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Guterres teme por uma Europa desunida

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PAULO CUNHA / LUSA

O candidato a secretário-geral das Nações Unidas critica a atitude europeia na resolução de conflitos e defende uma parceria entre UE e Turquia na “dramática” situação dos refugiados

“O que eu vou dizer agora só me compromete a mim próprio: eu sou um federalista europeu, frustrado, mas sou um federalista europeu. E acho que a Europa atravessa uma fase da sua história em que só tem hipótese de ser relevante à escala mundial se estiver unida.” Foi assim que António Guterres se manifestou na passada quinta-feira, durante as jornadas parlamentares do PSD, contra o que diz ser a atual “corrente de renacionalização das políticas” europeias.

Durante o discurso em Santarém, Guterres reiterou que “tudo o que seja ter mais Europa faz sentido” e defendeu sistemas europeus de asilo e imigração. “Não é preciso ir muito longe na redução de soberania dos estados para isso”, afirma o ex-Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.

Consciente de que está “um bocadinho contra a maré” nesta temática, Guterres mostra-se preocupado. “Acho que as opiniões públicas têm evoluído num sentido de cada vez mais desconfiarem de que a Europa é a solução para os problemas que têm”, considerou.

Neste contexto, o candidato ao mais alto cargo da ONU condenou a falta de regulação internacional e os obstáculos à circulação de pessoas, referindo que o mesmo não acontece com a circulação de dinheiro e de bens e serviços.

“Ou nos unimos todos, ou a Europa perderá relevância”

Sobre as políticas de resolução da crise dos refugiados e a integração da Turquia na União Europeia - temas “quentes” para os deputados do PSD presentes - Guterres foi peremptório nas suas visões.

Apontando as migrações como “indispensáveis” às sociedades envelhecidas europeias, como a portuguesa, António Guterres declarou-se a favor da “criação de vias regulares de movimentos migratórios, como fazem países como Canadá e Austrália”, e propôs também alterações à cooperação económica tendo em conta a mobilidade humana.

Em 2011, 11 mil pessoas fugiam da guerra diariamente; em 2014, já são mais de 42 mil. Para o antigo primeiro-ministro socialista, a evolução destes números é “dramática” e a solução tem de passar por uma parceria da União Europeia com a Turquia.

“[A parceria] é, do meu ponto de vista, uma questão absolutamente central para enfrentar esta crise, como muitos outros aspetos do relacionamento da Europa com a sua vizinhança”, defendeu Guterres, que não se opõe a uma eventual entrada dos turcos na UE, estejam cumpridos os requisitos para tal.

Com as duas maiores forças políticas do país juntas na candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, Guterres procura agora o apoio das famílias europeias destes partidos.

Na hora de pensar o futuro, mantém a sua visão federalista, com um grande aviso e pouca frustração. “Ou nos unimos todos para enfrentar os desafios do futuro, ou a Europa perderá progressivamente relevância no quadro internacional. Essa para mim é uma evidência.”