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Candidatura à ONU. Guterres sabe das dificuldades mas diz que tinha esse dever

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MIGUEL A. LOPES / Lusa

Antigo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados falava aos jornalistas depois de ter sido condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade

António Guterres reconhece que existem "muitas dificuldades" na sua candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, mas diz que entendeu ser seu dever manifestar essa disponibilidade.

"Não é fácil como é sabido, há um conjunto de circunstâncias complexas que rodeiam essa eleição, mas acho que é meu dever estar disponível, mas com muita tranquilidade", afirmou esta tarde o antigo Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, em declarações aos jornalistas depois de ter sido condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

Adiantando que as consultas no plano internacional sobre eventuais apoios à sua candidatura ainda não começaram, "com duas ou três pequenas exceções", o ex-primeiro-ministro diz que a sua grande preocupação era que em Portugal esta não fosse sentida como sendo apenas do Governo ou de uma pessoa, mas que envolvesse as diferentes forças políticas e os diferentes órgãos de soberania.

"Tenho a obrigação de dizer estou disponível para poder fazer algo mais em matéria de serviço público", insistiu.

Sobre os dez anos em que desempenhou o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, Guterres reconheceu que saiu com "uma grande desilusão" por ver que em relação à crise migratória e dos refugiados a Europa não foi capaz de se unir e organizar, embora tenham existido "enormes manifestações de solidariedade".

"Sempre fui um europeísta convicto, sempre fui daqueles que entende que a Europa só pode afirmar-se com êxito no quadro internacional se estiver unida", referiu, insistindo que não ter visto a Europa unida foi "fonte de grande tristeza e grande frustração".

Por isso, acrescentou, é "profundamente reconfortante voltar a Portugal", um país que é um "exemplo extraordinário", "um país sem medos, um país sem ansiedade, um país onde pode haver aqui ou ali manifestações sociais de xenofobia, mas a xenofobia nunca teve expressão política e onde nenhuma eleição foi travada a propósito das questões da imigração, onde ser xenófobo e populista nunca deu votos a ninguém".

"Sou profundamente orgulhoso em relação ao país e ao povo que somos", reforçou, depois de na intervenção feita após ter recebido a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade ter falado de Portugal como um "espaço de paz, de segurança e de coesão nacional".

Na sua intervenção, o ex-primeiro-ministro socialista falou ainda da forma como o 25 de Abril de 1974 é "uma lição admirável para o mundo", pois foi uma revolução sem sangue e em que se reformou o Estado sem o destruir.

"Vemos Estados muito mais ricos do que nós onde prolifera a intolerância, os medos, as ansiedades, por vezes mesmo manifestações de xenofobia e onde há como que uma procura de uma identidade ilusória perdida do passado. Às vezes, faz lembrar aquilo que é a memória trágica das campanhas pela pureza da raça de algumas décadas atrás", sustentou.

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