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O futuro da ONU depende da “capacidade de mudar e de se adaptar”

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ONU. António Guterres é candidato a secretário-geral

ESTELA SILVA/LUSA

Num documento em cinco páginas, o candidato português a secretário-geral da ONU, António Guterres, expõe as suas ideias sobre a organização: inclusão, reforma e promoção do género estão entre ideias principais

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

“Desafios e Oportunidades para as Nações Unidas”, assim se chama a “visão” de António Guterres para esta organização, contida num documento hoje divulgado no site da ONU.

Num texto em cinco páginas, o candidato a secretário-geral espraia as suas ideias-chave sobre a ONU, dividindo-as em diversos capítulos: Nós, os povos; desafios; ligando os pontos; a centralidade da prevenção; coordenação e parcerias; reforma e inovação e valores.

O ex-Alto Comissário cita ainda o ex-secretário-geral, Kofi Annan, a propósito dos valores, o que já é todo um posicionamento. Paz, justiça, dignidade humana, tolerância e solidariedade são os valores “que inspiram a Carta e nos unem”, escreve Guterres, destacando as palavras do ex-dirigente da ONU:

“Ter tais valores em comum não resolve todos os problemas nem eliminar as possibilidades de diferentes sociedades de os resolver de maneiras diferentes (…) A cada sociedade deve ser dado o espaço, não para distorcer ou minar os valores universais, mas para os expressar de forma a refletir as suas próprias tradições e cultura ".

O candidato com mais alto perfil

Será com base neste documento que o candidato fará no próximo dia 12 a sua primeira audição em Nova Iorque, nos termos do novo processo de seleção do secretário-geral que foi estabelecido.

Apesar de os candidatos terem sido convidados a apresentar a sua visão sobre a organização até dia 5, só Guterres e o candidato esloveno o fizeram, entre os sete já declarados. Ontem, apresentou-se mais uma candidata, a ex-primeira-ministra neozelandesa, Helen Clark.

António Guterres já foi citado como o candidato com o “perfil mais elevado” pelo jornal britânico “Guardian”, tendo em conta a sua ampla experiência e o facto de ser um “orador apaixonado”. À frente da ACNUR, escreveu o jornal, Guterres foi muitas vezes “a consciência do Ocidente” quando este falhou na crise dos refugiados.

Perceber as tendências

Para Guterres, perceber as grandes tendências é crucial, ao mesmo tempo que refere que, se a globalização propiciou crescimento económico e criou condições para a redução da pobreza, a sua natureza desequilibrada “levou à concentração de rendimentos e à extrema desigualdade, tonando a exclusão ainda mais intolerável”.

O ex-Alto Comissário para os Refugiados alerta também para a mudança da natureza dos conflitos e considera que a ONU é a única organização capaz de “juntar as pontas” para responder aos desafios e estreitar os laços entre paz e segurança, desafio sustentável e políticas de direitos humanos, numa visão abrangente.

“É globalmente reconhecido que não há paz sem desenvolvimento e que não há desenvolvimento sem paz; também é verdade que não há paz nem desenvolvimento sustentável sem respeito pelos direitos humanos”, escreve António Guterres.

“Prioridade absoluta aos mais vulneráveis”

O ex-primeiro-ministro aposta na “cultura da prevenção”, pelo que é necessário uma “diplomacia para a paz”, diz, destacando que a ONU deve garantir o primado das soluções políticas em todos os estádios e promover em especial uma plena participação das mulheres, que vê como “essencial” para o sucesso de qualquer processo de paz.

“Os mais vulneráveis, como as mulheres e as crianças, devem ser uma prioridade absoluta”, destaca: “Temos de garantir que quem veja a bandeira azul possa dizer 'estou protegido'”.

O princípio da prevenção é também crucial para combater o terrorismo, segundo Guterres, que defende que a força deve ser usada se necessário, mas sem esquecer que se trata também de uma batalha pelos valores.

“Dever moral de pôr fim ao terrorismo”

“A comunidade internacional tem o direito e o dever moral de agir coletivamente para por fim ao terrorismo “em todas as suas formas e manifestações”, afirma, considerando que deve haver uma mobilização contra a intolerância, o extremismo violento e a radicalização.

A promoção da inclusão, bem como da solidariedade e da coesão das sociedades multiétnicas, multiculturais e multirreligiosas é fundamental para esse objetivo e – diz - “o melhor antídoto para o racismo, a xenofobia, islamofobia e o antissemitismo”.

Quanto à reforma e inovação da ONU, Guterres considera que o futuro da organização depende da sua capacidade de mudar e de se adaptar, e que, neste âmbito, o secretário-geral deve focar-se nos resultados.

A reforma é uma atitude permanente, afirma o candidato a secretário-geral, segundo o qual este deve assumir um compromisso de transparência, prestação de contas e supervisão.

A promoção da igualdade de género e da diversidade regional é outro dos compromissos apontados por Guterres, que considera que o secretário-geral deve apresentar e implementar um “roteiro” para a paridade do género a todos os níveis, com objetivos e dentro de calendários determinados, e em primeiro lugar para os cargos mais elevados. Um compromisso deve ser assumido para se atingir um equilíbrio regional, defende.