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Portas sobre Maria Luís: “Comissão de Ética avalia o que é legal. Outras matérias são do juízo do próprio”

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© Hugo Correia / Reuters

A poucos dias de deixar a liderança do CDS, Paulo Portas mostra confiança na nova geração do partido e reforça que esta é a altura certa para “passar o testemunho”. Acusa o atual Governo de ter como “mantra” a reversão e lamenta que nos últimos 30 anos o centro de direita não tivesse a possibilidade de liderar durante um período de crescimento económico

“A Comissão de Ética não avalia o que é moral. Avalia o que é legal. Outras matérias são essencialmente do juízo do próprio”, assim analisa Paulo Portas a contratação de Maria Luís Albuquerque como diretora não-executiva da Arrow Global, empresa que comprou créditos ao Banif. Em entrevista à Rádio Renascença, o ainda líder do CDS admite que gostou de ver a antiga ministra das Finanças questionar a Comissão de Ética do Parlamento sobre a legalidade do novo emprego.

“ A comissão só pode verificar se o caso concreto colide com as previsões da lei da compatibilidade. É isso que pode e penso que a comissão vai fazer”, defende Paulo Portas. “Eu, lendo a lei, ainda não percebi como se fundamenta um caso nessa matéria”, acrescenta.

Naquela que foi “a última conversa substancial” antes de deixar a liderança do CDS, após 16 anos no comando – o Congresso do partido que vai eleger Assunção Cristas como sua sucessora realiza-se este fim de semana em Gondomar –, Paulo Portas tece algumas críticas ao atual Governo, que acusa de desfazer o trabalho do Executivo da coligação PSD-CDS. Portas fala mesmo no “mantra” da reversão.

Sobre a solução encontrada à esquerda para governar o país, à qual continua a referir-se como “geringonça”, Portas defende que existe uma problema: o equilíbrio entre a extrema esquerda e os compromissos europeus. “Uma coisa é haver uma soma de sentimentos negativos em relação a um adversário comum. Outra é construir um projeto comum para um país. É uma aliança entre partidos que prometem dar tudo a todos, como se estivesse em constante campanha eleitoral e os compromissos europeus. Acho muito difícil que esse equilíbrio seja natural”, explica.

Para Paulo Portas, o que aconteceu nas últimas eleições legislativas pode voltar a acontecer e, quem sabe, “prejudicar os atuais tutelares do poder”. “No norte da Europa esta questão das somas parlamentares até é relativamente frequentemente. Aconteceu agora pela primeira vez em Portugal e Espanha”.

“Não sinto nenhuma frustração [pelo que aconteceu nas eleições]. Como pode uma pessoa queixar-se de fazer parte de uma equipa que obteve 39% dos votos dos portugueses? Se me sentisse frustrado, estaria a ser injusto com as pessoas que votaram em nós, apesar das dificuldades passadas. Nós ganhamos as eleições. O que aconteceu foi que não podemos governar”, argumenta.

A cultura da “esquerda simpática” e direita “cruel”

Paulo Portas lamenta que nos últimos 30 anos o centro-direita não tenha tido a possibilidade de governar num período de crescimento económico e que só tenha chegado à liderança quando “a casa já estava a arder”. E exemplifica: em 2011, deparou com circunstâncias que “não deseja nem ao pior adversário”.

O líder do CDS sublinha que o Governo de coligação foi obrigado a fazer cortes para equilibrar as contas e que por isso mesmo se tem instalado a “ideia de que há uma esquerda que é simpática e uma direita que é cruel”.

“Não gostaria que se instalasse essa ideia em Portugal, de que esquerda dá e a direita tira. Isso não é verdade”, realça. Em 2015, justifica, o país “tinha entrado no radar dos países convidativos para investir” e tinha “um saldo positivo com o exterior”. Em suma, estava a crescer, disse.

O “fim do ciclo da liderança partidária”

Após 16 anos de liderança do CDS, Paulo Portas admite que já o seu ciclo já estava no “limite do tempo que se deve exercer”, pois “quando as pessoas ficam tempo de mais nos cargos perdem exigência consigo mesmas ou com os outros”.

“As pessoas devem ter a lucidez de antecipar. Se soubermos o momento em que devemos passar o testemunho acho que estamos a fazer um serviço à instituição”, esclarece.

Portas acredita que conseguiu reunir uma nova geração no partido, que é “talentosa e competente”, e prova disso mesmo é a prestação do CDS no debate orçamental, em que o ainda líder esteve ausente. “O CDS tem um conjunto de deputados de altíssima qualidade, que teve um comportamento exemplar. E depois houve a supressa de ser a Assunção Cristas a encerrar. E eu não estive lá. O partido andou sobre rodas sem problemas. E foi também para mostrar isto que não estive no debate”, justifica.

Foi em dezembro, entre o Natal e o Ano novo, que Paulo Portas anunciou a sua decisão de não se recandidatar à liderança do CDS. Uma nova recandidatura, caso acontecesse, não seria apenas para mais dois anos. “Não se trata apenas do facto de me candidatar a um mandato, se decidisse candidatar-me agora não era só para dois anos. Seria primeiro para uma recuperação na oposição e depois para preparar o partido para novas eleições. Isto significaria mais de 20 anos à frente do CDS. E isso, na minha opinião, não seria normal num partido democrático”, explica na entrevista à Renascença.

Já no final da conversa, Portas admite estar “muito bem-disposto” com os projetos profissionais que estão para chegar. “O que vou fazer tem muito pouco a ver com o que tem dito e escrito nos jornais. No momento certo, darei os factos”, garante.

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