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Carlos Costa: Novo Banco público? “Cabe ao Governo tomar essa decisão”

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Luís Barra

O novo Banco será vendido se o Governo assim o decidir. Para isso terá de falar com Bruxelas. Carlos Costa diz ser um mero executante de uma política definida

João Vieira Pereira

João Vieira Pereira

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Diretor-Adjunto

Ricardo Costa

Ricardo Costa

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Diretor de Informação da SIC

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

O tempo tem dado razão ao modelo defendido por Vítor Bento para o BES?
Uma coisa é o que gostaríamos, outra é o enquadramento europeu.

E outra ainda é o que o tempo nos demonstra...
Primeiro, tínhamos de trabalhar com os dados fornecidos pela Direção-Geral da Concorrência, que diziam ser precisos dois anos para proceder à venda do banco e tínhamos que mostrar que éramos diligentes para justificar qualquer alargamento do prazo, o que foi feito, porque nos deram um ano adicional. Um ano que tem custos, porque implica medidas e remédios adicionais. Se não tivéssemos sido diligentes teríamos entrado na fase em que temos uma autoridade europeia de resolução, que seria um período de maior incerteza do ponto de vista da condução do processo. Segundo, estou muito agradecido a Vítor Bento pelo facto de naquele dia ter aceitado continuar à frente do banco de transição. Terceiro, as relações entre mim e Vítor Bento sempre foram de uma grande cordialidade. Ele teve o apoio de que necessitava, sempre que o pediu, e houve momentos em que achou que o projeto não o entusiasmava e pediu para ser substituído.

“Não o entusiasmava” é um eufemismo. Era um projeto do qual discordava.
Os cinco anos que ele defendia não eram, e ainda hoje não são, compatíveis com as regras da DG Concorrência.

Esta semana, Vítor Bento abriu uma discussão sobre se o Novo Banco não deve ficar no sector público.
O Banco de Portugal, como autoridade de resolução, executa um mandato. Esse mandato resulta da carta de compromissos que o Governo subscreve junto da Comissão Europeia e da DG Concorrência. Neste momento, temos uma carta de compromissos que nos obriga a ser diligentes no processo de venda. Se a carta de compromissos for alterada num outro sentido, o Banco de Portugal agirá da forma mais diligente possível para a implementar.

Portanto, se o Governo quiser que o Novo Banco fique na esfera do Estado, deve falar com Bruxelas.
Tem de falar com Bruxelas.

Não está a dar a sua opinião sobre se o Novo Banco deve ficar no Estado...
O que estou a dizer é que isso é uma matéria de policy [políticas públicas] e que está fora do mandato do governador do Banco de Portugal, que será um executante empenhado, diligente e leal das decisões que forem tomadas. Eu não posso optar nem por uma coisa nem por outra, cabe ao Governo tomar essa decisão.

O impacto da venda do Novo Banco pode implicar aumentos de capital nos outros bancos?
Não. O princípio é de que o Fundo de Resolução fique com um crédito sobre os bancos que vai sendo amortizado ao longo do tempo, à medida que for sendo paga a taxa sobre os bancos.

Quanto é que o Novo Banco vai custar aos contribuintes?
Não vai custar aos contribuintes, vai custar aos bancos.

Então vai custar aos clientes dos bancos?
Mas isso resulta do sistema de mutualização.

Já pagámos demasiados bancos…
Se me der um endereço na lua para onde se possa enviar a fatura, eu mando.

Quanto é que se vai perder no Novo Banco?
Não podemos saber. Se aplicarmos as taxas de desconto que estão em vigor no mercado, como o capital do banco anda pelos €6 mil milhões, o valor pode andar na ordem dos €3 mil milhões. O que compara com os €4,9 mil milhões.

Ou seja, uma perda de dois mil milhões de euros. Continua convencido que a resolução foi a melhor solução?
Eu tinha de assegurar que, no dia seguinte, segunda-feira, 4 de agosto [de 2014], o financiamento à economia continuava, que a confiança dos depositantes continuava intacta, que os depósitos se encontravam protegidos e que não havia nenhum cataclismo na sociedade e na economia portuguesa. A verdade é que as pessoas continuaram na praia. A verdade é que não houve nenhuma corrida. A verdade é que o banco recuperou a sua credibilidade. Posso dizer-lhe mais, uma das constatações que resulta dos processos de venda anterior e do processo que está em curso é que a franchise do banco, na sua atividade nuclear, é forte e muito apreciada por eventuais adquirentes. É um ativo muito apetecível.