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António Lamas. “A minha demissão do CCB foi uma limpeza”

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Jose Carlos Carvalho

António Lamas, ex-presidente do Centro Cultural de Belém, acredita que o ministro João Soares já deve estar arrependido da forma como o exonerou

“Pode ser que ele até já esteja arrependido da inusitada metodologia que seguiu para me afastar”, diz ao Expresso António Lamas, que quebra pela primeira vez o silêncio desde a sua exoneração do cargo de presidente do Centro Cultural de Belém (CCB) ocorrida a 29 de fevereiro, por decisão do ministro da Cultura. Lamas considera que o processo “não ajudou nada à figura de ministro” de João Soares. E adianta que não se trata de uma questão de legitimidade. “Nunca vi nada assim, é um verdadeiro problema de educação.”

O que terá abonado em favor do ministro da Cultura, diz o ex-presidente do CCB, foi o “tom bombástico” com que falou do processo nos jornais e até no Parlamento. “Conseguiu não responder a nada sobre o orçamento do Estado para a Cultura, pelo qual passou de raspão com as bancadas do PSD e do CDS a inquirirem-no sobre Belém e sobre o CCB.”

Quanto aos termos da demissão, Lamas é claro. “Acredito que foi uma limpeza”. Esta semana, na quarta-feira, Daniel Vaz Silva, o seu braço-direito no Parques de Sintra-Monte da Lua (projeto que desenvolveu em Sintra com apreciável sucesso) e que nomeou como administrador do CCB há um ano para substituir Dalila Rodrigues, também foi exonerado. “Substituíram todos os que, de alguma forma, estavam ligados a mim.”

Polémico eixo Belém-Ajuda

O Plano Estratégico Cultural da Área de Belém (eixo Belém-Ajuda), idealizado pelo governo de Passos Coelho e extinto há quase mês e meio em Conselho de Ministros, terá motivado a exoneração da presidência do CCB. “Sem nunca explicitar o que achava mal no Plano, em declarações públicas o ministro associou a inadmissibilidade a não ter havido contactos com a Câmara de Lisboa. Ora, houve contactos a diversos níveis com a Câmara e com as principais instituições gestoras dos equipamentos culturais da área. E posso provar”, contesta António Lamas.

O ex-presidente do CCB garante que João Soares não tem razão quando diz que o projeto “é um disparate”. “Pelo contrário”, diz, trata-se de “um trabalho meritório, pensado e redigido com o apoio de reconhecidos especialistas, que propõe uma visão, medidas para a valorização da zona e um processo colaborativo para sua implementação, que deve ser discutido e melhorado”.

Embora o plano estratégico nunca tenha sido apresentado, nem explicitado de que forma os monumentos e jardins da zona se relacionariam entre si, António Lamas está confiante de que “mais cedo ou mais tarde, as ideias e propostas serão retomadas e desenvolvidas, porque Belém é um valor único e a sua importância em termos monumentais, paisagísticos, ambientais e urbanos é inquestionável. É o mais significativo polo turístico-cultural de Lisboa e do país e um dos mais importantes a nível europeu”.

Desde a tomada de posse, em dezembro de 2015, que o ministro da Cultura reclamava a ineficiência do projeto. Depois de a 20 de fevereiro, em entrevista ao Expresso, João Soares ter dito que António Lamas deveria “tirar as devidas consequências” da extinção do projeto para o eixo Belém-Ajuda, o ainda presidente do CCB pediu-lhe uma audiência. Ficou marcada para dia 29, ao fim da tarde.

“Eu não me ia demitir”

“Disse-lhe que lhe reconhecia toda a legitimidade para me demitir, mas que eu não me ia demitir, apesar de ele ter dito que era o que esperava que eu fizesse”. Foi a primeira vez que conversou com o ministro da Cultura, “depois de uma breve apresentação de cumprimentos antes do Natal”.

Lamas explica que nunca pôs como condição para gerir o CCB poder desenvolver o Plano, mas tão-só que considera que “o CCB é indissociável da zona de Belém em que se insere”. A decisão da demissão coube a Soares.

António Lamas recorda que quando disse sim à missão de presidente, em setembro de 2014, “foi no sentido de dar ao CCB a sua plena razão de ir desenvolvendo novas perspetivas, e não para, absurdamente, dar mais atenção a Belém e prejudicar a sua missão, como parece deduzir-se de alguns comentários ouvidos nos últimos tempos”. Diz ainda ter “legitimidade para reclamar o interesse — porventura maior do que o de qualquer outra pessoa — em que o CCB possa desenvolver a sua função de grande equipamento e polo da atividade cultural de Belém, de Lisboa e do país”.

António Lamas esteve ligado à génese da instituição quando era presidente do então Instituto Português do Património Cultural. No fim dos anos 80 foi ele que propôs o programa do CCB, organizou o concurso internacional para escolha do projetista, presidiu ao respetivo júri, geriu o projeto e a aquisição e expropriação dos terrenos necessários.

Hoje revela que o CCB que ambicionava era “um CCB hub de redes qualificadas”, um espaço que respirasse inovação e criatividade. “Era uma missão de transformação no sentido de dar ao CCB a sua plena razão de ser.”

Mas é sem mágoas aparentes que diz que não é político, nem tem ambições políticas e que por isso regressará agora ao seu lugar de professor catedrático no Instituto Superior Técnico. “Aí, a breve trecho, me jubilarei”.

[Texto publicado no primeiro caderno do Expresso, a 19 de março]