Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

“Governo não é de esquerda. E falta muito para ser de centro-esquerda”

  • 333

Arménio Carlos, na quarta-feira, na sede da CGTP, em Lisboa, horas depois de ter sido recebido pelo primeiro-ministro

Tiago Miranda

O líder da CGTP põe reservas mas dá luz verde a Costa. Garante, porém, que a central nunca baixará a guarda

Rosa Pedroso Lima

Rosa Pedroso Lima

Texto

Jornalista

Paulo Paixão

Paulo Paixão

Texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotos

Fotojornalista

Em vésperas do XIII Congresso da CGTP (em Almada, dias 26 e 27), o secretário-geral da central sindical aponta as razões pelas quais este Orçamento deve ser aprovado (apesar de poder ser melhorado), aplaude o acordo das esquerdas e defende a necessidade de mudar a Concertação Social. Na quarta-feira, horas após ter sido recebido por António Costa, Arménio Carlos falou ao Expresso dos novos desafios da CGTP, num quadro político que admite ser “dos momentos mais aliciantes” da sua vida. Excertos de uma longa conversa com o homem que vai iniciar o seu último mandato à frente da CGTP.

OE: apesar de tudo, sim

“Neste momento, o que se justifica é a aprovação do Orçamento”, pois “há sinais de inversão das políticas desastrosas” dos últimos anos. A conclusão é de Arménio Carlos, mas tal não significa que o OE existente seja perfeito e muito menos que não possa ser melhorado, “dando prioridade às medidas de ordem social e laboral”. Olhando para o documento, o líder da CGTP identifica “três omissões de matérias fundamentais”: necessidade de desbloquear a contratação coletiva; urgência de reverter outras “normas gravosas da lei laboral”; e saída do atual modelo de desenvolvimento económico, que é “gerador de desigualdades” e “perpetua os baixos salários e o trabalho precário”.

A central sindical defendeu o aumento do salário mínimo para 600 euros (com efeitos a janeiro), o fim da sobretaxa e o regresso às 35 horas de trabalho semanal no Estado. Nada foi garantido a 100% ou já concretizado. “O Governo ficou aquém das expectativas”, reconhece Arménio Carlos. “Terá sido uma meia derrota?” O secretário-geral da CGTP contorna a questão, admitindo que “pressões, chantagem e ingerências externas” sobre Costa foram muitas. Mas, em todo o caso, o Governo “devia ter batido mais o pé a Bruxelas”.

Ainda longe da esquerda

Arménio Carlos nega ter tido qualquer papel na concretização do acordo da esquerda, tanto como líder da CGTP como membro do Comité Central do PCP. “Não fui ouvido nem tinha de ser”, garante. Mas reconhece que a central sindical se empenhou na queda do segundo Governo de Passos Coelho e na conquista de uma “alternativa capaz de levar a cabo uma mudança política”.

Por isso, a CGTP recebeu com “satisfação” a solução que permitiu a posse de António Costa, mas não baixa a guarda: “Não estamos cá para apoiar nenhum governo”.

Este é um Governo de esquerda? Arménio Carlos responde: “Este não é um Governo de esquerda. Bom, o PS está à esquerda do PSD e do CDS e é óbvio que este Governo não é igual ao outro. O problema é que a social-democracia que conhecíamos na Europa foi completamente apropriada pela linha neoliberal. Torna-se agora difícil distinguir os partidos socialistas”.

Mas se não é de esquerda, este Governo é ao menos de centro-esquerda?

“Não. Tem de trabalhar muito para ser um Governo de centro-esquerda e procurar repor uma visão da social-democracia que anteriormente existia”.

Bloco sobe à direção?

Arménio Carlos nega que tenham chegado à CGTP quaisquer ondas de choque do ambiente crispado entre comunistas e bloquistas (durante as negociações do acordo e, mais recentemente, após as presidenciais). “As tensões entre PCP e BE não se têm refletido aqui”.

Mas o confronto pode colocar-se em breve. A CGTP, dominada de forma esmagadora pelos sindicalistas comunistas, inclui três correntes: os socialistas, atualmente com 20 dos 147 lugares do Conselho Nacional, e os católicos e os bloquistas, com meia dúzia de assentos cada. Das várias tendências, apenas o BE está fora dos órgãos executivos, algo que já reivindicou, e que será decidido no congresso. Arménio Carlos não fecha a porta, mas diz que ainda é cedo, pois trata-se ainda de “uma questão em aberto”. E deixa um recado: “Não confundo discussões partidárias com discussões político-sindicais. A correlação de forças no plano político não pode ser relacionada com a correlação no plano sindical”. Mas há um muro a separá-las? “Não, de forma nenhuma, e por isso estamos a trabalhar”.

Fechada está a porta ao reforço do “direito de tendência”, reclamado por correntes minoritárias, que exigem mais meios para o seu funcionamento autónomo dentro da central. “O direito de tendência não é relevante. A Intersindical foi constituída com comunistas, católicos, socialistas e independentes. Isso é para nós algo de sagrado, que importa preservar, ainda que por vezes tenhamos discussões duras. É uma obrigação de qualquer comunista preservar e assegurar a unidade”.

Manter o pé no acelerador

Sampaio da Nóvoa prometeu um “Tempo Novo” nas presidenciais, mas quem verdadeiramente vive um tempo novo é a CGTP. Durante mais de quatro décadas, esteve sempre contra o Governo de turno (em várias combinações dentro do arco da governação). Agora a central sindical lida com um Governo do PS que é apoiado no Parlamento por deputados do PCP e do BE. Como é que se muda o chip? Num primeiro momento, Arménio Carlos reage na defensiva. “Nós não mudamos o chip”. Mas, depois, responde mais calmamente à questão. Primeiro, enquadra-a numa perspetiva individual: “É uma situação aliciante que vivemos agora. Do ponto de vista pessoal, é dos momentos mais interessantes da minha vida sindical”.

Sobre o papel da CGTP, considera que se vive uma “nova fase, com potencialidades e desafios que justificam uma atenção ainda mais cuidada” da central, tanto na sua “intervenção na sociedade como na relação com o Governo e os partidos que constituem a maioria no Parlamento”. Mas esta viragem na política portuguesa não é “uma mudança que venha facilitar a vida” da CGTP. “Pelo contrário, abre novas perspetivas de negociação sobre assuntos vários, e obriga-nos a ser cada vez mais exigentes no trabalho que fazemos. Precisamos de ter mais rigor e mais criatividade, temos de ser mais ousados porque o nível das expectativas aumentou e é preciso dar resposta a novas necessidades. Sem nunca abrandar a pressão. É esse desafio que temos pela frente”.

Neste novo quadro, haverá “uma CGTP mais light?”. Arménio corta rente tal ideia: “Light é coisa que nunca fomos nem seremos”.
A greve da Função Pública, há duas semanas, evidenciou, de facto, o mesmo sindicalismo hard. Arménio diz que a iniciativa “cumpriu o seu papel”, tendo mostrado que da parte dos trabalhadores “existe um sentimento da necessidade da reposição das 35 horas. E o Governo percebeu que a melhor via para resolver o problema é retomar rapidamente a negociação e deixar as generalidades e as questões filosóficas de lado”.

Há muita vida para lá da Concertação

A CGTP sempre insistiu que a Concertação Social era usada pelo Governo para avalizar medidas já predefinidas, e isso foi mais evidente nos últimos quatro anos. Agora, irá a central sindical valorizar a Concertação (como defende o Governo do PS), ou pelo contrário tentará esvaziá-la? “A nossa posição continua a ser a mesma: estamos disponíveis para negociar e para dialogar. Continuaremos a estar lá, com grande frontalidade e para expor as nossas propostas. Mas não fazemos ou faremos do Conselho Permanente da Concertação Social o espaço sacrossanto da discussão dos problemas dos trabalhadores. Há outras instâncias que importa valorizar, como a Assembleia da República, e os espaço de diálogo bilateral com o Governo e com as organizações patronais, assim como a mesa da negociação coletiva. Até neste ponto temos um défice”, diz Arménio Carlos.

O líder da central sindical sublinha ainda: “Não se pode falar em diálogo social, quando aquilo que o suporta — a negociação coletiva —, está bloqueado por via de alterações legislativas. E não há um diálogo social sem a valorização da contratação coletiva”.