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O primeiro balcão falou: Melo e Adolfo levantaram a sala

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Rui Duarte Silva

Muitos elogios à “querida Assunção”, conselhos q.b., muita tareia na “geringonça”... Os senadores do CDS falaram na hora do primetime televisivo

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Houve um tempo em que ainda disfarçavam: o presidente da mesa do congresso do CDS alinhava as vedetas do partido todas à hora do primetime televisivo e fingia que era um acaso. Esse tempo já lá vai. Luís Queiró abriu o jogo e explicou aos congressistas que na hora forte dos diretos das tvs falariam os rostos mais mediáticos do partido. E sem terem de limitar a intervenção aos três minutos da praxe. Aqui fica o testemunho do primeiro balcão do CDS, incluindo os muitos, desvanecidos e adjetivados elogios a Assunção Cristas.

António Pires de Lima

O antigo ministro da Economia está "preocupado" com as "águas turvas e desconhecidas" em que vê navegar Portugal. Deixa um alerta: "A imprevisibilidade fiscal e a hostilidade ao capital são napalm para a captação de investimento estrangeiro". E em este, prevê, "é impossível pensar que Portugal vai seu um país com mais paz e justiça social".

Discorda de Ribeiro e Castro: "Nós ganhámos as eleições. Ganha quem tem mais votos, quem tem mais deputados". Deixa um repto para o futuro: "O CDS precisa de ser uma oposição forte e credível".

O cantinho do elogio: Pires de Lima não regateou elogios à futura líder: "Uma mulher de armas, decidida, frontal, voluntariosa". Mas não só: "Cheia de convicções interiores, respeita como poucos os que decidem viver de forma diferente da sua". Tem a certeza que "a sua imensa vontade para nos liderar vai funcionar bem". Espera que as exigências do cargo não lhe estraguem "o sorriso lindo". Descrevendo-a como "força serena", antevê "uma liderança luminosa para o CDS e para Portugal".

Pedro Mota Soares

O ex-ministro do Trabalho e Segurança Social trouxe muitos elogios a Assunção Cristas e proclamações de fé na sua capacidade (já lá vamos), mas também trouxe uma prioridade e uma receita para a afirmação do partido como alternativa. A prioridade: recuperar o eleitorado perdido depois dos quatro anos de governo da coligação. "Temos de olhar para aqueles que olhavam para nós, que votavam em nós, e num determinado momento deixaram de olhar ou deixaram de votar", alertou o ainda vice-presidente do CDS.

A receita: para que o partido seja "útil", tem de ter respostas concretas para os problemas. "Por cada crítica, temos de dar a nossa solução, por cada contestação, a nossa ideia", defendeu Mota Soares. E deu um exemplo: se Portas identificou os problemas da banca portuguesa, e o falhanço do governador do Banco de Portugal, Mota Soares recorda que "a solução já estava no nosso programa" - "Deve ser o Presidente da República a nomear o governador do Banco de Portugal, e não o governo". Uma alteração que implica mudar a Constituição e, por isso, o ex-governante recuperou essa reivindicação do CDS . Também "para permitir que o PR fique à frente de um grande conselho superior de justiça".

O cantinho do elogio: Por causa das coisas, Mota Soares começou por dizer de Assunção Cristas que é "a minha candidata a futura líder do CDS". E, no cotejo com o líder cessante, acrescentou pedestal à sucessora: "Sei que vamos trocar um grande presidente por uma grande presidente", disse o ex-ministro, assegurando a "capacidade, a disponibilidade e a fé [de Cristas] para liderar o CDS num tempo tão importante e desafiante"

Nuno Melo

Comecemos pelo fim: o discurso de Nuno Melo levantou a sala do congresso com uma energia talvez só comparável com a ovação dispensada no início do congresso a Paulo Portas. No "palmómetro", Melo não falha. Fez um discurso de combate, com muita tareia ao Governo ("Este Governo é uma errata [mas] devia fazer uma errata de si mesmo: onde está governo devia ler-se oposição. E onde está oposição deviam ver se aqueles dois partidos que venceram as eleições") e muitos tiros à "geringonça" ("Este governo diz-se socialista, mas quem manda verdadeiramente não é o Largo do Rato, é o comité central do PCP, o BE e a CGTP").

Zurziu o BE por causa do cartaz com Jesus Cristo (pôs a hipótese de ter sido concebido "num daqueles acampamentos em que dão aulas de auto cultivo das drogas"), e atacou Costa por pedir "sem se rir" os consensos que antes rejeitou ("rasgou o único pacto que existia, que tinha que ver com a reforma do IRC") e por "reverter, reverter, reverter, sem dizer quem é que vai pagar".

Também houve uma nota para dentro do partido que foi muito bem recebida pela sala: o apelo à unidade e à inclusão. "É muito importante que o CDS esteja unido e que não fique ninguém para trás." Por fim, perante as sondagens que não animam o CDS, inventou um novo provérbio - "sondagem malvada é sondagem abençoada". Foi um sucesso.

O cantinho do elogio: Melo tinha sido louvado, de manhã, por Portas, pela sua generosidade ao não se candidatar, abrindo caminho a Assunção. "Não foi por generosidade", esclareceu o próprio: "A Assunção Cristas está em muito melhores condições para liderar o CDS do que eu próprio alguma vez estaria neste momento" (Registe-se o "neste momento").

António Lobo Xavier

Falou como "velho militante histórico", num discurso em boa parte dedicado ao "legado" de Portas, que considerou "o presidente que mais longamente marcou um partido a quem devemos tanto como aqueles que o fundaram", a parte destes 40 anos como militante que "mais seriamente" o entusiasmou. À futura líder deixou vários conselhos, a começar no alerta para o momento difícil em que assume funções e para a responsabilidade de não deixar o CDS acantonado: "Se este Governo vai onde nós imaginamos que vai (a lado nenhum) (...) essa profecia é trágica para o país". A profecia, admite, "está provavelmente certa, mas se for só para o sublinhar esse é um lugar indigno da história da CDS".

O cantinho do elogio: Foi parco em adjetivos mas ainda assim referiu que "está à vista a vantagem da descrispação, o sorriso, a afabilidade". Se Assunção, reconhece, "vai ter de substituir um líder de quem todos gostavam", vai "ter de mostrar que não tem menos talento para ser tão eficaz e tão querida [como Portas]", tem "a certeza que o vai ser".

Adolfo Mesquita Nunes

Comecemos, outra vez, pelo fim: se não é surpresa ver Nuno Melo empolgar uma sala, é novidade ver Mesquita Nunes levantar o congresso. E fê-lo com um discurso em que se dedicou a desmontar ideias feitas. Aos que acusam o CDS de querer agora roubar votos ao PSD, perguntou - "desde quando é que os partidos são donos dos eleitores?" Sobre a impossibilidade do CDS ganhar umas eleições, lembrou muitos vencedores com a camisola do CDS e garantiu que "ganha as eleições quem for melhor e se formos melhores nós ganhamos". A propósito do debate sobre se o CDS deve ser mais ideológico ou mais pragmático, questionou-se sobre "desde quando é que o pragmatismo dispensa ideologia? Sobre o receio de que o partido, abrindo-se muito, se descaracteriza, deu o conselho mais terra a terra: "Assunção, não acredites nessa conversa, todos os minutos perdidos nessa conversa são minutos perdidos."

O cantinho do elogio: "Nunca o teu otimismo e capacidade trabalho fizeram tanta falta para oferecer aos portugueses uma solução no meio de tanto devaneio ideológico", disse Adolfo. E fez uma piada muito CDS ao dedicar a Cristas uma citação do rapper Boss AC (a piada é que Boss AC é o nome que alguns chamam à chefe Assunção Cristas): "Acredita em ti, que tu és mais forte e tens o mundo a teus pés. Tu és mais forte e sei que vais vencer."