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Ferro elogia Presidente “sintonizado com o país” e que “saiba comunicar”

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Marcos Borga

Presidente da Assembleia da República referiu Cavaco como “grande protagonista político da nossa democracia” – mas só a direita aplaudiu a referência ao chefe do Estado cessante

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

O presidente da Assembleia da República Eduardo Ferro Rodrigues realçou, na tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, o "bom prenúncio" deixado pelas primeiras palavras e primeiros gestos do novo chefe do Estado.

A segunda figura do Estado viu nesses gestos e ouviu nessas palavras "um Presidente da República sintonizado com o país" que, sublinhou, "pode tornar-se no promotor das convergências estratégicas de que Portugal tanto necessita". Por outro lado, Ferro Rodrigues frisou que "um Presidente da República que saiba comunicar com o país é um Presidente que vai saber comunicar com todos os órgãos de soberania, com todos os partidos políticos e com todos os parceiros sociais. Com todos, por igual".

O "bom prenúncio" identificado pelo presidente da AR acaba, por contraste, por ser uma espécie de reverso daquelas que caraterísticas que foram, ao longo dos últimos anos, apontadas como as maiores fragilidades da presidência de Cavaco Silva. Ficou essa nota, mas Ferro não foi mais longe nesse contraste. Afinal, era dia de festa e dia de saída de cena de Cavaco. A quem Ferro fez o elogio de despedida que foi sublinhado por aplausos do PSD e do CDS. Mas apenas desses.

O presidente da AR louvou o "espírito de serviço público que mais uma vez [Cavaco] demonstrou, agora no exercício do cargo de Presidente da República". Mais: lembrando a década de Cavaco como primeiro-ministro e os dez anos que passou em Belém, rotulou-o como sendo "sem dúvida nenhuma um grande protagonista político da nossa democracia". Porém, nem o facto de ser o dia de despedida de Cavaco lhe valeu o aplauso da esquerda: enquanto as bancadas à direita aplaudiam o elogio feito por Ferro, PS, PCP e BE mantiveram-se em silêncio.

"Sarar feridas" e enquadrar-se no "novo ciclo"

Foi o melhor barómetro da tensão política em que o país tem vivido e que não ficou de fora do discurso de Ferro Rodrigues, que se dirigiu a Marcelo como sendo, a partir desta quarta-feira, "o Presidente de todos nós" e imputando-lhe a "responsabilidade histórica de ser o homem certo no momento certo".

Como? Por um lado, cumprindo a promessa feita por Marcelo em campanha – e que Ferro recordou – de "contribuir para sarar as feridas políticas que se somaram às feridas sociais e económicas" dos últimos anos". Por outro lado, tendo a capacidade de se "enquadrar" no "novo ciclo da vida política democrática".

"Esta nova realidade política exige uma nova cultura de responsabilidade e uma nova atitude de disponibilidade", frisou o presidente da AR, distribuindo tarefas: "Responsabilidade em primeiro lugar de quem governa e de quem suporta a governação, mas também disponibilidade das posições para a lealdade institucional e para o diálogo estratégico próprio das democracias." E aí, acrescentou Ferro, a relação entre o Governo e o Parlamento "não dispensa o papel do Presidente".

"A ação do Presidente não se resume à cooperação com estes órgãos de soberania, mas também não se consolida sem ela", notou Ferro Rodrigues, acrescentando que o PR se espera "visão estratégica e independência na ação".

A resposta à Europa

No caderno de encargos traçado por Ferro, destaca-se também a resposta à encruzilhada em que está a Europa, e a necessidade de, nesse desafio, o país "se voltar a reencontrar".

"Cabe-nos a todos, independentemente das nossas famílias políticas, não permitirmos que a União Europeia se transforme num fator de instabilidade política e num motor de fragilização democrática", alertou o presidente da Assembleia da República. Um alerta deixado num momento em que Bruxelas é cada vez mais arma de arremesso na luta partidária em Portugal.

"Que Europa é esta, rigorosa como lhe compete quanto ao cumprimento das regras orçamentais, mas tão complacente quando, por exemplo, estão em causa princípios fundamentais como a liberdade de imprensa, o direito de asilo, a livre circulação de trabalhadores ou a não-discriminação em função da nacionalidade?", questionou Ferro Rodrigues, acrescentando que "Presidente da República, Parlamento e Governo deverão unir-se estrategicamente por uma Europa de valores, de convergências e de coesão. Numa das tribunas dos convidados, o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Junker ouviu.