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Marcelo. A bala perdida da política portuguesa

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Marcos Borga

É genial mas tem pouca experiência executiva, transpira política mas não sabe de finanças, possui uma carreira fabulosa mas só agora pode entrar para a História. Um solista com um país pela frente

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Adivinhar o que pode ser um mandato presidencial é praticamente impossível. Tentar estender esse exercício a dois mandatos, que todos os Presidentes cumpriram até hoje, é, além de impossível, inútil. Basta pensar um pouco no que foram os mandatos dos Presidentes que tinham um enquadramento político definido. Com exceção de Ramalho Eanes — que, além de ser o primeiro Presidente eleito, chegou a Belém por via da sua impecável folha de serviço militar e com um conjunto de apoios irrepetível —, tanto Mário Soares como Jorge Sampaio e Cavaco Silva eram perfeitamente enquadráveis e aparentemente previsíveis.

Soares, Sampaio e Cavaco tinham sido líderes partidários, dois deles haviam chefiado governos e faziam o pleno das suas áreas políticas. Soares e Cavaco eram, a todos os níveis, Presidentes naturais. Com tudo o que os separava, eram (e ainda são) os dois políticos mais importantes do pós-25 de Abril. Tinham trajetos sólidos, ideias conhecidas, amigos e inimigos traçados. Jorge Sampaio não tinha a experiência executiva dos dois, mas era um dos mais importantes líderes estudantis dos anos 60 e protagonizara o primeiro processo de coligação entre o PS e o PCP no pós-25 de Abril, ganhando a Câmara de Lisboa contra todas as previsões e contra... Marcelo Rebelo de Sousa. Ora, estes três Presidentes perfeitamente enquadráveis e aparentemente previsíveis fizeram dezenas de coisas inesperadas. E as suas passagens pelo Palácio de Belém ficaram marcadas por isso.

Simplificando: alguém imaginava em 1986 que Mário Soares acabaria por dissolver o Parlamento um ano depois contra a vontade dos partidos que contribuíram para a sua vitória, abrindo assim caminho a duas maiorias absolutas de Cavaco Silva? E houve analistas capazes de antecipar em 1996 que Jorge Sampaio poderia aceitar que Durão Barroso se mudasse para Bruxelas em 2004, deixando o lugar a Santana Lopes sem eleições e provocando a demissão do seu amigo de sempre Ferro Rodrigues da liderança do PS? E alguém seria capaz de dizer sem se rir, em 2006, que Cavaco Silva deixaria o Palácio de Belém dez anos mais tarde, depois de dar posse a um governo minoritário do PS apoiado pelo PCP e pelo Bloco? Ninguém, nem mesmo o melhor comentador político português do pós-25 de Abril, o tal que perdeu eleições para Sampaio em 1989 mas que agora entra pelo Palácio de Belém sem sobressaltos ou obstáculos. Limpou-os todos da frente, muitos sem sequer mexer um medo, outros com um ligeiríssimo esforço. E agora?

José Carlos Carvalho

Marcelo Rebelo de Sousa não é fácil de prever, como o próprio sabe melhor do que ninguém. Ele é a bala perdida da política portuguesa, com trajetória própria e leis de uma física à parte. Já fez algumas tangentes institucionais na vida, mas os momentos de maior brilho foram sempre a solo, de preferência sem contraditório e com algo de lúdico à mistura, numa linha irrepetível e que muitos se recusam a levar a sério. Como todas as balas perdidas, ninguém sabe bem de onde vem, muito menos onde vai parar.

Mas, agora, essa trajetória foi de encontro ao mais institucional dos cargos, onde tudo o que se diz não pode ser matizado ou suavizado na semana seguinte, onde as coisas têm horas marcadas e protocolos fixos, onde há alturas para usar fraque e outras para vestir casaca, onde não há sítio para se olhar para cima ou tentar fugir em frente. Do Palácio de Belém só se olha para baixo, e o problema é que há sempre gente a ver tudo o que o inquilino faz.

O último exame de Marcelo é o fim da história da bala perdida e o começo de outra, necessariamente diferente, menos divertida e mais institucional. É outra coisa, como se tudo o que tivesse feito até agora fosse uma espécie de grande ensaio geral, uns jogos de futebol de praia antes de pisar um relvado a sério, um infindável aquecimento para a sua prova de vida. Parece injusto reduzir a carreira dele a isso. Até porque se estaria, em simultâneo, a esquecer o seu imenso peso como professor universitário e jurista, o seu papel na criação de projetos jornalísticos (a começar pelo Expresso) e as suas entradas e saídas da política, com uma liderança partidária no currículo e muitas medalhas e feridas na lapela. Mas a verdade é que nada disso chega aos calcanhares do desafio que agora tem pela frente. Porque, para Marcelo, ganhar foi o mais fácil. Agora é a sério e sem recuo. E sem hipótese de provocar uma segunda impressão.

luís barra

À procura de um lugar na História

Um mandato presidencial é sempre algo que se pode analisar com relativa justiça. Com a largueza de Soares ou o rigor de Cavaco, a austeridade de Eanes ou os formalismos de Sampaio, tudo pode ser visto, analisado, somado e subtraído. Os estilos dão o tom, mas tem de haver substância, trabalho, obra feita, sucessos e insucessos. A análise pode ser conduzida à lupa ou ao largo, mergulhando em discursos ou em estatísticas, aprofundando intervenções ou formas de estar na rua, mensagens de Natal ou condecorações. Mas, no fim, vai tudo dar ao mesmo, e os mandatos são analisados, comparados, metidos em artigos de jornais, em livros emprateleirados e, por fim, na História.

Marcelo sabe que esta é a sua oportunidade de entrar para a História. Eanes já lá estava com o 25 de Novembro (e não só) antes de franquear os portões de Belém. Soares também, por tudo o que andava à volta do pós-25 de Abril e da adesão à União Europeia. Cavaco idem, pelas maiorias absolutas e pela modernização e normalização do país no pós-revolução. Sampaio igualmente, quanto mais não seja pelas lutas académicas que marcaram gerações de estudantes. Marcelo sabe que ninguém entra para a História por ser um grande comentador político ou o mais adorado dos professores de Direito. Vai ter de tratar disso agora, no mais importante e difícil dos lugares. Com uma única vantagem: a Presidência da República é um cargo unipessoal, e Marcelo, já se sabe, não nasceu para outra coisa. Ele é bom como solista, sozinho no palco ou bem destacado da orquestra e com os holofotes todos em cima dele.

As principais vantagens de Marcelo Rebelo de Sousa são as duas coisas onde Cavaco Silva mais falhou. A primeira é a popularidade, a segunda a ausência de proteção de uma equipa, grupo, partido ou classe. Cavaco forjou toda a sua carreira política nesses dois pilares. Ao contrário do que hoje se diz, Cavaco foi muito popular, e isso não se media apenas nas suas sucessivas vitórias eleitorais (foi o único político português com quatro votações acima dos 50%). Na rua, essa popularidade era bem visível para quem o acompanhava, mesmo no seu primeiro mandato presidencial, onde os banhos de multidão ainda eram regulares. Só no segundo mandato, sobretudo depois das declarações sobre os cortes aos pensionistas e da primeira vaia em Guimarães, é que a maré virou. E foi aí que o segundo pilar lhe fez uma falta absoluta.

Tiago Miranda

Enquanto primeiro-ministro, Cavaco Silva rodeou-se de uma mão-cheia de políticos formidáveis, capazes de o defender em inúmeras situações, no grupo parlamentar, no partido ou no governo. Os seus braços-direitos eram um prolongamento da sua figura política e resguardavam-no de quase tudo. Cavaco era o homem que trabalhava, que cuidava dos destinos do país e que só aparecia quando era preciso. Em Belém, não havia nada disso: nem ministros, nem deputados ou vices, só mesmo o Presidente. Era ele e o mundo, ou ele contra o mundo, ou o mundo contra ele.

Cícero em Belém

Essa vai ser a parte fácil para Marcelo Rebelo de Sousa. Por ele, vai andar na rua a comprar pastéis de Belém ou a aviar caixas de Omeprazol enquanto ajuda turistas chineses ou tira selfies com estudantes de visita à capital. E, sempre que houver algum problema, lá estará a falar ou a escrever qualquer coisa, seja frente a um microfone, no Facebook, num pedido de fiscalização ao Tribunal Constitucional ou numa manchete de jornal. Não vai precisar de alguém que o faça por ele, pela simples razão de que é o melhor e de que nunca fez outra coisa na vida. Marcelo resolveria todos os problemas do mundo da mesma forma que Cícero se livrou de Catilina na velha Roma, discursando sem parar. E Cícero nem tinha o treino de anos e anos de televisão...

O handicap de Marcelo é outro, ou melhor, outros: a fraca experiência em funções executivas e a menor preparação em temas financeiros que dominam a política dos nossos dias. E essas questões podem marcar a sua presidência para sempre. Ao contrário de Cavaco, Marcelo tem pontes para todos os partidos políticos e fala com à vontade e sem preconceitos com qualquer líder partidário. Sabe ler um editorial do “Avante!” e perceber as pequenas divergências do CDS pós-Portas e navegará na política do dia a dia como um comandante de alto mar. Mas estará mais inseguro noutras áreas: nunca dirigiu um órgão executivo de primeira grandeza, ainda não esteve envolvido em negociações pesadas internacionais, não é especialmente conhecido ou respeitado em praças financeiras ou nos órgãos de comunicação social que ditam regras nesses campos. Esta semana, tanto o “Financial Times” como o “Wall Street Journal” se referiram ao novo Presidente como o mais conhecido e popular comentador televisivo português. E estavam certos...

Ana Baião

Os pontos fracos de Marcelo residem inteirinhos naqueles domínios onde, por exemplo, António Guterres ou Durão Barroso seriam imbatíveis. Os dois têm as melhores agendas telefónicas do país, tratam os líderes mundiais por tu, estão em Davos como quem está em casa, sabem a quem telefonar nas horas de aperto e, já agora, têm experiência de governação. Marcelo Rebelo de Sousa tem perfeita noção disso, mas terá de ultrapassar a sua lendária mania de autossuficiência, própria dos alunos brilhantes, treinados em carreiras solitárias e capazes de tocar vários instrumentos ao mesmo tempo, por uma bateria de assessores com juízo, bom senso e, já agora, boas noites de sono.

Quem serão os assessores do novo Presidente e os seus braços-direitos nas Casas Civil e Militar? A questão não é menor, porque as capacidades de solista de Marcelo não vão chegar para tudo e porque a sua experiência de trabalho em equipa não é a melhor nem a mais produtiva. Em Belém, não interessa ser o mais rápido, nem o que dorme menos, nem o que tem a cultura geral mais avassaladora, nem sequer o mais popular. Para se deixar obra e ter tudo a funcionar bem, é preciso um contínuo trabalho de equipa, calma, ponderação e bom senso. O génio e o golpe de asa podem fazer a diferença, mas a base está no trabalho do dia a dia.

José Carlos Carvalho

A Esquerda da Direita e a direita de quê?

Uma das frases que mais polémica provocou na morna mas eficaz campanha de Marcelo foi aquela em que ele disse que era “a esquerda da direita”. A polémica foi um pouco absurda, porque a frase é verdadeira e lógica. Ser a esquerda da direita é uma possibilidade geométrica e política. E o PSD original — ou o PPD, se preferirem — era isso mesmo e veio ao mundo com essa ideia. Dizer hoje tal frase, quando a política vive a ressaca dos dias de brasa das últimas eleições legislativas, pode ser uma heresia para muitos, tanto para os que estão à esquerda como para os mais à direita. Mas para Marcelo isso não tem problema e nem sequer é uma questão tática. É o que é.

E, neste caso, ser o que se é até pode dar para desdobrar o raciocínio, porque quem é a esquerda da direita é, em simultâneo, a direita da esquerda. E é também, por gozo absoluto, o povo das elites ou a elite do povo. E o mais crente dos céticos e o mais cético dos crentes, o mais mundano dos estoicos e o mais estoico dos mundanos. É essa misturada de características, de ser uma coisa e o seu contrário, que molda ao mesmo tempo a popularidade de Marcelo e o desdém com que é muitas vezes olhado. Porque ele vai a todas e não dá a vida por nada, porque se dá bem com Deus e com o Diabo, porque está com o mesmo à vontade no São Carlos ou na Zona J de Chelas, numa missa de um padre conservador ou com os mineiros de Aljustrel na Festa do “Avante!”. É esta suposta despolitização que o faz ser desprezado pelas elites políticas e torna quase impossível adivinhar como vai moldar o seu mandato em Belém.

Esses alegados defeitos decorrem muito mais da sua profissão do que de um taticismo gelado. O que fez Marcelo ser brilhante na análise política — da página 2 do Expresso à TSF e depois às prédicas televisivas — não foi nenhuma marca ideológica ou projeto político. Não foi sequer o ter informação em primeira mão nem a incrível capacidade de a processar, apesar de dar cartas nas duas tarefas. O que o atirou para um nível superior, quase inatingível, foi a capacidade de ver tudo com frieza, despido do ADN político, renegando as origens e os seus.

Octávio Passos/EPA

Nesse processo especializou-se demasiado na forma. Começou com as notas na TSF e foi por aí fora com expressões como “esteve bem”, “fez mal” ou “foi um desastre”. O bem, o mal ou o desastre tinham mais a ver com a forma do que com o conteúdo, e isso irritou muita gente, normalmente os que estavam no governo. Nos últimos anos, irritou sobretudo aquela que devia ser a “sua gente”. Foi ficando mais só, sem séquito nem grupos, mas sem desligar todas as raízes. A sua ida ao último congresso do PSD, para desespero de Pedro Passos Coelho, foi a prova de força mais brutal que alguém fez numa reunião partidária em muitos anos. Chegou sem ser convidado, vergou a sala com um número irrepetível e saiu em ombros. Mostrou que o partido era dele e que ninguém tinha a mínima hipótese de avançar contra ele. O tempo deu-lhe razão. Cata-vento mediático ou não, o caminho para a Presidência seria traçado por ele, com o seu timing e com as suas ideias. As bases estariam sempre ao seu lado. As elites, já se sabe, nunca estariam: detestam Marcelo, mas as elites, todas somadas, não enchem um estádio.

Comento logo existo, presido logo...

Como é que o rei da forma vai querer moldar a sua presidência? Não será seguramente pela ideologia nem por uma extrema intervenção. Mas é quase impossível que não tenha uma leitura menos restritiva dos poderes presidenciais do que teve Cavaco Silva. Talvez por ter sofrido na pele a leitura mais extensiva que Mário Soares fazia da Constituição, Cavaco foi rigoroso no uso dos poderes presidenciais quando chegou ao Palácio de Belém, lendo-os na versão minimal e usando-os com parcimónia.

Com tudo o que disse e criticou durante estes anos e, já agora, com o que ensinou aos seus milhares de alunos, Marcelo vai querer deixar uma marca clara neste campo. No fundo, todos os Presidentes o fizeram. Eanes numa fase em que esses poderes eram mais extensivos, Soares, Sampaio e Cavaco num quadro mais limitado, depois da Revisão Constitucional de 1982. Mas é relativamente fácil encontrar as marcas de cada um dos Presidentes através da leitura que foram fazendo dos seus poderes e do raio de ação que foram estabelecendo ao longo dos mandatos.

josé carlos carvalho

A marca mais óbvia de Marcelo será sem dúvida neste campo. Ele vai querer ser o Presidente de todos os portugueses, vai querer ser uma pop-star como Soares chegou a ser, um símbolo da austeridade que Eanes ainda respira, um exemplo na política internacional que Sampaio soube pisar e um sinal de alerta sobre finanças públicas como Cavaco fez questão de ser até ao fim. Vai querer ser isso tudo e vai querer ser Marcelo. Só daqui por uns meses ou mesmo anos é que saberemos dizer com segurança o que é isso de “ser Marcelo”. Com o mergulho que vai dar nas águas institucionais, já não vai valer muito a pena traçar retratos de carácter, lembrar tropelias ou toques de campainha, traições circunstanciais, golpes de génio ou análises brilhantes. Isso fica tudo para trás, será o hábito a fazer o monge e Belém a fazer a sua história. No fundo, não será nada de muito novo: quando foi presidente do PSD, Marcelo já foi muito institucional. O seu consulado teve alguns sucessos e desastres evidentes, mas o deve e haver desses anos não assenta nas suas fragilidades pessoais, muito menos nas anedotas e lendas que circulam à sua volta. É um deve e haver político de um líder de transição, entre Fernando Nogueira e Durão Barroso, que levou o barco com segurança mas sem o brilhantismo que todos lhe reconheciam noutras paragens e que depois demonstrou na televisão.

Em Belém, o regresso a essa pose institucional será total. Não na rigidez de Cavaco nem sequer nas idas à rua ou na agenda, mas no discurso e na intervenção. O problema não está nisso, mas em tudo o que o rodeia, no país a que vai presidir, acabado de sair de um resgate financeiro e num quadro de enorme instabilidade. Com a atual situação política, económica e financeira, a história do(s) seu(s) mandato(s) tanto pode ser de pontes como de ruturas, de acordos como de desastres, de pequenos sucessos ou de crises que já vimos demasiadas vezes.

Em nome do Centro. E do vértice?

A sua entrada em Belém vai fazer-se pelo centro, uma novidade desde os tempos de Ramalho Eanes, sobretudo da primeira eleição. Mário Soares partiu do domínio total da esquerda par alargar o seu eleitorado ao centro, Jorge Sampaio fez mais ou menos a mesma coisa, Cavaco Silva protagonizou o movimento inverso: partiu do domínio natural de toda a direita — o que lhe falhou em 1996, quando o CDS não o apoiou oficialmente contra Sampaio, perdendo as eleições — para conquistar o centro, que já lhe tinha dado duas maiorias absolutas.

Jose Carlos Carvalho

Marcelo fez uma opção que irritou muita gente à direita mas que, pelos vistos, foi indiferente aos eleitores. Colocou-se ao centro, despolitizou a ação e o discurso e foi alargando o eleitorado. Mostrou estar certo na estratégia e é natural que o faça até ao fim. Dificilmente dará um passo para poder ser acusado de ser um Presidente de fação. Quando dissolver a Assembleia da República — e isso acontece a todos — será quando tiver a certeza absoluta de que o eleitorado vai produzir um resultado muito diferente do atual. Nenhum Presidente dissolveu o Parlamento sem ter essa certeza e nenhum o fará no futuro, por razões óbvias. Um Presidente que dissolva o Parlamento e receba outro igual ou parecido fica totalmente diminuído.

Neste caso interessa muito pouco saber se o Presidente e o primeiro-ministro se dão bem. Cavaco Silva e José Sócrates davam-se lindamente quando começaram a trabalhar em conjunto e transformaram-se em pouco tempo na dupla mais dissonante da nossa história recente. Sampaio dava-se bem com Santana Lopes mas acabou por tomar uma das decisões mais radicais da história de Belém ao dissolver um Parlamento onde o PSD e o CDS tinham maioria absoluta. Já Soares nunca cumpriu a ameaça de dissolver o Parlamento onde Cavaco tinha uma sólida maioria, apesar dos avisos do célebre jantar do Aviz, onde os soaristas mais proeminentes discutiram com o então Presidente o uso da bomba atómica da dissolução. Marcelo nunca dissolverá por se dar bem ou mal com este ou outro primeiro-ministro, que entretanto surja. Marcelo, tal como os antecessores, só dissolverá quando souber que tem um resultado muito diferente pela frente. Até lá, resta percorrer outros caminhos.

Há um caminho que Marcelo quer fazer mas que é tudo menos fácil. É o dos pactos. Seja sobre a Saúde, a Segurança Social, a Justiça ou outro tema qualquer, Marcelo vai querer deixar essa marca de aproximação entre partidos que se afastaram, sobretudo entre PS e PSD. Mas a atual conjuntura política quase impossibilita este tipo de conversas. Não é fácil ver como é que a direção do Partido Socialista faz um pacto de regime com a do PSD quando precisa de negociar em permanência com o Bloco de Esquerda e o PCP. Aqui, o novo Presidente terá de encontrar temas e caminhos nada óbvios para pôr todos de acordo.

José Carlos Carvalho

A vida presidencial será tudo menos fácil neste contexto político inédito. O Presidente da República é o vértice e a válvula de um sistema que tinha uma enorme zona de aproximação ao centro, representada pelos dois maiores partidos. Neste momento, essa enorme zona é um quase vazio do ponto de vista partidário. No fundo, é Marcelo quem ocupa esse espaço e o representa na perfeição. E que interesse tem ocupar esse espaço quando não se tem interlocutores? Esta é uma das grandes incógnitas sobre o sucesso ou a irrelevância da próxima Presidência. A outra é a situação financeira.

Um café e a conta

Por mais que nos entusiasmemos ou bocejemos com as andanças da política, o que vai marcar o nosso ritmo durante alguns anos será todo o enquadramento financeiro do Estado, o Orçamento, as linhas orientadoras de Bruxelas, a capacidade de emitir dívida a juros razoáveis, de diminuir o défice estrutural e de baixar o stock de dívida pública. Não se trata de uma ditadura das finanças, mas de uma realidade pura e dura. O atual Governo está apostado em mostrar que há margem política para escolher outros caminhos dentro das regras, mas qualquer passo em falso pode ter consequências políticas.

Achar que o mandato presidencial pode viver longe destes problemas e dos sucessos ou insucessos que existam nesta frente é um puro delírio. É óbvio que o sucesso político das presidências de Soares ou a boa popularidade de Jorge Sampaio decorreram da sua ação política, mas dificilmente teriam escapado incólumes a um resgate financeiro. Do mesmo modo, se Cavaco Silva é muito responsável por uma parte da sua impopularidade — sobretudo no segundo mandato —, também é certo que um quadro de extrema austeridade acabou por condicionar toda a sua ação e a perceção que os eleitores acabaram por ter do Presidente.

Marcelo Rebelo de Sousa é um homem crente. No atual quadro político e económico, é bom que reze pelas nossas finanças públicas e pela aproximação entre os partidos. O sucesso destas preces será o seu sucesso. Se tudo correr mal, nada o salva. Será uma bala perdida que falhou no “Exame Final” e será lembrado pelos anos de glória e brilho televisivo, pela vida académica e pela genialidade jornalística. Não é pouco, mas não é o que se espera de um Presidente.

Jose Carlos Carvalho

O verdadeiro facto político da vida de Marcelo

As primeiras sondagens sobre presidenciais, algures em 2013, anteviam combates bem mais excitantes do que aquele que Marcelo Rebelo de Sousa acabou por viver. “Marcelo e António Costa são os melhores candidatos para as presidenciais”, titulava o “Negócios” sobre uma sondagem da Aximage que dava Costa como o mais bem colocado à esquerda (com 43,8%) para as eleições de 2016, seguido de António Guterres (27,3%), Maria de Belém (10,4%) e Sampaio da Nóvoa (3,1%).

A pergunta óbvia já não interessa: como teria sido se Marcelo tem apanhado pela frente o politicão que chegou a primeiro-ministro depois de perder as legislativas ou o homem que acabou de anunciar ser candidato a secretário-geral da ONU? E não interessa porquê? Porque Marcelo Rebelo de Sousa pode ter tido sorte mas percebeu que a sorte dá trabalho. E desta vez ele fez tudo certo.

Há três anos, quando decidiu anunciar na TVI que não excluía ir às presidenciais, Marcelo sabia que tinha criado um personagem que o país passara a tratar por tu. Também sabia que o facto de ter a popularidade no céu vinha de ter conseguido com a sua arma de sempre, a política, chegar onde só o entretenimento chegava (mais de milhão e meio de telespectadores durante anos era coisa nunca vista). E era preciso pensar o que fazer com aquilo.

Quem o conhece não arrisca se foi primeiro o ovo ou a galinha. “Dizer-se que usou a televisão para chegar a Presidente é pobre. Durante anos, ele fez o que realmente gosta, comentário político, e também gosta de um certo espetáculo. Viveu a vertigem da TV e ficou viciado em audiências. À segunda-feira era uma excitação”, conta um amigo. Mas o vício dos shares passou a ser pouco. Em finais de 2013, Marcelo — que até aí, sempre que Judite de Sousa puxava a conversa das presidenciais, só admitia ir a jogo se não houvesse mais ninguém interessado — deu um passo em frente: admitia avançar por “dever moral”.

Jose Carlos Carvalho

Estava-se a dois meses do congresso do PSD, não haveria outro antes das presidenciais, e o comentador sabichão sabia que Passos Coelho devia inscrever na sua moção de estratégia umas palavras sobre que candidato admitia apoiar. Passos, que não confia em Marcelo, carregou nas tintas: não apoiaria um “cata-vento mediático”. E Marcelo, num primeiro momento, amuou. “Eu teria pegado no telefone e teria dito: desampare a loja. Se o líder do partido diz que a candidatura é indesejável, uma pessoa de bom senso não vai dividir o eleitorado, dando a vitória ao outro lado.”

Parecia uma desistência. Mas não era. No dia do congresso, Marcelo Rebelo de Sousa entra de surpresa no Coliseu, sobe ao palco e faz uma das mais eficazes intervenções da sua vida política. Com os 40 anos do partido em pano de fundo, diz que não podia estar ausente, ele que escreveu o comunicado da fundação do PPD, e num improviso de uma hora, carregado de emoção e humor, pôs os ‘laranjinhas’ ora a rir à gargalhada ora a aplaudi-lo em comoção. No fim, levantou o congresso e percebeu que tinha partido para o que quisesse.

O processo de decisão firme começou aí. Durante um ano, Marcelo aproveitou o aniversário do PSD para percorrer tudo quanto era distrital, concelhia ou secção, e de caminho despachava convites de universidades, quartéis de bombeiros, misericórdias, paróquias e afins. A TVI ajudava. Se o professor sugeria livros, convidavam-no para lançamentos. Se trazia bolos e queijos que lhe mandavam para “a Judite”, o share crescia. E o espetáculo foi tal que acabou com Marcelo a entrevistar Cristiano Ronaldo.

O PSD arrepia-se. Mas o povo adora. Ouvir falar de política, economia, livros ou futebol no mesmo português fácil não acontece todos os dias. E, quando acontece 15 anos seguidos, o protagonista faz história. Foi assim — com todas as sondagens a repetirem que era ele o imbatível — que Marcelo Rebelo de Sousa viu Guterres desistir, depois António Costa, depois António Vitorino. E passou a só ter de se preocupar com a sua área política. Nem por isso foi dócil com o Governo de Passos. Há um ano, registou na TVI a vitória do Syriza como “um momento histórico”. E foi assim, em registo independente, que viveu o ano decisivo. Acusou o Governo de “não acertar uma em matéria de comunicação”. Avisou (quando se soube de velhas dívidas de Passos à Segurança Social) que “a pessoa para pagar não precisa de ser notificada”. Arrasou a venda da TAP — “foi dada”. Aconselhou o PM a “deixar de ser o bom aluno [na UE] que faz queixinhas do outro [a Grécia]”.

Parecia um guião para perder o apoio do PSD. Mas o apoio do PSD era certinho — foram milhares de quilómetros, selfies e afeto — e Marcelo precisava de ser maior do que a direita, que na altura ainda arriscava perder as legislativas. Atento a Rui Rio, que ponderava avançar antes do outono, Marcelo define um calendário: avançar antes de outubro é “perturbar” as legislativas. Marques Mendes (apoiante ativo, na SIC) faz o resto: diz que, com Rio ou sem Rio, Marcelo vai na mesma. O ex-autarca do Porto desiste. E, com o caminho aberto e as legislativas à porta, Marcelo cumpre o dever e apela ao voto na coligação — “a proposta mais segura e ponderada para o futuro de Portugal”. Passos percebe e evita a única coisa que podia tramar Marcelo: apoiar formalmente outro candidato. Pelo contrário, conclui não ter alternativa.

Luís Barra

Marcelo vai-lhe dar um abraço no último dia da campanha das legislativas, em Lisboa. Mas na noite eleitoral avisa que, apesar de a direita ter ganho, podia vir aí um acordo PS/PCP/BE. Foi a última do comentador. Sem ficar à espera que a solução política se desatasse — o que o obrigaria a tomar posição sobre ela —, Marcelo anuncia, em cinco dias, que é candidato. O resto foi o que se viu. Um anúncio sui generis — em Celorico, sozinho, com a bandeira nacional — e uma campanha ainda mais sui generis, solitária, de costas viradas para o aparelhismo partidário e as faturas de milhões, com a ideologia no bolso, o afeto nas mãos e o olho nas câmaras.

A meio caminho, quando os adversários o acusavam de não dizer nada e as redes sociais ferviam com histórias do incontrolável criador de factos políticos, ele arriscou: “Às vezes, apetece-me voltar a fazer de comentador e dizer que eles não estão a ver o filme.” No papel de promotor de convergências políticas e com duas ou três prioridades — corrigir injustiças sociais sem comprometer a solidez financeira e puxar pelo país —, Marcelo ganhou à primeira com mais de 52% de votos e vai ser Presidente da República. É o facto político da sua vida.