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Portas. “O Ocidente agiu sem qualquer realismo face à crise síria”

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© Hugo Correia / Reuters

Antigo vice primeiro-ministro defende que só existem “soluções políticas” para o conflito na Síria, que passam pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) e por um acordo com a Rússia

“Não há os bons de um lado e os maus do outro. Não há inocentes no conflito na Síria. Inocentes só mesmo as vítimas da maior barbárie a que o mundo assistiu neste princípio do século XXI”, afirmou este domingo Paulo Portas em Dakhla, criticando a resposta do Ocidente à crise na Síria.

O ex-líder do CDS participou esta tarde como orador no Le Forum De Crans Montana Dakhla – o maior que se realiza no continente africano e que contou com a presença de mais de mil decisores de vários continentes – apontando erros da comunidade internacional relativamente à Síria.

“A política internacional e o domínio por excelência do realismo. Ora o ocidente em geral e a Europa também agiram sem qualquer realismo na questão da Síria. Há dois anos que o mundo sabe que o Presidente Obama não porá 'boots on the ground'. Ou seja não há qualquer solução militar viável”, defendeu.

“Realisticamente não há outro caminho”

Segundo Paulo Portas, só existem “soluções políticas” para o conflito na Síria, que passam pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) e por um acordo com a Rússia. “O Ocidente devia ter percebido muito mais cedo que a única esperança para o fim daquela tragédia era precisamente esse compromisso com a Rússia que e incompatível com vetos a este ou aquele na mesa das negociações. Realisticamente não há outro caminho”, sustentou.

O antigo vice-primeiro ministro lamentou ainda que alguns países europeus fornecessem armamento à oposição síria, agravando a situação que contribuiu para à crise dos refugiados. “Mais de 200 grupos dessa oposição estão identificados no terreno como tendo ligações a franchises do terrorismo islâmico. Dar-lhes armamento e como por o fúsil na mão de quem no dia seguinte liquidadará os cristãos ou os judeus ou os alauitas ou simplesmente os moderados islâmicos”

Sublinhando que Portugal foi um dos países europeus a opôr-se ao fim do embargo de armas à oposição síria, Portas lembrou também que é neste país que treinam vários terroristas que cometem atentados na Europa. “As falhas de política externa tem consequências. enquanto a Europa enquistava a sua relação com a Rússia no tema da Ucrânia a Síria - com a Rússia como player obrigatório - transformava se num inferno para os seus habitantes e exportava uma crise sem precedentes para a Europa”.

O futuro passa por África

Além do conflito na Síria, Portas aproveitou também a sua intervenção no Fórum para destacar o exemplo de Marrocos em termos de estabilidade no mundo islâmico e as potencialidades do continente africano. “Pode parecer exagerado mas em certo sentido África pode ser neste século o que a China conseguiu ser no último quartel do séc. XX depois das reformas de Deng Chiao Ping”.

O ex-líder do CDS considerou, porém, que é essencial mais estabilidade politica, segurança jurídica e abertura económica em África, de forma ao continente captar mais investidores europeus. “Sem estabilidade ninguém investe. Sem segurança ninguém fica. Sem abertura perde se o potencial e a inclusão social não avança. Depende das lideranças africanas dar estas garantias e fazer do seu continente das oportunidades”, concluiu.

Depois de deixar a liderança do CDS, Paulo Portas passará a ocupar o cargo de vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP) e será ainda comentador de política internacional.