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Quebra de voluntários alarma Forças Armadas

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Marcos Borga

Há cada vez menos jovens a procurar as FA. Os que ficam saem ao fim de pouco tempo. O nível pode vir a tornar-se crítico

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

São cada vez menos os jovens que procuram as Forças Armadas, que desde 2004 funcionam em regime de profissionalização, com contratados e voluntários. A tendência é agravada pelo facto de muitos dos que optam por ficar saírem ao fim de pouco tempo.

A situação chegou ao ponto de haver já quem comece a reclamar o restabelecimento do serviço militar obrigatório (SMO), mas a hipótese é descartada na Defesa, que prefere pôr a tónica na melhoria do recrutamento. Este ano, aliás, o Ministério da Defesa vai lançar um estudo sobre a situação dos contratados e voluntários, para avaliar o atual modelo de profissionalização e sustentar eventuais medidas.

Dados oficiais indicam que, atualmente, a média é ligeiramente superior a três candidatos por cada vaga, um limiar considerado crítico por alguns especialistas. Por outro lado, o tempo médio de permanência nas fileiras encurtou-se, embora dependendo dos ramos. Um contratado pode estar até seis anos nas Forças Armadas (FA), mas no Exército (o ramo que mais depende de voluntários) e na Marinha esse tempo situa-se entre dois a quatro anos. Na Força Aérea, o tempo já sobe para os cinco ou seis anos.

Os números confirmam a quebra consistente: entre 2012-2015, o número de contratados e voluntários diminuiu em mais de 3600, ajudando a reduzir os efetivos. Mas as razões para as saídas dos militares contratados são imputadas em parte à falta de atividade dos ramos no mercado de trabalho e à sua perda de importância enquanto “geradores de ofertas profissionais”.

A questão pode tornar-se crítica já este ano, porque devido à falta de renovação dos efetivos, será necessário incorporar mais gente. Atendendo ao limite dos seis anos, sairão agora os contratados de 2010, um ano de grandes incorporações. Só do Exército sairão 2000 pessoas (2750 no total das FA). Os dados indicam que, para repor as faltas, a incorporação no Exército devia ser em 2016 de mais de 4500 pessoas (5800 no total).

Fontes militares referem que o maior problema reside na diminuição da base de recrutamento, consequência da baixa de natalidade, que se faz sentir em particular no Interior e a Sul. Por outro lado, a baixa forma física dos jovens, em termos atléticos (muita consola e fast food), acrescida de problemas de visão e audição (computador e auscultadores) elimina uma boa parte dos candidatos. O grosso dos quais sai ao fim da primeira ou segunda semana, quando começam os treinos físicos. E os outros saem em catadupa quando abrem os concursos da GNR e da PSP, que oferecem carreiras.

Os incentivos da formação em especialidades não combatentes também deixam a desejar. Segundo Helena Carreiras, especialista em assuntos de Defesa, muitos desses cursos não estão credenciados e nada é feito oficialmente para ajudar os jovens a integrar o mercado de trabalho. A socióloga defende que se deve apostar numa melhor comunicação aos jovens, em primeiro lugar, depois na credenciação da formação profissional nas FA e, finalmente, num plano de reinserção laboral, quando saem das fileiras. Quanto ao SMO, nunca mais: “não faz sentido”.