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Os homens da presidente

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Entre amigos da juventude e outros mais recentes, cumplicidades que a vida proporcionou e o tempo aprofundou, são dez os conselheiros e colaboradores próximos de Assunção Cristas. O Expresso apresenta-os e diz-lhe o que pensam da mulher que há oito anos aceitou o convite de Paulo Portas para se filiar no CDS-PP e que este fim de semana ‘corta a fita’ para um novo ciclo no partido

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Acaba as reuniões, curtas de preferência, antes do jantar, sempre que possível, e vai para casa. Faz questão de chegar ainda a horas de dar banho à filha mais nova (com 2 anos e meio). Assunção Cristas “nunca fez muito vida de partido”. Até agora. Como presidente do CDS, cargo que assume este fim de semana no congresso de Gondomar, parece quase impossível que o partido não lhe entre pela vida adentro. Tiago Machado Graça acha que não: “Vai ser possível conciliar.” Confia na capacidade de multitasking da mulher que começou a namorar aos 17 anos e com quem se casou aos 24 (já lá vão 18 anos), no seu indiscutível dom para a organização — “não gosta nada de desperdiçar tempo” —, qualidades apuradas a cada novo filho que nascia (e nasceram quatro).

Tiago é, bem vistas as coisas, o principal responsável por Assunção se ter candidatado à liderança do CDS-PP — apesar de ser militante do PSD desde os tempos da faculdade (“mas não pagar quotas há anos”). Se ele tivesse torcido o nariz à ideia, ela não teria avançado, garantem os amigos do casal. Ele sabe disso e assume-o: “Ela nunca avançaria se nós lá em casa [inclui os filhos mais velhos, com 14, 12 e 10 anos, que já têm uma palavra a dizer] lhe pedíssemos para não avançar. Mas eu nunca lhe diria que não. É uma coisa que a entusiasma tanto!”

Ela nunca o escondeu. Desde há muito que, interrogada sobre a hipótese de vir um dia a suceder a Paulo Portas, Assunção Cristas admitia que se o partido a quisesse ela estaria disponível. “Não é muito comum as pessoas responderem com esta sinceridade”, reconhece Teresa Anjinho, ex-deputada, amiga da agora líder centrista desde os finais dos anos 90, quando se cruzaram no curso de doutoramento da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Teresa garante que a resposta era sempre a mesma, em público ou em privado: “Ela é o que aparenta ser.” No CDS houve quem não apreciasse o desassombro com que ela admitia já o “pós-Portas”, quem achasse que ela se estava a pôr em bicos dos pés. Teresa aplaudiu-a desde a primeira hora: “Não devemos ter medo de dizer o que queremos, de ser ambiciosos.”

Volta a Portugal

Se à primeira vista estranhou, o partido acabou por entranhar a sua frontalidade. Até porque, assim que anunciou a candidatura à liderança, no dia 14 de janeiro, Assunção Cristas fez questão de se explicar pessoalmente: durante as semanas seguintes viajou pelo país, foi a todos os distritos e às ilhas, fez um total de 22 sessões públicas e contactou com 3000 militantes e simpatizantes. “Achei que ia ver as pessoas tristes por Portas sair. Não vi”, diz Tiago Graça, que a acompanhou em quase todas as deslocações — “as pessoas estão entusiasmadas com a mudança”. O diretor de campanha, Pedro Morais Soares, corrobora: “O partido recebeu-a muito bem.” Mesmo em locais onde o CDS é pouco expressivo a nível eleitoral, garante que nunca houve menos de 100 pessoas na sala, “o que já não se via há muito”. As sessões estavam organizadas para durar cerca de duas horas, mas depois, entre conversas pessoais, beijos e selfies, acabavam por demorar pelo menos mais uma.

Morais Soares, presidente da Junta de Freguesia de Cascais/Estoril, é um dos amigos forjados na convivência partidária, que a intensidade dos períodos de campanha eleitoral nas legislativas de 2011 e de 2015 só reforçou. Ao contrário de Assunção, começou a militar no CDS desde a “jota”. Podia sentir-se incomodado com o facto de uma “centrista nova”, com menos de uma década de quotas pagas, estar prestes a tornar-se presidente do partido, mas isso é algo que, garante, as estruturas não valorizam. Afinal, recorda, “Portas tinha ainda menos anos de filiação quando foi eleito líder do CDS pela primeira vez” (em 1998). “Eu sempre disse que ela deveria avançar, ela sempre disse que queria. E ela querer ser presidente é muito importante”, conta. O risco de “dizer logo ao que vem” acabou por compensar: “As pessoas gostam disso”, resume.

O gosto pela política sempre o teve, mas Assunção nunca pensara em filiar-se em nenhum partido até ao dia de 2007 em que Portas lhe telefonou e a desafiou a inscrever-se no CDS. Tinham passado uns meses sobre a primeira e única vez em que haviam conversado: nessa altura, o líder centrista ligara-lhe a dar-lhe os parabéns depois de a ver bater-se, convicta mas serenamente, pelo “Não” num aceso debate sobre a despenalização do aborto no programa “Prós e Contras”, da RTP — “achei-a ótima, logo no primeiro dia”, confessaria anos mais tarde. Entretanto, não tinham voltado a falar, e ela regressara à vida académica (era professora de Direito Civil na Universidade Nova).

Depois de “convencida” a preencher a ficha de inscrição, entrou nas lides partidárias com reservas que, vistas a esta distância, dão vontade de sorrir: “Ainda não conheço muito do CDS. Do que vejo, o partido é um meio muito competitivo. Mas é um mundo curioso. O que move as pessoas num partido, para mim, ainda é um mistério”, confessava à revista do Expresso em janeiro de 2008. Sobre a sua “carreira política” não se atrevia a fazer previsões: “Não sei. Há um ano disse que estava longe disso e que os partidos não me diziam muito. Mas o referendo [do aborto] mostrou-me como os partidos são incontornáveis. Não tenho aquela ideia de que nos partidos é tudo mau.” Dois anos depois já era vice-presidente do partido.

“Máquina de campanha”

Desde o início que se fez notada. João Rebelo recorda-se de a ver em todas, mas mesmo todas, as reuniões da Comissão Política Nacional (entrara diretamente para vogal daquele órgão partidário) e de nunca deixar passar uma ocasião para dizer de forma clara o que pensava. Como daquela vez — e tinham decorrido muito poucos meses sobre a sua entrada no partido — em que protestou por Portas não ter informado a restante direção da demissão de Luís Nobre Guedes da vice-presidência. Ela própria soubera por pessoas sem qualquer ligação ao CDS. “Mas disse-o de uma forma construtiva, o que é a sua marca”, afirma o antigo secretário-geral do partido.

Rebelo saiu dos órgãos nacionais em 2009, mas aceitou o convite de Portas para dirigir a campanha das legislativas nesse ano. Assunção era cabeça de lista por Leiria, e ele ficou impressionado com a sua “rapidez” e “organização”. “Revelou-se uma máquina de campanha. Para mim, foi uma benesse.” “Ela atirou-se à campanha, num distrito que tem todo o tipo de realidades, e adaptou-se muito bem. Teve um excelente resultado. Ganhei-lhe muito respeito.” Na sua leitura, foi nessa legislatura que ela “mostrou uma capacidade notável”. O CDS chegara aos 10%, tinha um grupo parlamentar com 21 deputados, e Portas entregou-lhe o dossiê do Orçamento e Finanças. Ela nem era economista, era jurista, e a experiência política mais próxima que tivera do Parlamento tinham sido os anos em que trabalhara com Celeste Cardona (então ministra da Justiça) como diretora do Gabinete de Política Legislativa e Planeamento do Ministério da Justiça. Ainda assim, abraçou o desafio sem vacilar. “Tem uma grande confiança nela própria”, constata João Rebelo, bem recordado de um debate no hemiciclo que a opôs ao então primeiro-ministro José Sócrates: “Ele era fortíssimo na retórica parlamentar, tinha uma lata incomparável; ela era deputada há apenas quatro meses, mas confrontou-o, ripostou, sem deixar transpirar qualquer insegurança.”

Para Duarte Bué Alves, essa é mesmo a principal característica da sua amiga de há mais de 20 anos, desde os anos da faculdade: “Tem uma enorme capacidade de acreditar em si própria, uma grande dose de autoconfiança e confiança nas pessoas que a rodeiam.” A que se soma um otimismo persistente: “Acha sempre, até ao fim, que vamos conseguir.”

Diplomata de carreira, estava colocado em Tóquio no verão de 2011 quando, numa sexta-feira, recebeu um telefonema de Cristas a convidá-lo para seu chefe de gabinete no Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território (MAMAOT). Na terça-feira seguinte já se encontrava em Lisboa, a assumir as funções. Ficou os quatro anos com ela — a partir de 2013, aquando da recomposição do Governo (e da cisão do MAMAOT de novo em dois ministérios), como assessor diplomático. E assistiu de perto à sua evolução: alguém que, sem qualquer experiência governativa nem nenhuma ligação à pasta da Agricultura, “conquistou um espaço no sector agrícola, no CDS, no país, ao ponto de se tornar um dos líderes incontestados da direita”. “Ela perguntou-me, e eu achei que ela devia avançar”, conta o diplomata, que vê em Cristas as características pessoais necessárias e a capacidade para fazer a “reinvenção do CDS”, mesmo depois de uma liderança tão carismática como foi a de Paulo Portas.

Se, aos seus olhos, “é inequívoco que Assunção conquistou para a Agricultura um grau de visibilidade incontestado”, não vê porque duvidar de que vai conseguir “cunhar a sua imagem, o seu timbre e o seu tom no CDS”. Reteve a resposta que ela deu quando há dias lhe perguntaram como se iria impor no partido, à sombra de Paulo Portas: “À sombra não. Eu vou afirmar-me na luz.” Tem a certeza, porque a conhece como poucos (é seu padrinho de casamento e padrinho do seu terceiro filho), que “a herança de Portas ocupa-lhe zero do espírito”. Ao que ajuda o facto de ter um estilo completamente diferente.

As mensagens da amiga

A constatação das diferenças entre um e outro é uma verdade universal. Nas coisas mais prosaicas: Portas chega quase sempre atrasado, e as reuniões e as conversas com ele prolongam-se; Cristas é pontual e avessa a perdas de tempo; onde ele brilha, ela é mais discreta. Mas também nas coisas que definem uma liderança: Portas é um centralizador assumido, Cristas delega; ele ouve as pessoas, mas é solitário no processo de decisão, ela procura envolver todos. “Em quase tudo é quase o oposto de Paulo Portas”, decreta Pedro Mexia, outro dos seus amigos de há mais de 20 anos.

Manuel Castelo Branco usa outras palavras: “Assunção Cristas não é um clone de Paulo Portas” e prevê sem hesitar que ela vai “impor a sua liderança de forma natural”. “Porque tem uma capacidade fora do comum e uma inteligência emocional bastante desenvolvida.” “Não terá a mesma forma de atuar, o que não é o mesmo que dizer que fará uma rutura.” O atual administrador dos CTT, amigo de há muito do casal (começou por ser amigo de Tiago), entrou ao mesmo tempo que ela para o CDS, também por convite direto de Paulo Portas e também para vogal da Comissão Política, mas o seu percurso partidário foi, devido às limitações profissionais, sempre mais discreto. Foi um dos primeiros a incentivá-la a candidatar-se quando a questão se pôs, no final de 2015, depois de Portas ter anunciado a saída.

Após anunciar a candidatura, Assunção Cristas viajou pelo país, foi a todos os distritos e às ilhas, fez um total de 22 sessões públicas e contactou com 3000 militantes e simpatizantes

Após anunciar a candidatura, Assunção Cristas viajou pelo país, foi a todos os distritos e às ilhas, fez um total de 22 sessões públicas e contactou com 3000 militantes e simpatizantes

Luís barra

Mariana França Gouveia também estava lá. Por SMS, mas estava. Conheceram-se na Faculdade de Direito da Clássica, onde se formaram em 1997, ambas com 16 de nota final — as melhores notas do curso naquele ano. Mas a amizade ficou para a vida, sobretudo depois dos três meses em que partilharam o mesmo quarto, na cidade alemã de Hamburgo, no âmbito do mestrado. Estão permanentemente em contacto, mesmo que apenas através do telefone. “Ela tinha estado há poucos dias na minha casa, a dizer que ia aproveitar para descansar [agora que tinha caído o Governo e ela estava apenas no Parlamento], quando surgiram as notícias de que poderia candidatar-se à presidência do CDS. Mandei-lhe uma mensagem: ‘Não te deixam descansar. E fazem bem!’”

Esta jurista, professora da Universidade Nova, confessa ter sido apanhada de surpresa quando, há oito anos, a amiga lhe contou que aceitara o convite de Portas para pertencer ao CDS: “Era uma excelente professora, o projeto de vida dela era a carreira académica, a advocacia.” Mas a partir daí já não estranhou a evolução: “Sobretudo quando foi para a Assembleia da República, tornou-se claro que se sentia bem naquelas funções.” E não tem dúvidas de que será assim também na chefia do CDS: “Nós fazemos sempre aquilo que nos apetece. É óbvio que lhe apetece.”

Mariana é um dos cerca de mil novos militantes do CDS que se inscreveram desde o início do ano. Filiou-se fez quinta-feira uma semana. Assunção desafiou-a, e ela, apesar de não ter “nada a ver” com política, não conseguiu virar a cara: “Quando se acredita muito em alguém, é difícil dizer que não.” Elogia-lhe as “capacidades intelectuais”, o jeito para “perceber os problemas, ouvir as pessoas, delinear soluções”. Características a que soma “uma sólida formação de carácter e valores como os da solidariedade, transparência, amizade”. “Nunca ninguém a viu zangada ou maldisposta. Toda a gente gosta de trabalhar com ela.” E “isso é capacidade de liderar”. “Vai correr bem”, vaticina Mariana.

“À beira da extinção”

Pedro Mexia é mais cético: se a liderança de Cristas vai resultar ou não, “depende dos eleitores”. “É importante que ela mostre o que vale, e isso só com legitimação em eleições”, diz. Mas ela “sabe disso”, acrescenta. Habituado aos diagnósticos políticos, que faz semanalmente no programa da TSF e da TVI “Governo Sombra”, Mexia não deixa que a amizade antiga com a agora líder do CDS lhe tolde a capacidade de análise. Admite que o que a espera não são favas contadas: “É difícil suceder a um líder carismático”, “há a ideia feita de que Portas é um fenómeno a vários títulos” e “ela não tem esse peso”. Ao que acresce “a suspeita, verdadeira ou falsa, de que ela foi a candidata — se não oficial, oficiosa — de Portas. Que era ela quem ele queria a suceder-lhe. E isso traduz-se numa diminuição da legitimidade”.

Nada que o levasse, nas várias vezes que conversou sobre o assunto com Cristas, a dissuadi-la. Pelo contrário: “Disse-lhe que gostava que fosse ela. Era dos potenciais candidatos a melhor.” Apreciou a franqueza com que ela geriu o processo, o modo como não receou mostrar que era algo que desejava para si: “Se ela quer e tem capacidade, não vejo porque não. Se vai ter sucesso, não sabemos.” A verdade, remata, é que “o CDS é sempre um partido à beira da extinção”.

O agora conselheiro do Presidente da República para os assuntos culturais é, como Cristas, licenciado em Direito (no seu caso, pela Universidade Católica). Não foram as leis, porém, que os aproximaram, mas antes a presença num grupo que comentava livros, “fomentado pelos mais hostis ao Direito, como era o meu caso, não o dela”, conta. É uma dimensão que o cronista do Expresso acha “curiosa” na política Assunção Cristas, tanto mais que é pouco frequente encontrar-se na direita portuguesa (que normalmente tem “uma certa hostilidade à cultura, área que aborda com desconfiança”), e que Mexia reencontrou na moção com que ela se apresenta este fim de semana a votos no partido. A meio do texto, ela fala da necessidade de uma política de cultura que, “além de valorizar esse passado, deve assumir o desassossego de ir ao encontro de um futuro que se quer construir de forma inovadora, criativa, arrojada e irreverente”. “Não é isso que vai ser marcante [na liderança dela], mas é um pequeno sinal a que sou particularmente sensível”, conclui Mexia.

Duarte Bué Alves, que também fez parte dessa tertúlia literária na juventude, vê nesse parágrafo da moção “um discurso novo na área da cultura”, tanto mais inovador quanto “posiciona o CDS numa área em que não era nada tradicional tomar posição”. E releva uma frase em particular: “A experiência íntima da beleza, a nível individual e coletivo, só pode contribuir para um país melhor, mais sensível e com maior compreensão do mundo.” “É a Assunção-mãe a falar, uma sua vertente menos conhecida”, comenta.

Católica praticante

Assunção Cristas é uma leitora compulsiva de poesia, obsessão que ela explica, meio a brincar meio a sério, com o facto de ser “mais rápido de ler do que um romance de 800 páginas”, conta o seu amigo diplomata. Aliás, se conseguiu ler “Anna Karenina” foi só porque foi a Moscovo, em visita de Estado como ministra: “Leu metade na viagem para lá, a restante na viagem para cá.” A paixão pela poesia é uma das dimensões que a liga ao padre José Tolentino Mendonça, um dos seus amigos e confidentes mais próximos — com quem não conseguimos conversar. A outra é, claro está, a dimensão espiritual.

Cristas é católica praticante. Leva a sério a segunda parte do termo “democracia-cristã”, garante Bué Alves. É desse “impulso de responsabilidade pelo mundo” que vem a sua costela “muito pragmática”, “a vocação de ser fazedora de coisas”. “Não perde cinco minutos na discussão da ideologia pura. O que lhe interessa é resolver problemas.” Democrata-cristã sim, mas não conservadora: “E não há nela nada de proselitismo: não tenta impor aos outros a sua posição perante a vida.” Manuel Castelo Branco corrobora: “Eu sou mais conservador do que ela em termos de valores e costumes; talvez mais liberal em termos económicos. Ela tem um bom equilíbrio pessoal. Que não tenta impor ao partido.”

“É uma posição em que me revejo totalmente. Ela não partilha da ideia de que as chamadas questões fraturantes são um bloco: ou se diz que ‘sim’ a tudo ou que ‘não’ a tudo. São casos diferentes, não faz sentido falar como se fosse tudo a mesma coisa”, afirma por sua vez Pedro Mexia.

Foi essa faceta de Cristas que contribuiu para que Teresa Anjinho também se inscrevesse no CDS. “Ela disse-me: ‘A política precisa de mulheres, tens de entrar no CDS.’ Eu respondi que não estava a ver como é que o CDS podia ter interesse numa pessoa com a minha formação [igualdade de género]. Ela pediu-me que reconsiderasse.” Na altura, estava a ser discutido o casamento entre pessoas do mesmo género, e Assunção Cristas, contra a opinião dominante no partido, era favorável. “Foi muito criticada por isso, mas manteve-se firme. E a política precisa de gente vertical, que saiba equilibrar direitos e valores.” Em 2011, Teresa filiou-se.

A partir de amanhã, Assunção Cristas será a nova presidente do CDS, a primeira mulher a liderá-lo desde a fundação, em 1974. A expectativa é que a “transição suave” que Paulo Portas pediu, quando anunciou a sua saída, em dezembro, e que se traduziu numa única candidatura à liderança no congresso deste fim de semana, se prolongue por mais algum tempo. Sem adversários internos assumidos, mas com todos os olhos postos na sua capacidade para continuar a unir o partido e desmentir a ideia feita de que a uma liderança muito forte se sucedem normalmente lideranças de transição, a presidente do CDS conta, para já, com um natural estado de graça. Até à sua primeira prova de fogo eleitoral — que podem ser as autárquicas de 2017, se decidir candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, como já admitiu, ou até novas legislativas, se o Governo cair entretanto —, “ninguém disparará o primeiro tiro”. Depois logo se vê.

Os indispensáveis de Cristas

DUARTE BUÉ ALVES

42 anos, conselheiro de embaixada. Amigos desde a faculdade, padrinho do seu casamento e do seu terceiro filho. Foi seu chefe de gabinete e assessor diplomático no Governo.

JOÃO REBELO

46 anos, licenciado em Relações Internacionais, antigo secretário-geral do CDS, deputado à AR. Não a conhecia antes de ela aderir ao partido, em 2008. Hoje é um dos seus maiores ‘fãs’.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

50 anos, padre, teólogo, poeta. É o seu conselheiro espiritual. A paixão comum pela poesia ajudou a fortalecer ainda mais os laços. É uma das pessoas que mais ouve.

MANUEL CASTELO BRANCO

47 anos, administrador dos CTT. Era amigo de Tiago (o marido) e tornou-se amigo do casal. Entrou para o CDS ao mesmo tempo que ela, também por convite direto de Paulo Portas.

PEDRO MEXIA

43 anos. O agora consultor do PR para a Cultura é um dos seus amigos mais constantes desde a faculdade. Tiveram, nesses anos, uma tertúlia literária (em que também participava Duarte Bué Alves).

PEDRO MORAIS SOARES

38 anos, licenciado em Direito e em Relações Internacionais, antigo dirigente da JP, presidente da Junta de Freguesia de Cascais/Estoril. Dirigiu a sua campanha para a liderança.

RUI LOPES DA SILVA

42 ANOS, ex-jornalista da RTP, seu assessor de imprensa durante o Governo e, agora, na campanha para a liderança. Uma relação profissional que se transformou em amizade.

TIAGO MACHADO GRAÇA

41 anos, gestor. Começaram a namorar aos 17 anos, casaram-se aos 24, têm quatro filhos (com 14, 12, 10 e 2 anos). Acompanha-a sempre que pode: “Esta coligação não se suspende.”

MARIANA FRANÇA GOUVEIA

41 anos, jurista e professora de Direito Civil na Nova. Foram colegas de turma na faculdade e partilharam um quarto em Hamburgo durante três meses. Estão sempre a falar, muitas vezes por SMS.

TERESA ANJINHO

41 anos, jurista, ex-deputada, vogal da Comissão Política do CDS. A amizade nasceu na faculdade, no curso de doutoramento, e alargou-se à política: foi Assunção que a convenceu a filiar-se.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 12 março 2016

  • Ao mudar a liderança o CDS pode diferenciar-se do PSD sem ter de resolver o debate um pouco bizantino da escolha entre o caminho identitário ou pragmático. Distingue-se do PSD porque o PSD fica a carpir as mágoas do passado, com um líder evidentemente desgastado, enquanto o CDS surge rejuvenescido a falar do futuro. Desse ponto de vista, o corte com Passos através da exigência de demissão de Carlos Costa é taticamente inteligente, porque se faz em torno de uma figura que ninguém quer defender. Só que teria de ser feito pela nova líder, não pelo antigo. São precisas duas coisas para que a nesga do desacerto temporal entre o PSD e o CDS seja aproveitada por Cristas: que não seja Portas a apoderar-se do palco e que Assunção tenha qualquer coisa de novo para dizer. Com exceção do debate sobre a regulação, o discurso de ontem repetiu, com algumas nuances, algumas das principais bandeiras políticas de Passos e Portas