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E se houvesse uma TV Belém para o antigo comentador?

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José Carlos Carvalho

O ex-comentador, recém-eleito Presidente da República, gostaria de poder manter comunicação direta com os eleitores (artigo publicado originalmente na edição semanal do Expresso de 22 de janeiro)

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

É uma ideia que anda na cabeça de Marcelo e um pedido que lhe vai sendo feito pelos eleitores: é possível que, sendo Presidente da República, o antigo comentador televisivo possa ter um espaço mediático para manter a comunicação direta com os portugueses? Foi o que lhe pediu uma idosa num centro da Misericórdia do Barreiro, que Rebelo de Sousa visitou na terça-feira passada, durante a campanha eleitoral. Fã das prédicas dominicais que o professor teve na TVI durante anos, a dona Antónia desafiou-o a “falar mais na televisão”, mesmo que seja eleito para Belém. “Vamos ver como é que fazemos para eu falar mais na televisão”, respondeu-lhe o candidato.

É para levar a sério? O próprio, questionado na altura pelo Expresso, disse que não foi a primeira vez que ouviu esse pedido e não negou que gostaria de conseguir essa quase quadratura do círculo. “É um desafio”, reconhece. Muitos portugueses habituaram-se a ver em Marcelo alguém que lhes explica o mundo, lhe dá sentido com a sua forma descontraída de comentar a realidade, e o próprio gostaria de não desperdiçar “essa experiência que faz parte do meu percurso”. “É um desafio, até por isto: eu sempre disse que um dos problemas da democracia portuguesa era a comunicação em muitos casos ser muito deficiente, insuficiente, tardia e às vezes nula, o que acabou por ter consequências em termos de distanciamento das pessoas em relação a quem governa e consequências em relação à compreensão e aceitabilidade das medidas. É evidente que não se pode reduzir a política à comunicação, mas toda a gente sabe que a comunicação é muito importante.” Além disso, Marcelo acha que “cada Presidente deve utilizar as suas características e virtualidades. Eu, entre outras, tenho essa”, a capacidade de comunicar facilmente com os cidadãos.

Como fazer, então? Os “esquemas clássicos”, reconhece Marcelo, “são muito rígidos: o Presidente a falar em cerimónias mais tradicionais, ou em conferências de imprensa — que nem é uma tradição portuguesa, mas de regimes presidencialistas. Também há a alternativa de o Presidente da República, nas suas deslocações, ter intervenções pontuais sobre temas de atualidade. Mas isso é muito curto, porque é sobre o tema do dia e não dá tempo para explicar nada e nem sempre fica compreensível.”

Tudo visto e ponderado, Marcelo gostava mesmo de conseguir ter um modelo novo, um espaço seu em que possa usar as suas qualidades de comunicador. “As pessoas têm vontade de que não se perca essa ligação, é verdade”, reconhece, na conversa com o Expresso.

Se, com as novas tecnologias, qualquer um pode ter o seu canal de televisão, porque não uma TV Belém?, perguntamos-lhe. “Temos de ver com cuidado, porque num regime semipresidencial não se pode criar a situação de um contrapoder ou de um poder com força de atrito em relação ao governo. Também depende muito da compreensão do futuro Presidente sobre qual é a política de comunicação do Governo, que eu ainda não percebi.”

Marcelo mostra-se cauteloso, mas não esconde que há ali alguma coisa a germinar. “É uma ideia que tem de ser vista, já em exercício de funções e percebendo como é que isso engrena com os outros órgãos de soberania.”

Que resposta pode dar, para já, à dona Antónia que, no Barreiro, anseia por ter o Presidente Marcelo a explicar-lhe o mundo pela televisão? “Pela própria natureza das funções presidenciais, ela vai ver-me muitas vezes na televisão. Mas eu sei que não era nisso que ela estava a pensar. Ela espera que eu explique o que seja preciso explicar — e eu posso dizer que irei pensar na maneira de cumprir essa função, que é pedagógica.”