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Por favor, preocupem-se

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Arquivo “A Capital”

Se há príncipes numa República, Almeida Santos foi um deles. Foi tão príncipe quanto Soares foi ‘Rei’. Esses tempos passaram. Muito do que um e outro disseram e fizeram seria hoje desconsiderado por parte deste PS. Almeida Santos considerava-se um pessimista e o advir de tempos novos preocupavam-no mais do que o exaltavam: “Sou muito pessimista sobre o futuro da nossa civilização e acho que o pior da globalização é o cidadão globalizado, sujeito aos valores do capitalismo liberal”

Henrique Monteiro

Henrique Monteiro

Redator Principal

Uma vez, numa das muitas entrevistas que concedeu, António Almeida Santos respondeu de forma erudita às muitas acusações que lhe faziam sobre misturar política com dinheiro. Havia quem dissesse que uma vírgula por si introduzida numa lei podia valer milhares (de contos, na altura); havia quem o considerasse o corrupto, por excelência, do regime; o homem do centrão; o negociante por excelência. O entrevistado, dando bom uso ao latim que aprendera em Coimbra, na Faculdade de Direito, desarmou o entrevistador: negócio é o contrário do ócio, disse. “E eu não sou um homem ocioso”.

Neste caso, mais vale uma entrada a pés juntos. Qual era a grande crítica que se fazia a este homem que acaba de falecer pouco antes de completar 90 anos, o que ocorreria no próximo dia 15 de Fevereiro? Era a de ter minado a política com os negócios. Quais as provas? Nenhumas! Quais as probabilidades? Algumas (já lá iremos). Quais os sinais de riqueza dados pelo próprio? Nenhum! Qual o meu veredicto, acaso fosse chamado a pronunciar-me? Negativo. Almeida Santos distribuiu no que me diz respeito? Simpatia e bom senso, cultura e amizade.

Arquivo “A Capital”

As suspeitas têm a ver, sobretudo, com o facto de, sendo ele o maior (ou um dos maiores) advogados de Moçambique no tempo colonial, ter acumulado algum pecúlio. Pode ter a ver com o facto de sua mulher, Margarida Areias, possuir alguns bens. Dever-se-ia, sem dúvida, a ser amigo de Stanley Ho, um dos homens mais ricos do mundo. Teria a ver com o seu sócio durante muitos anos, o advogado Deodato Coutinho, seu secretário de Estado no Governo Palma Carlos (o I depois do 25 de Abril), que foi sempre um advogado de negócios.

Mas a contraprova pode fazer-se: ainda recentemente Marinho e Pinto o acusou de fazer leis a favor de clientes e teve de recuar na acusação; a casa onde mora (ou para onde se mudou depois da tragédia pessoal que foi o suicídio de uma filha) é a mesma há mais de 35 anos (pelo menos) e não tem quaisquer sinais exteriores de riqueza. A sua fama era apenas uma: a tendência para pedir pequenos favores a toda a gente que conhecia: um emprego para este, um cargo para aquele. Fazia-o, podem acreditar, sem olhar a ideais políticos. Fazia-o, porque era assim no seu tempo. Um dos beneficiados? Por exemplo, o jornalista Carlos Pinto Coelho, que o conhecera em Moçambique.

Acima de tudo foi um enorme legislador. Entre a lembrança de uma lei e a sua colocação em letra de forma e conforme à restante legislação era coisa de horas. Escrevia noite e dia, sem parar e sem se queixar. Se reuníssemos toda a legislação que escreveu, teríamos um volume de tamanho inexplicável. Publicou, ainda assim, 26 livros, a maioria de tom memorialista. Considerava-se um pessimista e o advir de tempos novos preocupavam-no mais do que o exaltavam: “Sou muito pessimista sobre o futuro da nossa civilização e acho que o pior da globalização é o cidadão globalizado, sujeito aos valores do capitalismo liberal”, disse um dia.

Arquivo “A Capital”

Na política foi tudo. Nascido em Seia (terra de Afonso Costa e do pai de Álvaro Cunhal, Avelino Cunhal) em 1926, terminou o 6º Ano de Ciências Jurídicas em 1952. Seguiu para Lourenço Marques, hoje Maputo, em 1953, onde se tornou nos 20 anos seguintes um importante advogado de todas as causas, incluindo a dos presos políticos. Foi candidato pela Oposição Democrática naquela então Província Ultramarina e voltou a Portugal, por convite de Spínola, tendo sido ministro da Coordenação Interterritorial dos I, II, III e IV Governos Provisórios e ministro da Comunicação Social do VI Governo Provisório; ministro da Justiça no I Governo Constitucional, altura em que aderiu ao Partido Socialista. Aí, tornou-se um quase incondicional de Soares, sobretudo depois da rotura entre este e o chamado ex-Secretariado, onde pontificava Salgado Zenha, até então o número dois do PS. É a partir dessa altura, e aproveitando o seu inestimável contributo para a revisão Constitucional de 1982 (para a qual chama António Vitorino) que se torna informal e depois formalmente o número dois dos socialistas. De tal modo que em 1985 é ele que, tendo sido ministro de Estado no Governo do Bloco Central (o número dois do PS), se candidata a primeiro-ministro, uma vez que Soares já está lançado para as presidenciais.

A enorme derrota – o pior resultado de sempre do PS – deve-se talvez também ao seu fraco jeito, mas sobretudo ao nascer do PRD com a mão de Ramalho Eanes (que muitos socialistas informalmente apoiaram) e que divide o tradicional eleitorado do PS quase a meio. No entanto, para quem com ele percorreu o país de camioneta, de lés-a-lés, aproveitando do bom uísque que o candidato distribuía a horas próprias, uísque bom, uísque velho, a sua simpatia foi inesgotável.

Depois da derrota volta ao Parlamento, como deputado. O sector anti-soarista que ganha o partido dá a presidência do PS a Manuel Tito de Morais, um dos fundadores (1986-1989) e a João Ferraz de Abreu (1989-1992), este antigo democrata de Aveiro, mas não fundador do PS. Só em 1992, quando António Guterres se torna secretário-geral, o cargo vai para Almeida Santos, que por lá fica 19 anos, até 2011, quando o cede a Maria de Belém, a candidata que apoiava nestas presidenciais e sendo um dos que mais batalhou para que fosse ela a candidata do PS. Como se sabe, em 2014 o cargo passou de Belém para Carlos César, que o exerce atualmente.

Arquivo “A Capital”

Se há príncipes numa República, Almeida Santos foi um deles, como aqui escreveu Ricardo Costa. Foi tão príncipe quanto Soares foi ‘Rei’. Esses tempos passaram. Muito do que um e outro disseram e fizeram seria hoje desconsiderado por parte deste PS. Foram construtores da democracia, cometeram erros, viveram a vida sem achar que a política era a sua única dama, embora muitas vezes fosse.

Depois de António Macedo, Cal Brandão, Tito de Morais, Francisco Ramos da Costa, Álvaro Monteiro, Jorge Campinos, Fernando Vale, Gustavo Soromenho, José Magalhães Godinho, Vasco da Gama Fernandes e Maria de Jesus Barroso, poucos ficam dos tempos heroicos. Quase nenhum com preponderância no PS, apesar de fundadores, como António Reis, Jaime Gama, Mário Mesquita, Nuno Godinho de Matos ou Alberto Arons de Carvalho. Fica, sobretudo, Mário Soares, que um a um vai perdendo os seus mais chegados companheiros políticos.

E fica o título de um dos livros de Almeida Santos, que é premonitório: “Por favor, preocupem-se”.

Tiago Miranda