de Erasmus para militares”

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António Pedro Ferreira

Azeredo Lopes reage à recente ameaça do Daesh e fala sobre os riscos nas missões internacionais. Visto de fora, o apoio ao Governo de partidos que são contra a NATO não é problema, garante ministro.

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

Luísa Meireles

Luísa Meireles

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Redatora Principal

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

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Fotojornalista

Como vê a recente ameaça do Daesh dirigida a Portugal?
O combate ao terrorismo implica que tenhamos de analisar com muito cuidado todas estas mensagens e valorizá-las tanto quanto elas mereçam efetivamente ser valorizadas. Mas mais do que uma ameaça dirigida a Portugal, à Hungria ou a outro país da Europa, estas mensagens têm como principal objetivo difundir o medo no interior nas nossas sociedades. E aí não podemos ceder. Não podemos deixar-nos invadir pelo medo e paralisar perante esta estratégia do Daesh. Portugal tem os meios adequados para prevenir e combater este tipo de ameaças, juntamente com os seus aliados e é isso que está a fazer.

O reforço da presença de contingentes militares no Mali e na República Centro-Africana aumentou o risco de ameaça terrorista a Portugal?
Como qualquer outro país europeu, Portugal pode ser um alvo para o Daesh. Admito que a relação com a nossa presença no Mali e na RCA possa parecer torturada, mas é facilmente explicável à luz do que é a defesa no século XXI, que se faz através de sistemas e redes de alianças de que Portugal é participante antigo, na NATO, na ONU e na União Europeia. Podemos ter uma atitude, que é fingir que não existimos e se ninguém falar de nós pode ser que a tempestade passe por cima. Ou podemos ter a atitude de não esperar que os outros acorram a proteger-nos se não dermos nada em contrapartida. É uma questão de dimensão de política externa. Esse argumento não era atendível pela circunstância de Portugal já ter participado com êxito no Líbano, Afeganistão, Kosovo. Só a brincar se podem comparar os riscos da RCA com o Afeganistão, agora é substancialmente inferior. Mas temos de perceber se queremos Forças Armadas ou uma espécie de Erasmus para militares. As FA nunca se arredaram de situações que pudessem envolver riscos e tiveram sempre um comportamento exemplar.

O que pesou na decisão de responder ao pedido francês?
Portugal já tinha tomado a decisão de responder positivamente ao pedido francês e o que este Governo teve de fazer foi torná-lo interessante do ponto de vista da participação das nossas FA e ao mesmo tempo valorizar a componente multilateral. Fazemo-lo no quadro da missão da ONU para a RCA (MINUSCA, onde já participam 12 mil soldados) com uma Força de Reação Rápida, deixando a França muito mais à vontade para diminuir a sua presença na RCA e consagrar mais esforços no combate ao Daesh na Síria. Portugal não está em condições de participar no combate da Síria.

A França pediu ajuda para o Mali e para a RCA. A Portugal não interessaria mais a presença no Mali, visto que se situa numa área do nosso interesse estratégico?
Não estamos a falar de um supermercado de missões. No Mali não era possível este tipo de missão com forças terrestres. Conseguimos realizar três objetivos: acolher plenamente o pedido francês; dar credibilidade ao Estado português na luta contra o terrorismo e na relação com a UE e ainda dar uma representação mais consistente ao Estado português na ONU. E ainda se pode invocar outra vantagem que não era antecipável, que é a candidatura de António Guterres a secretário-geral da ONU, que é valorizada com uma decisão desta natureza.

ana baião

Vai ser preciso comprar armamento ou algum tipo de proteção específica para estes militares?
Não. A missão já está orçamentada, foi devidamente previsto o custo, anda em torno dos €5,5 milhões para um ano.

Alguma vez foi questionado nas reuniões internacionais pelo facto de este Governo ser apoiado por partidos que são contra a NATO?
Não. Sobre este Governo tão perigoso para a segurança internacional, o secretário-geral da NATO destacou a circunstância de Portugal ser um país que tinha aumentado o orçamento para a Defesa. Lá fora as pessoas não avaliam intenções nem propósitos, mas comportamentos e o que interessa à NATO é que mantemos o Kosovo, o Afeganistão e o Iraque. Portugal não é um agregado de partidos e tem órgãos de soberania.

Na preferência pelas missões da ONU a posição dos parceiros do Governo também conta?
Não foi determinante na decisão. É uma preferência que significa acrescentar algo que faltava a uma política externa moderna.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 2 abril 2016