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Aliados atacam campo de treino inimigo em Beja... em exercício militar

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NUNO VEIGA / LUSA

No Real Thaw participaram forças portuguesas, dinamarquesas, belgas e holandesas, espanholas e norte-americanas. O ministro da Defesa gostou do que viu. Naquele que é o maior exercício da Força Aérea estiveram este ano 3500 militares, 42 aeronaves e uma força naval

Carlos Abreu

Jornalista

“Right now all the group is on the ground” [Todos os membros do grupo já estão no solo]. A informação é comunicada em inglês, via rádio, por um controlador aéreo avançado que a algumas centenas de metros do alvo mantêm os pilotos dos F-16, lá bem no alto, a par e passo do que passa aqui por baixo. É um exercício militar mas se fosse a sério não seria muito diferente.

Os homens em causa são do Destacamento de Ações Especiais da Marinha Portuguesa e chegaram até aqui – uma casa num campo de treino inimigo – a bordo de helicópteros de transporte AS550 das Força Aérea Dinamarquesa que saem de cena tão rapidamente como entram. Ruidosos. Deixam a aeronave por uma corda (uma técnica conhecida por fast rope) e tomam o alvo de assalto. Se fosse mesmo a sério era pouco provável que o fizessem de dia. Para ver sem ser visto.

Tomado o alvo, estão criadas as condições para a largada de uma força paraquedista que vai fazer o reforço a essa posição no solo, explica ao Expresso o Tenente-Coronel Carlos Lourenço, o piloto-aviador responsável pelo Real Thaw, o maior exercício da Força Aérea portuguesa, que em 2016 cumpre a oitava edição consecutiva.

Os sogas saltaram de dez mil pés mas estão preparados para fazê-lo de bem lá do alto

Os sogas saltaram de dez mil pés mas estão preparados para fazê-lo de bem lá do alto

Carlos Barbosa / Força Aérea

Os primeiros a chegar cá baixo, e por ‘cá baixo’ imagine-se uma planície alentejana junto à Base Aérea n.º 11, em Beja, numa tarde soalheira de inverno; ora bem, os primeiros saltaram de um C-130 da Força Aérea da Bélgica. Paraquedistas portugueses, ou para ser mais rigoroso, como convém, saltadores operacionais de grande altitude (SOGA) da Brigada de Reação Rápida do Exército português. Militares treinados para pular de altitudes não fisiológicas (onde o oxigénio rareia) e seguir em queda livre até abrirem os paraquedas. Fazem-no de 30 mil pés (pouco mais de nove mil metros) percorrendo até 40 quilómetros, consoante condições meteorológicas. Esta terça-feira à tarde o cargueiro belga seguia a dez mil pés (pouco mais de três mil metros). Cá por baixo sopra uma brisa suave mas em altitude não há de ser assim tão suave, obrigando a atenção redobrada. Chegam em segurança. Mas vêm aí mais.

Mais 32 saltam a apenas mil pés de um C-130 português e outros 18 de um C-295. Desta feita, usam um paraquedas automático, que abre assim que deixam a aeronave e demoram menos de um minuto a chegar ao solo. O exercício termina com o lançamento de uma carga de um outro C-130 holandês em tudo semelhante aos que são feitos para ajuda humanitária.

Azeredo Lopes regista o momento sob o olhar atento do recém-empossado chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general piloto-aviador Manuel Teixeira Rolo

Azeredo Lopes regista o momento sob o olhar atento do recém-empossado chefe do Estado-Maior da Força Aérea, general piloto-aviador Manuel Teixeira Rolo

NUNO VEIGA / LUSA

O ministro gostou

A tudo isto assistiram o ministro da Defesa e assessores, deputados, autarcas, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e dos três ramos, Marinha, Força Aérea e Exército. E lá do alto os F-16 que vêm dar um ar da sua graça agora que as largadas chegaram ao fim. Tão ruidosos como espetaculares. Releva o tenente-coronel Lourenço que “conseguem com as capacidades que têm a bordo descobrir possíveis ameaças não só no solo como de outras aeronaves que pretendam impedir o ataque”.

Azeredo Lopes ficou satisfeito com o que viu: “Estes exercícios são importantíssimos para efeito de reforço da interoperacionalidade, quer interna, quer inter-ramos, quer com forças e meios de outros países”, disse aos jornalistas para logo acrescentar: “Quando é possível testar estas capacidades e desenvolve-las num contexto nacional, isso é muito positivo, não apenas pelas razões económicas, que também têm a sua importância, mas sobretudo porque demonstramos aos nossos parceiros a nossa capacidade para planearmos e testarmos aquilo que pode acontecer num teatro de operações.” A velha máxima militar: “Treino duro, combate fácil”.

Durante o exercício os F-16 da Força Aérea Portuguesa estiveram sempre lá por cima para garantir a segurança dos militares no solo. No final, deram um ar da sua graça

Durante o exercício os F-16 da Força Aérea Portuguesa estiveram sempre lá por cima para garantir a segurança dos militares no solo. No final, deram um ar da sua graça

NUNO VEIGA / LUSA

42 aeronaves e uma força naval

Em 2016 o Real Thaw bateu todos os recordes: 3500 militares e 42 aeronaves. Os norte-americanos, que têm marcado presença desde a primeira edição do exercício, em 2009, vieram este ano com três esquadras de F-15, um caça concebido para a luta aérea. Mas também estão por cá espanhóis (com um C-212 Aviocar, de transporte aéreo tático), meios da NATO (um avião radar E-3A AWACS e um de guerra eletrónica DA-20) para além dos já referidos C-130 belga e holandês e dos helicópteros de transporte dinamarqueses AS550.

Em comunicado enviado às redações ao final da tarde, a Marinha informa que também está a participar no exercício com uma força naval “composta pela fragata Bartolomeu Dias (navio-chefe) e pelo reabastecedor de esquadra Bérrio” que largaram da Base Naval de Lisboa segunda-feira, dia 29 de fevereiro. Diz ainda que “participam ainda neste exercício outros meios da Marinha, designadamente a fragata Álvares Cabral, o submarino Arpão, uma Força de Fuzileiros e um grupo do Destacamento de Ações Especiais [os DAE que tomaram de assalto a casa], num total de 680 militares”.

Nada disto consta da informação entregue pela manhã aos jornalistas onde podia ler-se que o centro de coordenação estava instalado na Base de Beja mas as ações desenrolaram-se, na sua maioria, a norte e centro do continente. De manhã e à noite são executadas as menos complexas “onde o elemento parelha (dois aviões) é dominante” e à tarde, “decorrem as missões com muitos meios envolvidos”, como aquela a que Azeredo Lopes assistiu esta terça-feira. No Aeródromo Municipal de Seia, está instalada uma “base aérea tática” de apoio às operações aéreas e terrestres e foi de lá que descolaram os helis dinamarqueses. E assim tem sido desde 21 de fevereiro até esta quinta-feira, dia 3 de março.

Ministro da Defesa cumprimenta o controlador aéreo avançado da Força Aérea na presença do Tenente-Coronel Carlos Lourenço. Especialidade pouco conhecida pela opinião pública, estes militares infiltrados em território inimigo e em contacto permanente com os pilotos dos caças, desempenharam um papel fundamental, por exemplo, no Afeganistão

Ministro da Defesa cumprimenta o controlador aéreo avançado da Força Aérea na presença do Tenente-Coronel Carlos Lourenço. Especialidade pouco conhecida pela opinião pública, estes militares infiltrados em território inimigo e em contacto permanente com os pilotos dos caças, desempenharam um papel fundamental, por exemplo, no Afeganistão

NUNO VEIGA / LUSA

Se Maomé não vai à montanha…

“É possível encontrar o cenário que criamos neste exercício noutros no estrangeiro, onde eventualmente poderíamos participar. Mas como temos mais dificuldades de por os nossos pilotos a participar nesse tipo de eventos, nestes últimos oito anos criámos uma forma de conseguir atrair forças estrangeiras para virem para Portugal treinar connosco”, disse ao Expresso Tenente-Coronel Carlos Lourenço.

“E não ficamos nada a dever a quem nos visita. Mas mesmo nada. A todos os níveis: dos caças aos aviões de transporte passando pelos helicópteros”, acrescenta o militar.

“Neste momento, com os recursos disponíveis conseguimos garantir um bom nível de desempenho e de qualidade naquilo que fazemos. Rentabilizamos ao máximo os recursos disponíveis”, remata este oficial assegurando que para o ano há mais.

Paraquedistas portugueses saltam de C-130 belga. Aliados NATO com o mesmo modus operandi. Para o ano há mais

Paraquedistas portugueses saltam de C-130 belga. Aliados NATO com o mesmo modus operandi. Para o ano há mais

NUNO VEIGA / LUSA