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Passos: “Somos um partido que não tem pressa. Temos tempo”

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Rui Duarte Silva

Sem legislativas no horizonte, Pedro Passos Coelho encerrou o 36 Congresso do PSD a garantir que está preparado para liderar o partido na oposição. E a deixar um aviso claro a Costa: se quer compromissos tem de se aproximar

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

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Jornalista da secção Política

Foi um discurso virado para o futuro, como lhe reclamavam os (poucos) críticos internos. Mas com os pés assentes no que continua a acreditar que fez bem enquanto primeiro-ministro. Pedro Passos Coelho encerrou o congresso do PSD, em que foi entronizado líder pela quarta vez, a garantir que não tem pressa de voltar ao poder, que este é o tempo da maioria de esquerda garantir a estabilidade política de que o país precisa, e que está disponível para um entendimento com os demais partidos e parceiros sociais nas matérias que considera estratégicas para o país. Deixando claro que o PSD é "um partido de oposição" e que "não concordamos com este Governo e esta maioria", enviou um recado a António Costa e aos socialistas: "Não queiram falar em compromissos se não se aproximarem de nós".

“Somos um partido que não tem pressa, temos tempo”, disse o presidente do PSD, garantindo que até às próximas legislativas o PSD se vai “preparar continuamente” para oferecer uma alternativa política aos eleitores na hora dos votos. Tranquilizou os que querem um partido mais proactivo - como lhe pediu José Eduardo Martins, ontem: “Não deixaremos de apresentar as nossas propostas”. Sublinhando que o PSD está na oposição, esclareceu que “não estamos do contra por estar” mas recusou entendimentos se não houver um esforço de aproximação de quem fala em compromissos (leia-se, o Governo e o PS).

Compromissos que são urgentes, no seu entender (disse, repetindo o que já tinha anunciado no discurso de abertura, na sexta-feira) no sistema eleitoral e, sobretudo, na segurança social: “Era muito importante uma discussão séria, não populista, que removesse os argumentos de campanha eleitoral que não nos levam a lado nenhum”afirmou. Pediu mesmo: “Por favor não fiquem atrás dos slogans de campanha, aceitem fazer esta discussão, mostrem vontade genuína de pensar no futuro e não apenas nas próximas eleições”.

Reestruturar a dívida é pedir um segundo resgate

Elencando o que considera deverem ser as prioridades estratégicas do país, identificou “quatro problemas muito graves”.

O primeiro, “uma demografia em recessão”. “Uma sociedade que não consegue çrescer não pode ter dinamismo”. Impõe-se “uma política que responda ao problema demográfico, um país mais amigo das famílias e das crianças”.

O segundo, “um défice muito importante de competitividade”. Se muito Passos entende que já foi feito neste capítulo nos anos em que ele foi primeiro-ministro, ainda muito está por fazer: “Precisamos de uma segunda geração de reformas estruturais”, à cabeça das quais a famigerada reforma do Estado enquanto “forma de libertar o potencial de crescimento da economia portuguesa”.

O terceiro, o que lhe levou mais tempo na exposição, onde teceu fortes críticas ao atual Executivo: e por que recebeu mais aplausos da assistência: a sustentabilidade financeira. Os níveis de dívida pública e privada que continuam a ser muito elevados e que só se conseguem melhorar se se enfrentar o problema e não “com políticas de faz de conta”: “Faz de conta que não temos dívida, faz de conta que falta financiamento, faz de conta que este problema não existe”. “Não é assim que vamos lá”, proclamou o líder social-democrata que só vê um caminho: atrair mais investidores externos para o país, para que o pais cresça e ganhe alguma margem de poupança que lhe permite amortizar a divida a níveis superiores aos previstos.

A quem sugere a reestruturação técnica da dívida, Passos responde com um rotundo “não”. Lembra o que fez enquanto primeiro-ministro, a incompreensão de que foi muitas vezes alvo e de que nunca se queixou: “Eu sabia que no dia em que, como primeiro-ministro, dissesse que queríamos reestruturar a dívida caminharíamos imediatamente para um segundo resgaste”. Deixa um aviso claro ao seu sucessor: “Se o atual Governo deixar alimentar quaisquer dúvidas sobre isso não só não ganhamos nada como podemos perder muito dos sacrifícios dos últimos anos”. E de novo: “Se alguém pensa que com a conversa da reestruturação da dívida muda a Europa está muito enganado”.

Por fim, o quarto problema: as profundas desigualdades sociais que persistem no pais desde antes da crise mas que a crise dos últimos anos, reconhece, só agravou. Para o presidente do PSD “é preciso rever pedra por pedra a maneira como se faz a redistribuição do Estado” em setores como a Educação, a Saúde, os apoios sociais. Para Passos “a função redistributiva da nossa sociedade está avariada” e “começamos a atuar quando já é demasiado tarde, o que custa caro e perpetua as desigualdades”.