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PSD: Rio não vai ao congresso, José Eduardo Martins assume oposição

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Rui Rio (à esquerda) não vai a Espinho, defraudando quem esperava que fosse ele a capitanear as críticas a Passos, abrindo espaço a que José Eduardo Martins (à direita) fique sozinho em palco na hora da demarcação do líder — reeleito para mais dois anos com 95% de votos

Rui Duarte Silva

É cedo para confrontos. Mas já há movimentos para o pós-Passos

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

A ausência de Rui Rio e a intervenção crítica de José Eduardo Martins — ambas confirmadas pelo Expresso — ilustram bem o que se pode esperar do Congresso do PSD deste fim de semana. A hora dos confrontos não chegou — Pedro Passos Coelho foi reeleito em diretas por 95% dos militantes e os veteranos da corrida à sua sucessão não vão dar a cara —, mas o desgaste da sua liderança é voz corrente nos bastidores do partido e abre espaço para que outros comecem a marcar lugar na grelha de partida.

José Eduardo Martins, ex-deputado, ex-amigo de Passos e crítico assumido da sua liderança desde o início, tem faltado aos últimos congressos mas desta vez vai estar lá. Em declarações ao Expresso, o advogado e comentador televisivo que nos últimos anos se afastou de lugares no partido, diz que vai levar a Espinho uma intervenção crítica “q.b.”: “Mais do que proclamações ideológicas (uma indireta ao slogan do Congresso, “Social-democracia, sempre!”), as pessoas precisam de horizontes de esperança e isso eu não encontro hoje no PSD.” A Passos, deixa um aviso: “A partir deste congresso não lhe faltará apoio se quiser e conseguir mobilizar as pessoas. Mas se não o conseguir, daqui a dois anos há outro congresso.”

Atento ao que muitos pensam e poucos dizem — que é preciso o líder do partido reinventar-se, no tom, no discurso, na equipa e na agenda, se quiser evitar que António Costa se afirme irremediavelmente — José Eduardo Martins escreveu na semana passada na “Visão” um artigo onde resume o estado da arte: “A Páscoa é ressurreição. A de Marcelo entusiasma. A do PSD já tarda”. Ao congresso levará um discurso em que, consoante o tempo que lhe derem, dirá o que pensa dos últimos anos. E o que pensa não é um hino: “As ditas reformas liberais não se fizeram, não fomos nem liberais nem sociais-democratas, fomos casuísticos e apenas pagámos contas. Mas quem as pagou fomos nós”, disse ao Expresso.

Com a autoridade de quem aguentou a legislatura sem disparar sobre o governo, o ex-apoiante de Manuela Ferreira Leite vai a Espinho marcar terreno e demarcar-se da herança de Passos. “Nos últimos seis anos fui à minha vida, mas agora chegou a hora de dizer o que penso.” A ausência de Rui Rio — que prometia ser o chamariz no congresso, na qualidade de eterno candidato à liderança, que nos momentos-chave se demarcou do governo de Passos — acabará por abrir espaço para José Eduardo ser mais notado. Mas Rio fora e Martins no palco acabam por ser duas faces de uma mesma moeda.

Numa entrevista que deu à SIC quando António Costa chegou primeiro-ministro, Rui Rio elogiou politicamente o líder socialista. E o que disse de Passos? Que, a partir de agora, seria “mais difícil ele ganhar eleições (não sendo impossível)” e seria “mais difícil ele abrir uma janela de esperança ou trazer novidade”. No fundo, segundo o ex-presidente da câmara do Porto, a posição de Passos Coelho é mais ou menos esta: se o comboio (do Governo socialista) parar, ele entra; mas não será ele a ser capaz de parar o comboio, a menos que mude a postura e o discurso. Ou seja, é apenas uma questão de tempo e terá sido este compasso que levou Rui Rio a optar por não ir ao congresso. Se lá fosse, tudo o que dissesse ou não dissesse seria lido à lupa na busca de sinais de demarcação, críticas ou ameaças ao atual líder do PSD. E Rio sabe que é cedo para assumir confrontos. Para já, basta deixar que o congresso sem história se cumpra.

Pedro Duarte também defende “um ciclo novo”

Sem precisar de ganhar protagonismo no partido — onde esteve à beira de se assumir como candidato presidencial — o ex-autarca guarda-se para a eventualidade de as coisas descambarem antes do final da Legislatura (as autárquicas serão um teste importante). E o futuro dirá que eventuais encaixes serão possíveis com outras vozes que surjam já neste congresso. Outra que se aguarda com alguma expectativa é a de Pedro Duarte, antigo líder da JSD, ex-diretor da campanha presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Ao Expresso, Pedro Duarte lembra que não subscreve quaisquer moções nem pretende integrar quaisquer listas a órgãos partidários, mas reconhece que vai subir ao púlpito para uma intervenção onde defenderá que “o PSD tem de abrir um ciclo novo” . O social-democrata entende que é tempo de deitar o passado para trás das costas (esquecer “a lógica que temos de retomar um percurso que foi interrompido entretanto”) e “projetar o papel do PSD a cinco ou mesmo dez anos, a partir de hoje”.

Uma das matérias que Pedro Duarte gostaria de ver debatida a sério no partido — embora tenha dúvidas que o congresso seja o momento para isso — é o papel do Estado na defesa dos sectores estratégicos, questão que foi posta em cima da mesa no passado fim de semana, quando Passos Coelho surgiu a criticar a intervenção do primeiro-ministro na entrada de Isabel dos Santos no capital do BCP. Para o social-democrata “se queremos continuar a existir como país, em matérias em que a soberania está em causa, o Estado deve intervir”.

Artigo publicado na edição do Expresso de 25 de março