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Maria Luís quis mudar administração do Banif para agradar a Bruxelas

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José Caria

Luís Amado confirma que ex-ministra tentou uma alteração “que fosse de encontro” à vontade da Comissão Europeia. E conta que propôs afastar-se, para que Jorge Tomé subisse a chairman, ficando o seu número dois como CEO do banco

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Luís Amado, o último chairman do Banif, confirmou esta quarta-feira que a ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque tentou mudar a administração do banco para agradar Bruxelas. A questão foi levantada na comissão parlamentar de inquérito ao Banif pela deputada do BE Mariana Mortágua, com base em cartas trocadas entre o Ministério das Finanças e a Comissão Europeia em fevereiro e março de 2015. De acordo com essa correspondência, chegaram a ser contactadas pessoas para o lugar de Jorge Tomé, terá até havido uma personalidade que aceitou o convite, mas que recuou depois de não conseguir constituir equipa. Depois desse convite, outros terá havido, mas sem sucesso.

Amado confirmou aquilo que as cartas revelam. “Pôs-se a questão da substituição do dr. Jorge Tomé, de facto, tivemos conhecimento disso. Como contrapartida à não aprovação do plano de reestruturação atempadamente era preciso apresentar uma mudança de management que pudesse garantir o cumprimento do programa” que a Comissão Europeia queria impor ao Banif.

Mas Amado foi mais longe, ao contar um pormenor que as cartas não contam: “Para facilitar a solução”, propôs ao governador do Banco de Portugal e ao Ministério das Finanças que Jorge Tomé subisse para o lugar de chairman (com ele, Amado, a abdicar desse posto) e ficasse como presidente executivo o seu número dois.

Tudo se passou antes da assembleia-geral de maio, contou Amado, falando de “um dos momentos mais difíceis para garantir a estabilidade da instituição”.

Um processo que deixou marcas

“Toda essa ação, conduzida para fazer uma alteração na gestão do banco que fosse de encontro a uma vontade que tinha sido expressa pela Direção Geral de Concorrência [da Comissão Europeia] foi naturalmente muito desestabilizadora do ponto vista interno e das relações entre várias personalidades envolvidas”, reforçou Luís Amado, reconhecendo que as sequelas desse processo dificultaram ainda mais as relações entre as várias partes.

“Seguramente a intenção era garantir confiança nas negociações com a DGCom para aprovar o plano de reestruturação, mas esse processo não correu bem, e não correndo bem teve efeitos”, repetiu o ex-chairman, contando que esses efeitos só não foram maiores devido ao "sentido de responsabilidade de todas partes".