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Barroso.“UE tem as costas largas, mas são os países que decidem”

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LUSA

Ex-líder da Comissão Europeia lamenta que os Estados-membros façam a “europeização dos fracassos” e a “nacionalização dos sucessos”. Na sua visão falta liderança política no velho continente. Já António Guterres considera que embora se tenham registado “ganhos extraordinários” nos últimos anos há um “défice de solidariedade” na Europa

“A situação na Síria é uma mancha na consciência universal”, diz Durão Barroso. O antigo presidente da Comissão Europeia acredita que o conflito no país ainda vai piorar antes de melhorar e lamenta que exista um bloqueio nas Nações Unidas (ONU) a impedir uma solução.

“As Nações Unidas são aquilo que os países e os governos querem que elas sejam. O que bloqueia neste caso a situação na Síria é o facto de os membros do Conselho de Segurança estarem muito divididos”, afirmou Durão Barroso, na noite desta segunda-feira, num debate sobre o estado do mundo, promovido pela Revista XXI da Fundação Manuel dos Santos e a RTP.

O antigo primeiro-ministro defendeu que Vladimir Putin tem uma agenda de conflito de de confronto, que se opõe aos valores da União Europeia. “A Rússia está com força e agenda própria na Síria e o Ocidente sem estratégia”, lamentou.

António Guterres sublinhou que a guerra na Síria não é apenas uma questão religiosa, estando também presente uma dimensão política. O candidato a secretário-geral da ONU sustentou que quando se enfrenta uma ameaça como o terrorismo internacional há que procurar uma resposta, “mas isso tem de ser feito com base nos pilares que construíram a União Europeia.”

Para Guterres, hoje em dia o terrorismo aparece muitas vezes associado a falsas interpretações do Islão, sendo necessário abrir mentalidades e promover sociedades multiculturais.

“A forma como os países ocidentais se relacionam com o Islão é decisiva para o nosso futuro. Se não conseguirmos ter êxito para a coesão social em sociedades multicultural e multirreligiosas, colocamos em causa o nosso futuro coletivo. Isso é vital”, referiu.

“Tendo em conta a tradição da União Europeia, acho que a Europa está em boa posição”, acrescentou.

Por seu turno, Durão Barroso salientou que é comum afastar as responsabilidades dos Estados-membros na resolução dos problemas globais. “ A UE tem as costas largas, mas são os países que tomam as decisões. Os Governos gostam de fazer europeização dos fracassos e nacionalização dos sucessos”, atirou.

Afirmando que a Europa está mais forte do que há duas décadas, o ex-líder da Comissão Europeia apontou a falta de liderança política como o principal problema.

“Estou de acordo com esta visão de que há um tendência para atribuir as coisas que correm mal à UE e as que correm bem aos países”, concordou Guterres.

O ex-alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados considerou que a Europa devia estar nesta altura mais unida do que nunca, mas os Estados-membros têm dificuldades para se entenderem.

“A minha convicção é que, apesar de tudo, é notável o que a Europa conseguiu nestas décadas. Há ganhos extraordinários mas há um défice de solidariedade terrível na Europa.”

“Seria muito mau se o Reino Unido saísse”

Sobre os problemas que o velho continnete enfrenta - como a crise dos refugiados e um possível “Brexit”, Guterres mostra-se otimista quanto às soluções. “Não acho que vai colocar em causa ou acabar com a UE. A história mostra que quando há um problema grande se resolve no último instante”.

Durão Barroso não tem dúvidas de que a saída do Reino Unido da União Europeia teria graves consequências para o bloco, esperando bom-senso por parte do país liderado por David Cameron. “Só espero que o povo inglês que é um povo pragmático, com senso comum, perceba no final que não há razão para mudar.”

Garantindo que a UE não será num futuro próximo os Estados Unidos da Europa, Barroso realçou também a importância da multiculturalidade. “Somos povos distintos, diferentes culturas”. No caso de qualquer problema, “a Europa é [sempre] a parte da solução”, conclui.