Siga-nos

Perfil

Expresso

Política

Jorge Sampaio. “Europa está a mudar lentamente. Falta liderança, falta assumir responsabilidades”

  • 333

MIGUEL A. LOPES / LUSA

Em entrevista à Rádio Renascença, o antigo Presidente da República critica a resposta europeia à crise dos refugiados, diz-se “triste” com a atuação de países como a Dinamarca e garante: “Não há outra maneira de construir a Europa do futuro senão pela inclusividade”

A poucos dias da Conferência de Londres para a recolha de fundos, Jorge Sampaio afirma, em entrevista ao programa “Terça à Noite” da Rádio Renascença, que o evento deve ser um “sucesso” de forma a ajudar milhões de vítimas da guerra síria.

“As pessoas têm que se comprometer e finalizar os compromissos para que ao menos estas três vertentes possam ser perseguidas: o emprego, a educação e a segurança”, diz o antigo Presidente da República.

Sampaio lembra que metade dos contributos anunciados na última reunião não foram concretizados, sendo vital prosseguir os esforços neste conferência.“Temos mais de quatro milhões de refugiados sírios na área, 13 milhões de deslocados no interior da Síria”, sublinha.

O ex-Presidente da República defende a importância de ajudar os estudantes universitários, uma preocupação antiga, aliás, uma vez que há três anos criou a Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios. “É perfeitamente compreensível que a primeira preocupação [na educação] sejam as crianças, obviamente que não têm escola e há milhares de crianças que não têm a mais pequena referência escolar. Mas há, por outro lado, estudantes universitários que veem os seus estudos interrompidos, que são no fundo o futuro do país”, sustenta.

Jorge Sampaio critica também a resposta europeia à crise dos refugiados, frisando ser vital ajudar de forma mais eficaz os refugiados que fogem da miséria e da guerra. “Não podemos, a pretexto da tragédia que estamos a viver e da falta de respostas coordenadas da Europa, deixar de ajudar os países limítrofes da Síria, e a própria Síria, a criarem emprego e educação. Aí à volta estão quatro milhões de pessoas, metade da população portuguesa”.

Para o antigo alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações, a Europa está confrontada com um problema relacionado com “alguns dos seus eixos fundadores”. “A Europa está a mudar lentamente. Falta liderança, falta assumir responsabilidades. A ausência de uma política que contribua para o desenvolvimento real de alguns destes países que estão na fronteira Sul do Mediterrâneo. Até tenho vergonha de falar no número de pessoas envolvidas neste processo de migração para a Europa, quando comparados com o que se está a passar, por exemplo, na Jordânia, na Turquia e no Líbano. Devíamos ter algum pudor”, observa.

Salientando que as sociedades atuais estão a tornar-se interculturais, Sampaio garante: “Não há outra maneira de construir a Europa do futuro senão pela inclusividade”.

Confrontado sobre a possibilidade de a Grécia ser excluída do espaço Schenguen, o antigo Chefe de Estado considera essa situação “grave”. “Não nos podemos esquecer da situação económica, para além do resgate e tudo o que isso significa de violento”, justifica.

Sobre a decisão da Dinamarca confiscar os bens superiores a 1340 euros dos refugiados que cheguem ao país, o antigo Presidente manifesta-se “triste” e fala mesmo em “hipocrisia”. “É absolutamente lamentável pensar-se que uma pessoa pode ser desapossada das suas alianças para depois serem vendidas em leilão, é algo que eu não imaginava poder ver vindo daquele país. Isto é a demonstração de que cada um está a correr por si e que tudo isto tem a ver com problemas muito mais vastos, muito mais gerais, que agora são obviamente acelerados por esta pressão que é nova e que põe definitivamente a Europa em causa”, conclui.