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Cansado, eu?

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Guterres recebeu o “entusiástico apoio” do PSD: “Não posso pedir mais”

Alberto Frias

Balsemão falou em “cavalos cansados” mas Passos vai à luta. Chumba o OE e não dá troco a António Costa

Cristina Figueiredo

Cristina Figueiredo

Jornalista da secção Política

Ninguém quer comentar em on mas as palavras de Francisco Pinto Balsemão, fundador e militante nº 1 do PSD, quando considerou que Passos Coelho é um “cocheiro frustrado” que tem “os cavalos cansados”, animou as conversas nos bastidores do partido. A frustração do líder por ter ficado na oposição depois de ter ganho as eleições é inequívoca. Mas ninguém quer assumir cansaço — pelo contrário, com a perspetiva de ver a “geringonça” partir e Passos a ser chamado a eleições antecipadas, o partido cerra fileiras. E sinaliza estar a preparar-se para um embate de frente com o PS.

Primeiro sinal: o PSD vai chumbar o primeiro Orçamento do Estado de António Costa e nem sequer vai apresentar propostas de alteração ao documento. Passos quer aproveitar o conturbado processo orçamental vivido pela esquerda na relação com Bruxelas para deixar muito claro que o que o atual Governo está a fazer não é alterar algumas coisas do que ele fez, é inverter o rumo. Com custos para o país que o próprio Passos se encarregou esta semana de dramatizar. Ao apelo lançado por Costa em entrevista ao Expresso para consensos com o PSD, respondeu com um rotundo “não”.

“Não nos venham exigir, em nome do nosso sentido de responsabilidade, que apoiemos os programas que querem reverter tudo o que fizemos e culpar-nos de todo o mal que existe no país, isso não”, afirmou Pedro Passos, “haja pelo menos o decoro de não nos pedirem apoio para combater as nossas ideias e desfazer o que nós fizemos”. A lógica é mesmo de “embate frontal”. “Estou a fechar a porta. O Partido Socialista fez a sua opção e viverá com ela”, afirmou José Matos Correia, vice-presidente de Passos, na Rádio Renascença: “Se um Orçamento não for aprovado em Portugal é porque o PS não fez as opções que devia.”

Já não se fala “do” Orçamento, fala-se de “um” OE. Se não for este, que parece já ter passado, será um outro em que, antecipam na direção do PSD, os comunistas (pelo menos) dificilmente darão a mão a medidas adicionais de austeridade que Costa seja obrigado a pôr na mesa quando a execução deste Orçamento fizer soar as campainhas.

Nas Jornadas Parlamentares do partido que ontem terminaram em Santarém, Pedro Passos Coelho falou do PS como um partido que “enquanto há dinheiro, gasta-o, e quando não há, faz o milagre da multiplicação das rosas”. E falou do Orçamento do Estado como uma nuvem de incertezas: “O que o Parlamento vai discutir ainda não é o verdadeiro Orçamento. É a versão B de uma versão A e ficaremos a aguardar uma versão C, sem saber que novos arranjos vêm aí.” Muito duro com António Costa pela forma como este tem vindo a criticar o governador do Banco de Portugal, Passos considerou “inaceitável” o ataque do primeiro-ministro ao governador, e disse ver sinais de alguém que “precisa de comandar tudo e ter quem lhe obedeça”.

“Vem aí coisa séria”

A ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, entrou na jogada de forma diplomática. “Normalmente, um Orçamento do Estado é ou deve ser um elemento fundamental na definição da estratégia de política económica. Eu queria saber se na versão atual do Orçamento conseguem descortinar alguma”, afirmou no primeiro dia das Jornadas. No segundo, deixou a pergunta: se as medidas adicionais, a que o Governo chama contingência, não vão ser mesmo aplicadas.

Dois economistas convidados para as Jornadas ajudaram a enquadrar o discurso de alarme sobre as consequências do caminho escolhido pelo Governo socialista. João César das Neves foi mais taxativo, dizendo que “está-se à beira de um novo resgate em Portugal, e certamente uma crise muito mais vasta do que isso”. Isto agravado pelo facto de a Europa estar “fragilizadíssima e, portanto, estamos por meses de vir aí uma coisa mesmo séria”. Também João Salgueiro considerou que um novo resgate “pode ser inevitável”.

O líder parlamentar, Luís Montenegro, também foi duríssimo no ataque ao atual Governo e ao primeiro-ministro, que acusou de querer ser “o novo dono disto tudo”, numa alusão a Ricardo Salgado. Em causa estavam as crítica de António Costa ao governador do Banco de Portugal, que Montenegro considerou “vergonhosas e despudoradas”. No que pareceu um ensaio de uma crescente comparação entre Costa e Sócrates, o líder da bancada acusou o atual primeiro-ministro de estar a criar no país um clima de “asfixia democrática”. Decididamente, não há sombra de clima para consensos.

Apoio total a Guterres

O mau ambiente entre PSD e PS não interfere minimamente no apoio incondicional que Pedro Passos Coelho, como líder do partido, quis manifestar à candidatura de António Guterres a secretário-geral da ONU. Guterres foi o convidado de honra das Jornadas, Passos manifestou-lhe o “entusiástico apoio do PSD”, fez votos para que a sua candidatura seja “bem-sucedida”, e garantiu que “seria uma honra” se ele fosse eleito, convicto que “acrescentaria alguma coisa às Nações Unidas” e daria “boa conta do recado”.

Guterres agradeceu o apoio “preciosíssimo”, e frisou que a solidariedade recebida “foi não só em relação ao PSD, mas à família europeia a que o PSD pertence”. “Por isso — disse — não me atrevo a pedir mais.” Teve vários deputados a fazerem-lhe perguntas, num serão que perdurou e onde não se falou de política nacional.