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Rui Moreira. Como o lançamento de um livro dá voz à regionalização

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Rui Duarte Silva

Com o auditório de Serralves esgotado, Rui Moreira lançou o livro “TAP - Caixa Negra”. Trata-se de uma arma contra o centralismo e ergue a bandeira da regionalização

O auditório da Fundação de Serralves, no Porto, esgotou (260 lugares) esta terça-feira na sessão de lançamento do livro TAP - Caixa Negra, uma arma de combate ao centralismo que permite ao autarca e autor Rui Moreira, capitalizar o descontentamento nortenho face à capital.

Na sua página do Facebook, Rui Moreira apelara à presença em Serralves “dos que que não aceitam que o centralismo continue a ser a bitola política do país”. E na primeira intervenção da sessão, Valente de Oliveira, autor do prefácio, glosou o tema e invocou a bandeira da regionalização. Com este livro Rui Moreira “assume o desígnio da regionalização e dá voz a essa luta que não deixa ninguém indiferente”.

Valente de Oliveira apontaria como outro mérito, o facto de o livro inscrever na agenda política “o debate sobre a articulação de empresas privadas e o interesse público”.

Um livro elegante que defende causas

A António Lobo Xavier, conselheiro de Estado e amigo do autarca, coube a tarefa de apresentar TAP - Caixa Negra, cinco anos depois de uma parceria idêntica no lançamento de Uma Questão de Carácter, uma obra de Rui Moreira sobre o Porto.

Lobo Xavier derramou elogios à figura e obra de Rui Moreira, um político “defensor de convicções”, a quem “o exercício do poder não poderia dar nada que já não tivesse”.

E sobre o livro, falou de “revolta estética” e da “leveza elegante” de uma obra que é inovadora no panorama político por se centrar “em causas e temas de interesse nacional” e não na promoção pessoal. Para cada causa, Rui Moreira “apresenta uma solução, apresenta ideias e afirma-se pelo que defende e não pelo que critica”, referiu Xavier.

Assimetrias regionais

O dirigente centrista juntou a sua voz à de Rui Moreira para se insurgir contra “a assimetria do desenvolvimento, o desprezo a que a região mais exportadora do país está votada”, lembrando que “a coesão nacional terá de assentar no desenvolvimento harmonioso das regiões”.

Para Lobo Xavier, TAP- Caixa Negra é um livro, pelas pistas que sugere e interrogações que levanta, útil e indispensável tanto aos que, como ele, sempre defenderam a privatização, como os que preferem o caráter público da companhia.

Entre “as confusões, trapalhadas e silêncios” que Rui Moreira encontrou no labirinto do poder, sobra a suspeita de que “o interesse público não terá sido devidamente protegido”. É um processo que incorpora “muitas ambiguidades”, com um “défice de lógica” e que ilustra “como se exerce a política em Portugal”.

Lobo Xavier vê o amigo como um elemento “da corte do Norte” e não como líder regional. Reconhece que a posição sobre a TAP teve custos pessoais que “o sólido balanço de Rui Moreira facilmente comporta”. O discurso e atitude de Moreira desarmaram os críticos de Lisboa, habituados a colar ao Porto “um estilo bairrista, grosseiro e inculto”.

Registo para memória futura

E porquê este esforço de Rui Moreira de escrever com urgência este livro e sujeitar-se ao escrutínio público? O próprio autarca responde. Para que “o testemunho e os episódios fiquem registados em papel” para memória futura e impedir que o assunto seja remetido para a gaveta do esquecimento.

Rui Moreira, indefetível portista, tem saudades das vezes que os feitos internacionais do FC Porto garantiam manchetes e reconhecimento do país. E nota que esta luta contra a TAP teve o efeito virtuoso de “colocar o Porto no centro do debate e na agenda mediática”.

Quem fizer maldades ao Porto, leva

Esta história não acaba aqui e este livro, adverte Moreira, contém um aviso à navegação. Quem ousar “fazer novas maldades ao Porto vai enfrentar a minha voz e hesitará antes de avançar”. Jorge Coelho diria quem se meter com o Porto, leva.

TAP- Caixa Negra é um livro de bastidores que combina a opinião com a atualidade, escrito em poucos dias, a quatro mãos - Rui Moreira contou com a colaboração do seu assessor Nuno Santos.

Cada um dos 10 capítulos (Quem manda na TAP, Porquê Vigo, Monopólio privado, A Ryanair, Ao jantar ou A Luta perdida, são alguns deles), divide-se em duas partes. O registo impressionista de Rui Moreira, através de um texto mais livre e por vezes romanceado, que recua até à sua fase de presidente da Associação do Porto em que se bateu pela solução Portela +1 e a privatização autónoma do aeroporto do Porto, é contextualizado com uma segunda parte em que se fornecem dados, se revela a estratégia de comunicação, a posição de comentadores e o efeito mediático de cada caso.

Sócrates e Belmiro furiosos

Num dos capítulos, Rui Moreira conta como em abril de 2008 Belmiro de Azevedo e José Sócrates se envolveram, num jantar no Palácio da Bolsa, “numa furiosa discussão”, depois do então primeiro ministro ter ignorado o acordo que firmara para a concessão isolada do aeroporto Sá Carneiro a um núcleo empresarial do Norte. Mas, foi a linha editorial do Público que fez azedar a conversa com Belmiro.

Rui Moreira recorda que Sócrates rasgou o discurso que trazia e dedicou-se a um improviso “insípido” sobre o estado do país. O primeiro ministro negaria a versão segundo a qual, cinco meses antes, num jantar secreto no Palácio da Bolsa, prometera aceitar a concessão do aeroporto e chamou mentiroso a Rui Moreira.

À mesa desse jantar estavam, entre outros, o então ministro Teixeira dos Santos, Artur Santos Silva, Daniel Bessa, Alberto Castro, Paulo Azevedo e António Rios Amorim. Nenhum deles esteve presente no lançamento do livro.

A guerra não acabou

Rui Moreira dedica a última parte do livro a uma reflexão emocional e política sobre os casos que aborda, avisando que “o Norte não pode continuar a ser olhado com desprezo pelos poderes que, entrincheirados na capital, olham o Porto com paternalismo, sobranceria e despeito”.

No caso da TAP, a estratégia “irá acelerar o esgotamento do aeroporto da Portela e conduzirá ao esvaziamento do aeroporto Francisco Sá Carneiro, reduzindo o seu hinterland”. O que faltou, mais uma vez, ao Norte "foi um apoio das forças partidárias, dos deputados” e das elites da região "que se abstiveram, falaram pouco e baixinho”.

Para o Porto, “era bem melhor que a TAP fosse totalmente privada ou totalmente pública”. Com uma TAP pública, o Porto “não pode nunca, mas nunca, cansar-se de lutar, de falar e até, se preciso for, de falar à Porto”, avisa Rui Moreira. Esta guerra “valeu a pena porque sempre que quiserem voltar a fazer uma maldade ao Porto vão ouvir a minha voz. Esta guerra valeu a pena. E não acabou”.