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“E pronto. Finito”

Rui Duarte Silva

Paulo Portas despediu-se do CDS de lágrimas nos olhos. Deixa o partido, nas palavras que foi buscar a uma expressão inglesa, no “par de mãos seguras” de Assunção Cristas

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

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Editora de Política da SIC

Foi um longo discurso (quase uma hora). Paulo Portas começou a sua última intervenção como presidente do CDS reconhecendo "uma certa emoção no ar", "natural, partilhada, saudável". Quis evitar "sinais exteriores de emoção" mas foi incapaz: terminou com voz embargada e a limpar os olhos com as costas das mãos. Ele e muitos dos cerca de mil congressistas que, reunidos em Gondomar, se preparam para eleger Assunção Cristas como sua sucessora.

"Não me perguntem se é até já ou até sempre. É até amanhã, que eu vou cá estar [para votar em Assunção]", disse o agora ex-líder centrista - que, no entanto, não participará nos trabalhos desta tarde. Dirigindo-se a Cristas, disse acreditar que deixa o partido "in a safe pair of hands": "É exatamente o que os portugueses esperam de ti, que sejas um par de mãos seguras para tratar bem de Portugal". Sobre si próprio e quem pergunta "o que vou fazer daqui a dez anos", quis apenas deixar uma nota, "para evitar especulações: "Neste mundo em que vivemos, qualquer especulação superior a seis meses é, no mínimo, um atrevimento".

Foi líder durante 16 anos, fez 650 mil quilómetros no carro do partido. Não quis detalhar-se nas razões de não se recandidatar ("não é já relevante"), mas para ajudar à explicação ainda deu mais uns números: desde que se sentou na cadeira de presidente do CDS (a primeira vez foi em 1998), conheceu sete presidentes do PSD, cinco secretários-gerais do PS, cinco primeiros-ministros e quatro Presidentes da República. "Creio que isto chega para pôr as coisas em contexto: a estabilidade favoreceu o CDS mas o CDS não ganharia em confundir estabilidade com inércia". Para concluir: "Há um tempo para passar o testemunho".

Subira ao palco depois de, no enorme ecrã semicircular que domina o cenário do 26o congresso passar um filme evocativo dos seus anos na liderança que terminava com um gigantesco "obrigado Paulo". Ele quis devolver: agradeceu a todos, a começar no "pequeno grupo de pessoas com que fiz os primeiros passos" e a terminar nos "adversários, sem os quais não poderia ter feito os combates que fiz".

Antes ainda, quis deixar uma palavra especial para Pedro Passos Coelho (que é esperado amanhã, na sessão de encerramento), "agora que se discute uma furtiva e conveniente décima da execução orçamental de 2015". "Está para chegar um primeiro-ministro com o calibre para baixar o défice dos 11% para os 3% [como fez Passos]". Reconheceu: "Tivemos problemas na coligação - até porque somos pessoas muito diferentes - quem não os tem?. Mas garantiu guardar "a boa memória" e agradeceu-lhe "como português".

Marcelo também não ficou à margem do seu discurso de despedida. Portas fez questão de "saudar a eleição do novo Presidente da República". "Chegou lá sem depender da autorização dos partidos. Estes devem entender que a política esteja a mudar", alertou, antes de confessar: "Eu agradeço que o Presidente seja tão independente que só dependa da sua consciência".