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Desapareceu o triângulo das direitas

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José Carlos Carvalho

Marcelo Rebelo de Sousa tem esta segunda-feira o primeiro dia em plenas funções como Presidente, depois das comemorações da posse. Paulo Portas vive o seu primeiro dia como ex-presidente do CDS. Cavaco Silva já vive há uns dias como um ex-político reformado. Há 30 anos que o trio Cavaco-Marcelo-Portas dominava a direita portuguesa. Em poucos dias desapareceu este triângulo tormentoso que protagonizou uma longa novela

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Há trinta anos que Cavaco, Marcelo e Portas formavam o triângulo de protagonistas incontornáveis da direita portuguesa. Nem um triângulo amoroso nem odioso, mas um triângulo tormentoso. Como naquelas novelas em que as voltas do argumento são tantas que os protagonistas assumem todos os papéis possíveis na relação entre uns e outros. Aperte o cinto para a sinopse: Marcelo ofereceu o poder a Aníbal, que teve o voto de Paulo, que imitava Marcelo, que sonhou roubar o lugar a Aníbal, que foi atacado por Paulo, no jornal de Paulo, que recebia informações de Marcelo, que enganou Paulo, que se coligou com Marcelo, que se demitiu por causa de Paulo, que virou apoiante de Aníbal, que se sentiu traído por Paulo, que passa horas ao telefone com Marcelo.

Aníbal Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa nunca foram próximos e não podiam ser mais diferentes. O economista e o jurista; um afetando nojo da política, o outro sem esconder o gozo da política; um ministro das Finanças de Sá Carneiro (primeiro social-democrata nesse papel), o outro ministro dos Assuntos Parlamentares de Balsemão — e ambos de pé atrás em relação a este ao ponto de Cavaco, que o criticava abertamente, tentar seduzir Marcelo para a sua barricada.

Involuntariamente, Marcelo estendeu a passadeira do poder a Cavaco. Depois de liderar a Nova Esperança (grupo lisboeta que juntou contra o governo do bloco central PS-PSD gente como Santana Lopes ou José Miguel Júdice), sonhou sair do congresso da Figueira da Foz, em 1985, como líder do PSD ou com a perspetiva de o liderar a curto prazo. A história foi outra: enquanto João Salgueiro ponderava e Marcelo hesitava, Cavaco chegou-se à frente. Uns dias antes, Santana tinha escrito que Marcelo era “o melhor líder para o PSD”, mas que o importante era haver “gente sem medo”. Quando Cavaco avançou, Santana reconheceu-o como líder: deu-lhe apoio e partiu a Nova Esperança. Marcelo foi o que mais resistiu, e seria o último a alinhar nas fileiras cavaquistas, mas sem nunca lhe fazer um elogio. Pressentia que o algarvio seria um osso duro de roer. “O dr. Cavaco Silva afastou-se, preparou-se, avançou (menos de improviso do que se poderia esperar), lutou pela liderança, encontrou condições para vencer, ganhou e logo de seguida fez o discurso de quem pretende tornar claro que não deixará o seu caminho ao acaso”, escreveu o comentador Marcelo. E apostou que Cavaco era líder para dez anos.

Rui Duarte Silva

A década de ouro de Cavaco foi de seca para Rebelo de Sousa: não havia espaço para os dois e Marcelo fazia política através do comentário e do imenso noticiário que alimentava como fonte. Nomeadamente em “O Independente”, o novo jornal feito à medida de Portas. Os dois conheciam-se bem, eram parecidos em muita coisa, a começar pelo sentido lúdico da política. Apesar da óbvia assimetria entre um jovem jornalista com aspirações a novo Marcelo e o fundador do PSD, ex-governante e analista político mais reconhecido do país, Portas emulava o mestre e aprendia depressa. Nenhum arriscava perder o outro de vista. Quando nasceu o “Indy”, congeminavam ao domingo à noite ideias para a sexta-feira seguinte.

Com o cavaquismo instalado numa maioria absoluta, um “problema” que Portas tinha identificado em tempos tornara-se, do seu ponto de vista, uma evidência: eleito com os votos da direita, Cavaco governava à esquerda. “O Independente” afirmava-se como o mais persistente, corrosivo e demolidor adversário do cavaquismo — do seu líder, das suas políticas e do seu pessoal —, ao mesmo tempo que Portas fazia massagens cardíacas à direita. Acreditou que podia ser Marcelo a reanimá-la e que o primeiro passo para isso seria conquistar Lisboa. Por alguma razão Cavaco resistiu tanto a que fosse ele o candidato do PSD à capital. Conseguir isso foi, para Portas, a primeira derrota de Cavaco. “Admitamos que Marcelo vence as eleições em Lisboa. (...) Nasce uma alternativa a Cavaco Silva dentro do seu próprio partido”, apostou Portas. Perdeu a aposta porque Marcelo perdeu Lisboa. Zangaram-se depois, porque Marcelo enganou Portas com uma sopa fria. A traição da vichyssoise motivou uma rutura de anos e foi nesses anos que Portas disse que Marcelo “é filho de Deus e do Diabo: Deus deu-lhe a inteligência e o Diabo deu-lhe a maldade”.

Até Cavaco deixar o Governo, em 1995, Portas e o seu jornal também lhe chamaram tudo (ou quase), de demagogo, esquerdista, reacionário, oportunista e hipócrita a “salazarzinho de subúrbio”. Pelo caminho, abateram alguns generais do cavaquismo. Marcelo, menos sanguíneo, foi deixando farpas nos seus comentários políticos. Até que o salto falhado de Aníbal de São Bento para Belém, nas presidenciais de 1996, mudou a vida dos outros dois. Paulo, já transfigurado em deputado do CDS, esqueceu tudo o que tinha dito como jornalista e declarou o voto em Cavaco — e com isso abriu a primeira brecha na sua nova casa, o CDS, entrando em rutura com Manuel Monteiro. Quanto a Marcelo, chegou ao lugar que Cavaco lhe havia tirado: com o cavaquismo arrumado, o professor fez-se presidente do PSD em 1996.

Cavaco Silva, quarta-feira, já como ex-Presidente, a entrar na sua casa em Campo de Ourique, na Travessa do Possolo

Cavaco Silva, quarta-feira, já como ex-Presidente, a entrar na sua casa em Campo de Ourique, na Travessa do Possolo

LUÍS FILIPE CATARINO

Dois anos depois, também o CDS mudou de presidente. Senhoras e senhores: Paulo Portas! E que fazem dois líderes partidários que tinham sido amigos, depois se tinham zangado, se haviam acusado de traição, não confiavam um no outro e não se falavam há anos? Acertou: uma coligação. E como acaba essa coligação? Com zanga e acusações de deslealdade. Marcelo voltou a retirar-se do palco partidário e reinventou-se como rei da TV. Portas aguentou-se. Até hoje.

O ex-jornalista aprendeu bem as lições do professor. Marcelo inventou os factos políticos, mas Portas fez mais: publicou as notícias com que defenestrou adversários e construiu o seu caminho; quando trocou o “Indy” pelo CDS, tinha a escola toda sobre controlar informação, sobre formatar a mensagem em soundbites, sobre como pensam os jornalistas e como os políticos se destroem. O jornalismo foi um curso de sobrevivência. Marcelo usou o Expresso para se fazer político e criou o “Semanário” para liderar a direita — mas saiu-lhe ao caminho um Cavaco. Portas usou “O Independente” para ressuscitar e liderar a sua direita — e liderou-a até hoje. Marcelo ajudou Cavaco a chegar ao poder e só 30 anos depois se sentou na cadeira, quando Cavaco a desocupou. Portas demoliu o Cavaco-primeiro-ministro, mas foi ministro coabitando com o Cavaco-Presidente. Consta até que se entendiam bem — pelo menos, até à “demissão irrevogável”, traição que Aníbal nunca perdoou a Paulo.

E, em quatro dias, o triângulo desaparece: na terça-feira, Cavaco entregou as chaves de Belém a Marcelo; ontem, Portas deixou a presidência do CDS. “Acabou”, disse Aníbal, no momento em que passou a ser material dos livros de história. Marcelo vai agora escrever a parte mais importante da sua. E Paulo tem um longo passado pela frente: quem fez tanta política não sai de vez da política. Se Rebelo de Sousa cumprir a tradição dos dois mandatos, Portas tem dez anos para se reciclar como candidato às presidenciais de 2026; se Marcelo fizer só um, Portas terá de ajustar o calendário. Não é impossível que, nas horas que passam ao telefone um com o outro, Portas lhe tente adivinhar os planos. A Cavaco, não é provável que algum deles telefone.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 12 março 2016 (atualizada)

  • Primeiro discurso de Marcelo divide a esquerda

    António Costa recebeu Marcelo com afeto - "é um discurso em que todos nos podemos reconhecer". Mas BE e PCP não se reviram nele. Para já, dão o benefício da dúvida. A insistência nos consensos deixa "a esquerda da esquerda" de pé atrás. Nesta página, em baixo, pode ver as fotogalerias do dia de Marcelo e da saída de Cavaco de Belém